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Cremos na família realmente como agente da ação evangelizadora ou meramente como “receptáculo” passivo? Estamos dispostos, como Igreja, a também beber dessa fonte, ou apenas a pensá-la e a utilizá-la como “receptáculo” passivo de uma “transmissão”?Talvez seja justamente do nosso modo de pensar e de dizer o “evangelho da família hoje” que advenham as maiores incompreensões e, principalmente, desafios.

A opinião é do jornalista Moisés Sbardelotto, doutorando em Ciências das Comunicação pela Unisinos e autor do livroE o Verbo se fez bit: A comunicação e a experiência religiosas na internet (Ed. Santuário, 2012). É também membro da Comissão Especial para o Diretório de Comunicação para a Igreja no Brasil, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). O artigo foi publicado na revista O Mensageiro de Santo Antônio, de setembro de 2014.

Eis o texto.

No fim de junho, foi divulgado o “instrumento de trabalho” (Instrumentum laboris) da III Assembleia Geral Extraordinária do Sínodo dos Bispos, que será realizada em outubro sobre o tema Os desafios pastorais da família no contexto da evangelização. Trata-se de um texto muito relevante para toda a Igreja, por ser a síntese de uma “vasta resposta eclesial por parte do povo de Deus” sobre a questão da família hoje, que será debatida pelos bispos do mundo inteiro, em Roma, gerando grandes expectativas em todas as comunidades.

O instrumento de trabalho quer ser um “primeiro ponto de referência para o diálogo sinodal”, para “favorecer o confronto e o aprofundamento” (n. 158) durante o Sínodo. O documento nasceu da contribuição de toda a Igreja, em nível mundial, graças ao questionário enviado pela Santa Sé em novembro de 2013. Enriquecido com todas essas contribuições, o texto se divide em três partes centrais: 1) “Comunicar o evangelho da família hoje”, 2) “A pastoral da família face aos novos desafios”, 3) “A abertura à vida e a responsabilidade educativa”.

Mais do que refletir sobre a temática central, quero propor aqui uma reflexão sobre a linguagem utilizada especialmente na primeira parte do documento, em que se aborda a “comunicação do evangelho da família hoje”. Muitas vezes, o modo de pensar e de dizer a importância da família pode contradizer a nossa missão como Igreja.

O documento parte da constatação de que “a comunicação e a recepção dos ensinamentos da Igreja relativos à família se dão em modalidades bastante diversificadas, segundo as experiências familiares, o tecido eclesial e o contexto sociocultural” (n. 8). É importante que essa diversidade seja reconhecida e valorizada, pois isso faz com que o diálogo intra e extraeclesial possa avançar.

Mas, depois, a apresentação dos desafios pastorais fica obscurecida por uma linguagem que trai essa complexidade eclesial e sociocultural, reduzindo a evangelização a uma mera “transmissão da fé”, em que, de um lado, há “pessoas sensíveis à doutrina cristã” e, de outro, “muitos cristãos que ignoram a existência destes ensinamentos” (n. 8). Mas será que essa separação entre “sensibilidade” e “ignorância” é tão clara assim? A compreensão do panorama não deveria ser um pouco mais complexa?

O instrumento de trabalho afirma que “um bom número de Conferências Episcopais observa que, onde é transmitido em profundidade, o ensinamento da Igreja com a sua genuína beleza, humana e cristã, é aceito com entusiasmo por grande parte dos fiéis” (n. 13). Ao falar do escasso conhecimento dos documentos da Igreja por parte dos fiéis, o mesmo artigo diz que, quando esse ensinamento é conhecido, “muitos cristãos manifestam dificuldade em aceitá-lo integralmente”.

Nas entrelinhas, portanto, diz-se que uma “transmissão em profundidade” ocorre quando os fiéis “aceitam com entusiasmo” ou “integralmente” o que é transmitido. Isto é: quase nunca! E isso não se deve a uma “dificuldade” dos fiéis, porque, de fato, a aceitação (passiva) é quase impossível. Sempre há negociação e reconstrução criativa daquilo que é “transmitido” e recebido. Por outro lado, “aceitar integralmente” pressupõe abrir mão do que é central na comunicação: a apropriação criativa daquilo que é transmitido por parte de quem o recebe. Qualquer processo comunicativo envolve um certo grau de “não aceitação integral”, no sentido de fazer coisas novas com o que é “transmitido”.

“Transmitir” é fazer chegar a alguém exatamente aquilo que se emitiu, independentemente do contexto. Como criticavaPaulo Freire, “transmitir” é uma compreensão mecanicista, estática e domesticadora da comunicação – eu transmito “algo” coisificado que um “receptor” passivo deve aceitar e que, ao aceitá-lo, irá se sobrepôr aos seus conhecimentos pessoais. Mas a comunicação está a anos-luz dessa compreensão – é ir (muito) além do que foi transmitido, é apropriação, é negociação, é reconstrução, é transformação de todo o “meio” comunicacional (incluindo os agentes, a mensagem, o contexto, as mediações).
O documento também diz que os textos do Magistério da Igreja “não parecem permear profundamente a mentalidade dos fiéis” (n. 11). Ora, pensar que temos o poder de fazer com que nossos textos possam “permear profundamente a mentalidade” de alguém é considerar esse alguém um ser ignorante, não pensante, não reflexivo, inerte. É assim que pensamos o “outro” na evangelização?

O instrumento de trabalho continua dizendo que, “em geral, são mencionados [nas respostas recebidas pela Santa Sé] elementos parciais da doutrina cristã, mesmo se relevantes, onde se observa uma resistência, em diversos graus” (n. 13). Resistência? É óbvio que haverá: faz parte da ação comunicativa, como prática transformadora e ação crítica sobre a significação do mundo. Ninguém comunica nem se comunica “passivamente”.

Mas, logo em seguida, o instrumento de trabalho explica que algumas Conferências Episcopais observam que o motivo de tal resistência “é a falta de uma autêntica experiência cristã, de um encontro pessoal e comunitário com Cristo” (n. 15). Aqui está o maior problema: culpabilizam-se os fiéis – teologicamente – por algo que é intrínseco ao agir comunicacional. A resistência não é privilégio dos “hereges” contemporâneos. Antes de buscar o motivo da resistência ou de julgá-la moralmente como “falta de uma autêntica experiência cristã”, seria bom entendê-la na sua expressividade: o que significa “resistir aos ensinamentos da Igreja”? Há uma forma de comunicação central nesse gesto dos “resistentes”. Tal resistência não poderia ser até mesmo, ao contrário, fruto da experiência e do encontro com Cristo, como expressão autêntica e sincera do sensus fidei fidelium, o senso da fé por parte dos fiéis, em diálogo com toda a Igreja?

No documento de trabalho do Sínodo, explicita-se ainda uma “unanimidade nas respostas também em relação aos motivos de fundo das dificuldades na aceitação do ensinamento da Igreja: as novas tecnologias difusivas e invasivas; a influência dos mass media; a cultura hedonista; o relativismo” (n. 15). Tal constatação reaparece na segunda parte do documento, em que se afirma que as mídias têm um “impacto negativo sobre a família”, porque “transmitem valores errados e desviantes” (n. 68). Diz-se que “a televisão, o smartphone e o computador” podem alimentar “relações fragmentadas e alienação” e que “acaba-se assim por viver relações virtuais entre os membros da família, onde os meios de comunicação e o acesso à internet se substituem cada vez mais às relações”, com o “risco da desagregação e da desunião familiar, mas também a possibilidade que o mundo virtual se torne uma verdadeira realidade substitutiva” (idem).

Como de praxe em certos documentos da Igreja ou mesmo no linguajar eclesial em geral, a culpa pelas “dificuldades na aceitação” da doutrina está no “outro”: na cultura, na tecnologia, no mundo. Mas não seria necessário repensar melhor? Muitas vezes, os motivos de fundo, quase via de regra, estão no próprio agente emissor, que não reconhece o “outro” na sua alteridade e, assim, coisifica tanto o receptor quanto a mensagem, querendo “transmitir” (mecanicamente) “algo” (coisificado) a “alguém” (apassivado), dando de ombros ao contexto sociocultural específico. Isso não é comunicação, muito menos evangelização.

Mas há pontos relevantes, que deixam algumas brechas de esperança. O documento informa, por exemplo, que “algumas intervenções constatam a importância de valorizar elementos das culturas locais, que podem ajudar a compreender o valor do Evangelho” (n. 14). Esse é o eixo de toda evangelização entendida como processo de comunicação: a inculturação. 

Como diz o Papa Francisco na Evangelii gaudium, “pela inculturação, a Igreja ‘introduz os povos com as suas culturas na sua própria comunidade’” e assume “os valores das diversas culturas” (n. 116). Sem reconhecimento, compreensão, valorização e acolhimento do “outro” e do seu contexto específico, é impossível comunicar. O instrumento de trabalho acena para isso, quando defende que é preciso “integrar os ensinamentos da Igreja sobre a família com os valores sociais e morais do povo”, ressaltando “a importância da interculturalidade no anúncio do Evangelho da família” (n. 14). Que assim seja!

A questão é: cremos na família realmente como agente da ação evangelizadora ou meramente como “receptáculo” passivo? Como indica a Premissa do instrumento de trabalho, “a família constitui um recurso inesgotável e uma fonte de vida para a pastoral da Igreja”. Não se trata apenas de recurso, mas também de fonte de vida para a Igreja. Estamos dispostos, como Igreja, a também beber dessa fonte, ou apenas a pensá-la e a utilizá-la como “receptáculo” passivo de uma “transmissão”? Talvez seja justamente do nosso modo de pensar e de dizer o “evangelho da família hoje” que advenham as maiores incompreensões e, principalmente, desafios.

(Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/noticias)

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