Caracterização do perfil

apostolado

O ser humano aprendeu cedo o valor das tradições. Não há sociedade, grupo, religião, família, empresa ou mesmo indivíduo que consiga desenvolver identidade própria e permanecer no tempo sem o cultivo recorrente do movimento de volta às fontes ou origens, sem revisitar e revalorizar frequentemente as experiências seminais e inspiradoras presentes vividas ao longo da caminhada de conquistas históricas. Do mesmo modo, sem guardar, no terreno sagrado do coração, a sabedoria herdada de nossos antepassados e as lições diárias aprendidas ao longo do caminho, individual e coletivamente, ficamos perdidos e tornamo-nos culturalmente pobres.

No âmbito religioso, revela-se quase evidente afirmar a impossibilidade de sermos, de fato, por exemplo, cristãos, sem o vigor brotado da Tradição Viva do cristianismo. Ao cuidar, guardar e transmitir a memória perigosa dos ensinamentos e feitos de Jesus de Nazaré, a Tradição criou condições para que o Evangelho, enquanto querigma e narrativa, mantivesse a sua força interpelativa. Consequentemente, ao longo do tempo, ele continuou a fecundar os olhos e os corações de pessoas que não conheceram ou conviveram com o homem Jesus de Nazaré. Basta-nos isso para imediatamente percebermos a importância indubitável da tradição na vida humana, bem como para a religião. Voltar às fontes revela-se movimento necessário em todo e qualquer processo de avanço histórico.

Para que determinada tradição – realidade que vem de um passado longínquo ou de contexto diferente – seja percebida pelas pessoas como importante para a vida presente, tal tradição precisa ser interpretada, traduzida e anunciada no horizonte cultural de quem a recebe. Do mesmo modo, quem a recebe também não pode entendê-la sem interpretar, avaliar e perceber o significado dela para a vida concreta.

A condição histórica humana impõe exigências hermenêuticas a cada geração. Os tempos mudam e, com eles, as pessoas também. Cada um vive diretamente interligado e profundamente conectado com o tempo e, sobretudo, o lugar onde se  organiza a vida e se convive com os demais: família, amigos e colegas de trabalho e/ou estudo. Isso significa que cada pessoa se encontra inserida e situada em contexto específico. Este lhe oferece possibilidades e limites. Para que determinada tradição, antiga ou recente, seja entendida e bem avaliada, por um lado, torna-se necessário ser interpretada e traduzida no tempo do anúncio, por quem a transmite, por outro, novamente ser interpretada e traduzida na mentalidade de quem recebe o anúncio.

Uma pessoa que desenvolve postura tradicional tende a valorizar mais as tradições recebidas e o modo como o passado foi acolhido que as novas experiências. O novo gera desconforto, insegurança e apresenta-se como ameaça. A pessoa tradicional tende, portanto, a conservar o passado e apresentar dificuldades diante das mudanças. No mesmo sentido, a postura tradicionalista, leva tal tendência à radicalidade. A pessoa tradicionalista tende, mais fortemente, ou a ignorar as mudanças ou a lutar virulentamente contra a sua acolhida pelos outros. Idealiza, idolatra e tende a fossilizar o passado na forma como este foi por ela vivido ou interpretado e aceito como verdadeiro, imutável e insuperável. Do tradicional para o tradicionalista, há níveis diversos de radicalidade e de intolerância em relação ao novo. Quanto mais tradicionalista, maior as dificuldades de convivência com o diferente, com propostas de mudanças e, sobretudo, com quem ousa propô-las.

O contrário do tradicional, nesse caso, apresenta-se como moderno, hodierno, atual. O oposto do tradicionalista, saudosista ou daquele que idealiza o passado, encarna-se na pessoa que valoriza apenas o novo e despreza o que vem do passado como arcaico, antiquado e obsoleto. Sem respeito, tolerância e abertura dialogal torna-se muito difícil a convivência entre mentalidades tão distintas.

A mentalidade religiosa tradicional manifesta-se, de forma mais abrangente, como é de se esperar, entre as pessoas mais vividas. Consequentemente, entre os mais jovens, espera-se manifestar a mentalidade religiosa moderna. A realidade humana, porém, nos surpreende. Deparamo-nos, muitas vezes, com idosos bem modernos e com jovens muito tradicionais, e até tradicionalistas. Situação mais comum do que muitos supõem. O tradicional e o moderno não estão na quantidade de anos vividos, mas no modo de alicerçar e configurar a identidade. A cultura pós-moderna tende a misturar o tradicional e o moderno tornando a realidade contemporânea ainda mais complexa.

Constatamos, de modo muito frequente, leigos com mentalidade religiosa cristã predominantemente tradicional no contexto atual da Arquidiocese de Belo Horizonte. Se essa mentalidade não formar o grupo mais numeroso da Arquidiocese, como indicam nossas observações, está em segundo lugar, perdendo apenas para o grupo de tendência carismática. Impressionou-nos o número de leigos, como também de clérigos, a propor, como ideal de renovação da vida cristã para o contexto majoritariamente urbano atual, uma configuração religiosa eclesial típica do interior e/ou de época em que o ritmo da vida familiar e social era outro. Aparece de modo recorrente nos relatórios das assembleias paroquiais e forâneas os traços característicos da religiosidade católica de cunho popular e muito presentes no contexto rural pré-moderno.

Dentre os traços mais característicos dessa mentalidade religioso cristã tradicional presentes no contexto atual, alguns possuem um particular relevo. Ênfase na dimensão devocional popular, com destaque para a reza do terço, especialmente o terço dos homens. Cultivo de diversidade de novenas, procissões, culto ao/à santo/a padroeiro/a da paróquia ou comunidade e, de modo especial, aos santos consagrados como das “causas difíceis”, como para Nossa Senhora desatadora dos nós, São Judas Tadeu, Santo Antônio, Santo Expedito e Santa Edwiges. Explicitação do gosto pelas coroações de Nossa Senhora e do Sagrado Coração de Jesus. Valorização do espaço eclesial doméstico com visita da imagem da Mãe Rainha. Insiste-se na importância do cultivo da oração em família e da fidelidade do católico em participar nas celebrações, sobretudo dominicais, da comunidade de fé. Realça-se o trabalho do Apostolado da Oração e dos Vicentinos, com a tradicional campanha do quilo como expressão da caridade cristã. Como os ministros ordenados, na atual forma de organização, não têm tempo para visitar os doentes, aparece muito presente, como espaço de missão do leigo, a visita aos doentes nas casas e hospitais. Além disso, as ações evangelizadoras pelo rádio e pela televisão, não apenas as promovidas pela Igreja local, mas, sobretudo, as transmitidas em rede nacional, são enfatizadas pelos leigos desse grupo. Eles consagram esses meios de comunicação como espaços privilegiados de evangelização. Expressam, de modo claro e constante, o desejo de uma igreja mais devocional e comprometida com as práticas assistenciais de caridade tradicionais: visitas aos doentes e doações de alimentos e roupas para os mais pobres, sobretudo, crianças e idosos. Ajudar à campanha do quilo, às famílias pobres, às creches e aos lares de idosos aparece de forma recorrente em suas falas como critério de credibilidade e autenticidade da fé cristã.

Os leigos pertencentes a esse recorte eclesial assumem ministérios e serviços na Igreja. Tornam-se ministros extraordinários da eucaristia, ajudam nas pastorais da família, do batismo, da acolhida, da consolação, dentre outras. Ajudam na liturgia, como acólitos e leitores. Trabalham nas festas e quermesses da paróquia. Participam como representantes nos conselhos comunitários, paroquiais, forâneos. Estão muito presentes nos Conselhos e, consequentemente, participaram das assembleias comunitária, forânea, regional e arquidiocesana.

Outra característica conflitiva e ambivalente desse grupo apresenta-se em sua relação com a figura do padre. Esses cristãos revelam-se mais fieis à oferta devocional que ao dízimo, frequentam as orações comunitárias, participam das diversas campanhas promovidas pela Igreja. Organizam a vida cristã em torno dos sacramentos, sobretudo da eucaristia. Gostam do padre, embora pareçam mais à vontade e felizes no espaço devocional, frequentemente privado e desterritorializado.  Por um lado, reconhecem a importância da função do padre, seu valor, a centralidade que ocupa na vida da Igreja e tecem elogios a ele, mas, por outro, reclamam, e muito, dele. Manifestam temê-lo e esperar do pastor a atitude de zelo e o cuidado para com o bom andamento das coisas na paróquia, ao mesmo tempo, situam os maiores problemas da Igreja em torno dele. O padre aparece-lhes, quase sempre, como centralizador, autoritário, materialista e apegado a dinheiro, sem paciência e tempo para ouvi-los ou visitar um doente, pouco devocional com os santos, distante ou até, algumas vezes, indiferente aos problemas pessoais dos fieis. A seu ver, muitas vezes o padre lhes considera apenas “mão de obra barata e passiva”, mas não interlocutores e companheiros, de fato e de direito, no seguimento de Jesus e, especialmente, na condução corresponsável da vida da Igreja.

Já a mentalidade religiosa cristã tradicionalista – aqui não se trata mais, simplesmente, da tradicional, portanto – faz-se presente de modo restrito e localizado. Manifesta-se nos traços pessimistas em relação ao tempo atual e através de críticas ácidas a determinadas mudanças, sobretudo ecumênicas, litúrgicas e morais, promovidas pelo Concílio Vaticano II. Mostra-se saudosista em relação a um passado atemporal e idealizado como áureo, quando a Igreja foi totalmente fiel. Cristãos dessa mentalidade tendem a explicar os problemas atuais pelo afastamento das tradições e não pela insistência em práticas religiosas que já não respondem aos desafios do contexto atual. Desejam, então, a volta ao passado.

Quando encontram alguém do clero que lhes apoie, revelam-se devotos de certo clericalismo com traços medievais. Estruturam-se, especialmente, a partir da entrada e participação em movimentos religiosos de cunho restauracionista, com veículos próprios de comunicação, livros, revistas e folhetos. Nesses tempos internéticos, há sites organizados por grupos ultraconservadores que atraem adeptos e admiradores. Em tais espaços virtuais esses grupos alimentam ideários de condenação da atual configuração do catolicismo, atacam a teologia latino-americana e preconizam a volta ao passado idealizado. Tendem a criar uma espécie de Igreja paralela. Valorizam o uso do clergyman por parte dos padres e do hábito por parte dos religiosos, a ruptura com alguns ícones ou símbolos do mundo moderno; mostram predileção pela liturgia estruturada com determinados elementos tradicionais, por exemplo, orações em latim, incensos, sinos; não abrem qualquer concessão ao espírito ecumênico, ao contrário, assumem postura claramente apologética em suas redes sociais; negam qualquer dimensão política da fé cristã; desejam uma Igreja pura, sem qualquer contaminação com o mundo, conservadora das divinas e eternas tradições.

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Comentário teológico e pistas pastorais

O cristianismo católico sempre foi plural. Na história da Igreja observa-se e reconhece-se, facilmente, a presença constante da diversidade, seja de grupos de cristãos mais fechados às mudanças, tradicionais, mantenedores e conservadores, seja de grupos mais abertos aos sinais dos tempos, reformistas, vanguardistas e inovadores.

Não há problema teológico na diversidade, ao contrário, esta quase sempre se mostra um fator de enriquecimento. Popularmente, diz-se que há lugar para todos na Igreja. Para tal, importa haver o cultivo constante do respeito, da tolerância e do bem querer, bem como a criação de canais abertos de diálogo entre os grupos diversos. Faz-se necessário que o núcleo fundamental da fé cristã seja sempre revisitado e explicitado para que a diversidade não aconteça às custas do sacrifício da identidade cristã. Além disso, urge cuidar para que as relações de poder não se sobreponham ao espírito fraterno tão caro ao Evangelho do Reino. Desde o início, alertava-nos o próprio Jesus: “Sabeis que os chefes das nações as dominam e os grandes fazem sentir seu poder. Entre vós não deverá ser assim. Quem quiser ser o maior entre vós seja aquele que vos serve, e quem quiser ser o primeiro entre vós, seja vosso escravo. Pois o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate por muitos”.

O que nos preocupa mais intensamente mostra-se na leitura dos dados do último senso e, particularmente, nos indicativos colhidos por meio da pesquisa de escuta promovida pela Arquidiocese de Belo Horizonte. Poucos jovens, no contexto atual, deixam-se atrair ou conseguem construir identidade cristã católica nesse horizonte tradicional. Tal fato merece atenção se quisermos sanar a perda significativa do número de cristãos católicos, pois, a configuração do cristianismo produzido por essa mentalidade religiosa não responde aos desafios postos pelas gerações atuais, já que não provoca o diálogo, a autonomia e a participação.

No tocante à espiritualidade encarnada, as diretrizes assumem como prioridade investir no processo de fazer da liturgia um espaço eclesial que, de fato, favoreça o encontro pessoal do fiel com Jesus Cristo. Além disso, é necessário incentivar e ampliar os espaços de estudo e o cultivo da intimidade com a Palavra de Deus. Por fim, ajudar o fiel a apropriar-se da revelação trinitária e perceber o convite a cada batizado a tornar-se interlocutor e participante ativo do sacerdócio comum dos fieis no dinamismo do Reino. O desafio concretiza-se na tarefa de construir nova mentalidade religiosa nos leigos e ministros ordenados.

No âmbito da renovação da vida comunitária, as diretrizes explicitam com clareza, e acertadamente, a direção para avançarmos. Primeiro, valorizar e recuperar o vigor das redes de comunidades, a partir da consolidação de estrutura participativa e, de fato, colegial nos diversos conselhos, além do reconhecimento da Igreja toda ministerial, com intensa ampliação dos ministérios leigos. As diretrizes enfatizam, de maneira especial, a participação da mulher. Ora, deve-se, pois, investir na formação integral e de qualidade de todos os fieis. Assumir como prioridade o cuidado e o zelo para com a família e concretizar, de muitos modos, a opção pelos jovens.

Em relação à inserção social, os desafios não são menores. A esse respeito, as diretrizes apontam que a opção preferencial pelos pobres necessita ser total e amorosamente incorporada à nossa vida cristã, há, pois, que ser reafirmada, nutrindo atenção especial para a realidade das vilas e favelas e para a explicitação da dimensão política da fé; deve-se, ainda, fomentar e acompanhar projetos sociais. Além disso, urge qualificar a presença e o uso dos meios de comunicação disponíveis: o rádio, a televisão e a internet, sobretudo, podem fazer a diferença como espaços de evangelização.

Edward Neves Monteiro de Barros Guimarães

P/ Equipe executiva do Observatório da Evangelização

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