Caracterização do perfil

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 Muito já foi escrito sobre a tensão dialética e o círculo hermenêutico que se instaura entre carisma e instituição.  O primeiro nasce dos sons, das cores, dos odores, dos sabores e das sensações epidérmicas, oportunizadas pela experiência vivida. Não se encontra, nem se reduz à exterioridade sentida. Trata-se, muito mais, daquilo que toca a dimensão interior da pessoa e, ao emocionar, provoca motivações internas, gera encantamento, anima o sujeito e o entusiasma. Em outras palavras, os carismas, quando autênticos, mostram-se fundamentais em qualquer empreendimento humano, pois, revelam-se os motores que impulsionam a pessoa a tomar decisões, aderir a projetos, buscar condições para concretizá-los e, sobretudo, encontrar ou construir mediações para que outros tenham acesso a tais experiências fontais.

Sem os arroubos do carisma não há, por parte do sujeito, atenção, adesão e entrega. Por isso, o líder carismático mostra-se essencial em qualquer relacionamento social. Ele consegue seduzir, encantar e contagiar. No âmbito religioso, do mesmo modo, destaca-se entre nós, dentre tantos outros, o carisma de Abraão, Moisés, Davi, Jesus de Nazaré, Paulo de Tarso, Agostinho, Maomé, Francisco e Clara de Assis, Lutero, Inácio de Loyola, Tereza de Ávila, Jona D’Arc, Dom Bosco, Vicente de Paula, Frederico Ozanam, Marcelino Champagnat… E mais recentemente, Gandhi, Luther King, Prabhupada, Tereza de Calcutá, Chico Xavier, Chico Mendes, Mãe Menininha do Gantois, João XXIII, Zilda Arns, Chiara Lubich, João Paulo II, Desmond Tuto, Dalai Lama… Nos dias atuais, os cristãos, católicos sobretudo, experimentam a irradiação contagiante da figura, até então pouco conhecida, do Papa Francisco.

Acontece que nenhum carisma permanece no tempo, sem um mínimo de institucionalização que lhe ofereça enraizamento. Isso porque os carismas concretizam-se historicamente através da trajetória de vida de pessoas situadas no tempo e no espaço, e não poderia ser diferente. O jeito de ser e agir dessas pessoas sacramentais oferece visibilidade contagiante. Quando elas envelhecem ou morrem, os carismas tendem a diminuir paulatinamente a sua intensidade provocativa e o seu vigor. A não ser que surjam, de tempos em tempos, outros líderes carismáticos, os carismas arrefecem o poder de contagiar ou desaparecem. A instituição garante, portanto, identidade cultural, densidade social e força histórica para a manutenção. E cria condições de possibilidade para a transmissão da experiência carismática. A institucionalização acontece por meio do estabelecimento de regras, princípios e definições. Os meios de comunicação social desempenham papel importante no contexto atual para irradiar a força dos carismas.

Por outro lado, as instituições tendem a assumir processo intenso de fossilização dos carismas. Isso acontece porque, diante do medo de perdê-los ou do receio de que sofram graves deturpações ao longo do tempo, enclausuram o dinamismo carismático inicial dentro de seus muros, os engaiolam ou lhes cortam as asas. Quando isso acontece, o problema torna-se maior, pois, sufocam ou mesmo destroem a beleza irradiante dos carismas. O desafio de todo grupo situa-se em conseguir manter a tensão entre carisma e instituição.

A mentalidade religiosa cristã predominantemente carismática, segundo nossas observações, congrega o segundo maior recorte de cristãos leigos, se já não for o maior, na Arquidiocese de Belo Horizonte. Esse grupo se faz presente em todos os recantos da Arquidiocese. Se o pentecostalismo evangélico já celebrou seu centenário no Brasil, entre os católicos, o “Movimento da Renovação Carismática” (RCC) fincou raízes fortes, sobretudo, nos últimos 35 anos, ao longo dos pontificados de João Paulo II e de Bento XVI, pois, ambos deram muito apoio aos chamados “Novos Movimentos Religiosos” católicos, de cunho carismático. Tal ênfase quase exclusiva reduziu o brilho, de modo especial na América Latina, da caminhada das Comunidades Eclesiais de Base, das pastorais sociais, da vida religiosa inserida nas comunidades de periferia, dos grupos de reflexão bíblica, dos grupos de fé e política e, sobretudo, arrefeceu o vigor da produção original da teologia latino-americana, denominada “Teologia da Libertação”. Além disso, paulatinamente o “movimento carismático católico” traduziu-se em “religião midiática” e conseguiu a adesão de parcela significativa do clero nos últimos tempos.

A valorização e presença nos grandes meios de comunicação social, especialmente a televisão, o rádio e o cinema, mas também nas novas mídias, com destaque para a internet e a indústria cultural da música gospel, caracterizam a configuração religiosa carismática. Os slogans e mensagens religiosas típicas desse movimento circulam diariamente nas redes sociais.

Seus traços são visíveis entre nós. O movimento carismático organiza-se, geralmente, de modo diferente do ultrapassado modelo paroquial oficial. No contexto da IV Assembleia do Povo de Deus, por exemplo, promoveu assembleias quase que paralelas e/ou desvinculadas das comunitárias, paroquiais e forâneas, promovidas pelo Vicariato Episcopal para Ação Pastoral, instância organizadora do evento. Muitos líderes do movimento carismático católico participaram das duas modalidades e deixaram contribuições importantes na definição das Diretrizes da Arquidiocese, bem como nos Planos Regionais de Pastoral.

Dentre os traços mais característicos da mentalidade religiosa cristã carismática presentes no contexto atual da Arquidiocese, alguns merecem destaque. Por mais que os membros da RCC tenham, entre seus animadores, figuras do clero muito presentes, e alguns até como ícones do movimento, conseguem concretizar uma espiritualidade centrada no protagonismo leigo. Grande parte da liderança do movimento desenvolve interessante missionariedade desburocratizada.  Forma novos grupos de oração ou células do movimento nas comunidades e Igrejas paroquiais, mas também, frequentemente, em escolas, universidades, clubes, empresas, bairros, condomínios e casas. Promove reuniões, estudos e outras atividades, com ou sem o apoio ou acompanhamento do clero.

Quando seus animadores encontram espaços nas comunidades paroquiais tendem a assumir equipes de animação litúrgica e organizar as atrativas “missas de cura”, além da participação nos grupos de oração e visitas aos doentes. As missas de cura se espalham cada vez mais e atraem doentes e sedentos das manifestações do Espírito, sobretudo as mais famosas e visíveis, o dom de falar em línguas estranhas e o de cura e libertação da forças demoníacas. Quando casais, tendem a assumir a pastoral da família e a promover os famosos “Encontros de Casais com Cristo”, além de retiros de final de semana, dias de jejuns e louvor. Os carismáticos também promovem grandes eventos religiosos de caráter público. Não há dúvidas de que agregaram emoção, ritmo alegre e contagiante, maior entusiasmo e movimento às celebrações tradicionais, tornando-as mais vivas e participativas. As músicas religiosas carismáticas são típicas, pois, raramente fogem da experiência vertical, quase sempre em primeira pessoa, eu e Deus, Deus e eu. Embora com colorido próprio e tendência à elaboração de liturgia própria, quase paralela, conseguem conviver bem com os grupos mais tradicionais quando se trata da devoção a Nossa Senhora e aos grandes santos da Igreja. Conseguem, inclusive, algo sem precedentes, atrair a presença de cristãos evangélicos.

Outra característica importante e que lhes indica futuro promissor, encontra-se no fato de conseguirem envolver número considerável de jovens que vestem a camisa do movimento. Muitos desses jovens estão envolvidos nas equipes de animação litúrgica, organizam bandas católicas, grupos de oração e ação, promovem acampamentos, gincanas, “cristotecas”, intercâmbio com outros grupos nacionais e internacionais. Além disso, conseguem ocupar as novas mídias e mostrar a cara católica nas redes sociais com variedade enorme de mensagens religiosas típicas. A título de destaque, muitos desses jovens estiveram profundamente envolvidos na última Semana Missionária e, sobretudo, mobilizaram-se para participar da Jornada Mundial de Juventude, no Rio de Janeiro, e se encontrarem com o Papa Francisco.

Quando estamos diante dos católicos carismáticos logo os reconhecemos pela estética particular assumida. Vestem-se com estampas e frases religiosas. Aliás, cada grupo veste, literalmente, a sua camisa. Usam simbólica religiosa em seus carros, objetos e casas. Escutam músicas gospel características e sintonizam-se nos canais de rádio e televisão do movimento. Nas falas, explicitam a identidade marcante que o movimento oferece. Admiram os testemunhos públicos, fortes e intensos, de mudança drástica de vida a partir do marco da conversão religiosa. Esse grupo de católicos parece alimentar-se de tais testemunhos. Os carismáticos enfatizam a dimensão individual do pecado enquanto fraqueza da carne, muito ligado ao âmbito da vivência da sexualidade e do consumismo egoísta, em detrimento da dimensão sociopolítica e econômica enraizadas em nosso contexto injusto e excludente. Reciclam vertentes maniqueístas bem conservadas da moralidade cristã tradicional, muitas vezes com feições mais pessimistas e austeramente proibitivas que afirmativas da beleza, da autonomia e da responsabilidade do sujeito ético. No espaço religioso, o movimento da RCC recupera o papel do demônio, sobretudo enquanto espírito maligno tentador da carne. Seus membros confessam, geralmente, autonomia e independência do religioso em relação ao social e ao político, embora, contraditoriamente, oferecem cada vez mais candidatos para cargos no legislativo e executivo com perfis, bandeiras e slogans tipicamente do viés religioso assumido, espelhados talvez, ou de mãos dadas, à bancada evangélica.

Valorizam a dimensão orante da vida cristã e a vivência sacramental, sobretudo a eucaristia, a confissão e o casamento. O batismo no Espírito Santo, o dom de falar em línguas e de cura merecem destaque. Preconizam, como práxis cristã, a participação em campanhas caritativas diversas e, sobretudo, a doação nos finais de semana: visitar creches, lar de idosos, promover e participar de atividades fomentadas pelo movimento. Expressam o desejo de uma Igreja mais orante, pura da corrupção do mundo, entusiasmada e entusiasmante.

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Comentário teológico e pistas pastorais

Já mencionamos acima a importância do carisma, no caso específico, para a religião. O cristianismo nasce alicerçado no carisma que brota da experiência vivida por Jesus de Nazaré. Os Evangelhos narram como ele atraiu discípulos/as em torno de si e lhes oportunizou profunda experiência de Deus, contagiante e transformadora. Não há dificuldades para reconhecê-lo ou considerá-lo como um grande líder carismático. Com a rejeição, condenação e morte brutal de Jesus, os/as discípulos/as deram continuidade ao seu carisma e o institucionalizaram enquanto cristianismo. O tempo não conseguiu destruir seu vigor, nem sua capacidade de despertar interesse, atenção e entusiasmo. O Espírito Santo exerceu papel fundamental no processo de consolidação da memória de Jesus, no surgimento das comunidades de fé e na própria formação do cristianismo enquanto sacramento ou mediação histórica capaz de revelar o projeto salvífico universal de Deus, anunciado e testemunhado por Jesus de Nazaré.

O movimento carismático reconhece e exalta, com grande ênfase e, às vezes, de modo quase unilateral, a centralidade da figura do Espírito Santo. Embora verifiquemos sua grande capacidade de contagiar pessoas e nelas despertar entusiasmo e encantamento, importa também perceber a tendência de muitos grupos carismáticos a produzir compreensão deturpada do que seja concretamente a vida cristã.  Por exemplo, muitos cristãos com mentalidade religiosa predominantemente carismática configuram a vida cristã centrada quase que exclusivamente no louvor subjetivo e nas manifestações emocionais, consideradas e valorizadas como dons do Espírito Santo. Ao mesmo tempo, parecem desconhecer a importância do cultivo dos vínculos fraternos na vida em comunidade de fé, bem como deixam atrofiar a dimensão sociopolítica e profética da vida cristã. Ignoram – ou pelo menos não dão a mesma atenção que ao louvor – o necessário esforço diário de conversão para a prática da justiça, da misericórdia e do amor ao próximo, bem como o compromisso que nasce do dinamismo da presença do Reino com a promoção e participação na construção da sociedade justa, inclusiva e fraterna.

A ação evangelizadora da Igreja é chamada a promover maior consciência da revelação do mistério trinitário de Deus. Para isso, urge investir em maior formação bíblico-teológica e promover maior conhecimento da vida de Jesus de Nazaré, dos seus ensinamentos e gestos proféticos, como revelação histórica do rosto de Deus, bem como do projeto salvífico universal de Deus. Sem levar a sério a vida concreta de Jesus, enquanto encarnação histórica da vontade de Deus, a vida cristã perde seu núcleo central, sua fonte e critério de coerência interna e, portanto, sua credibilidade.

Além disso, importa explicitar melhor a história da salvação, pois entre o Pai Criador, o Filho Redentor e o Espírito Santificador concretizam-se a estrutura participativa e a relação amorosa mutuamente perfeita. Quando a ação parte do Pai, atuam conjuntamente o Filho e o Espírito. Quando nasce do Filho, juntos, no mesmo dinamismo, encontram-se o Pai e o Espírito. Do mesmo modo acontece na atuação do Espírito, pois, reconhecemos nela a presença do Pai e do Filho. Na Trindade não há qualquer hierarquia, ciúme, competição ou dominação de um sobre os outros. Trata-se da comunidade perfeita, modelo último de inspiração e utopia para a comunidade humana buscar e crescer continuamente em unidade, comunhão, participação e amor.

No tocante à espiritualidade encarnada, assume-se nas Diretrizes da Arquidiocese o desafio de investir na formação da espiritualidade trinitária de comunhão, participação e serviço fraterno amoroso. Trata-se de caminho árduo, mas fundamental para o desenvolvimento da identidade da fé cristã. Do seio da Trindade nasce a dimensão horizontal na vida cristã em rede de comunidades de fé: Jesus revela, na força do Espírito, a universalidade do amor do Pai que a todos irmana. Na história da salvação percebemos a pedagogia amorosa e paciente de Deus para chegar ao coração de cada ser humano e promover, desde aí, o desenvolvimento do espírito de ternura e acolhida fraternal, o reconhecimento mútuo, a superação das divisões, bem como a interlocução dialogal, participativa e corresponsável na concretização do projeto salvífico universal. Da parte de Deus, cada um de nós encontra-se constante e gratuitamente na situação de amado/a, escolhido/a, acolhido/a e chamado/a a participar ativamente do dinamismo do Reino. Tal compreensão ajuda na superação das mentalidades estreitas e excludentes, da tentação da construção de muros antiecumênicos, de qualquer tipo de preconceito e do fechamento ao diálogo interreligioso. Além disso, mostra-se capaz de congregar as pessoas em rede de comunidades de fé, chamadas a atuar como membros da sociedade planetária.

Os carismas cristãos não encontram sentido pleno e identidade enquanto realidades desligadas da vida social do ser humano e/ou dos desafios postos pela situação em que estamos inseridos. Trata-se de dons de Deus para a edificação da comunidade de fé, sim, mas, sobretudo, em vista da grande comunidade humana e da construção da cultura da paz entre os povos. Do mesmo modo, os dons do Espírito Santo fortalecem-nos e sustentam-nos para a vida em comunidade, mas, sobretudo, para a construção diária da sociedade justa, solidária, inclusiva e fraterna. A história de amor de Deus para conosco acontece o tempo todo, no interior de cada religião enquanto mediação significativa, mas também fora dos muros das religiões, pois o seu amor por nós revela-se universal.

No âmbito da renovação da vida comunitária, mostra-se urgente que a ação evangelizadora consiga investir na concretização de complexas redes de comunidades, capazes de promover crescimento e avanços significativos na vida fraterna, condição para a construção do Reino de Deus. Comunidades, portanto, que sejam atentas em sua caminhada aos que estão à margem do caminho e aos aspectos da realidade humana em sociedade que mais precisam de acolhida e compreensão, bem como de crescimento e transformação por meio da justiça, da misericórdia e do amor ao próximo. As diretrizes apontam para a necessidade de superação de toda mentalidade moralista. Colocam como prioridade acolher, com os olhos de Deus, e promover a dignidade das pessoas inseridas na nova realidade familiar. Muitas famílias não conseguem estruturar-se na primeira união. Outras tantas afastam-se radicalmente do estereótipo, acolhido muitas vezes como único modelo ideal, de marido, mulher e filhos. Igualmente complexa apresentam-se as realidades advindas do universo juvenil com inúmeros desafios. Cada cristão, iluminado pela prática libertadora de Jesus, na força do Espírito Santo, é chamado não apenas a contemplar, acompanhar, compreender e acolher, mas amar e irmanar-se, caminhar junto promovendo a dignidade e o crescimento humano. As comunidades cristãs não nascem do ideal de criar a comunidade dos puros que não se misturam com os impuros, mas da utopia do Reino que acolhe e transforma a todos pela concretização da experiência do amor, especialmente os últimos: pobres, excluídos, pecadores e “sem-salvação”. O critério de ação das comunidades cristãs nasce da prática libertadora de Jesus que, com misericórdia e perdão, desenvolve postura de acolhida das vítimas, atitude de promoção da dignidade inalienável de ser filho/a amado/a de Deus. Comporta também corajosa atitude profética na denúncia de toda injustiça e exclusão social em nome do Deus da vida.

Em relação à inserção social, cabe à ação evangelizadora propor, despertar e envolver na participação de projetos sociais e no cultivo da dimensão sociopolítica da fé cristã, os cristãos com mentalidade religiosa carismática, a partir do encontro pessoal com Jesus de Nazaré. A Igreja, povo de Deus, enquanto rede de comunidades de fé inserida numa sociedade concreta, é chamada a engajar-se e comprometer-se com a defesa da dignidade da vida e a construção de estruturas sociais justas. Além disso, rever a utilização criativa e eficaz dos meios de comunicação e das novas mídias. Não apenas para a promoção da vida interna do movimento carismático ou da vida eclesial, mas, sobretudo, para a construção da sociedade justa, pacífica, tolerante, dialogal, participativa e inclusiva. Nas palavras do Papa Francisco, em sua viagem ao Brasil, a Igreja não pode realizar sua missão com mentalidade estreita e autorreferida, ao contrário, esta é chamada a ser aberta, dialogal e comprometida com a vida em sociedade e a paz mundial.

Edward Neves Monteiro de Barros Guimarães

P/ equipe executiva do Observatório da Evangelização

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