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Hoje os cristãos aprendem, desde o início do processo de evangelização ou de iniciação cristã, a considerar a Bíblia não apenas um livro especial, mas a própria Palavra de Deus para nós. Livro, portanto, que merece destaque, por isso é comum, na casa do cristão, a Bíblia ser colocada na “sala” ou junto à “cabeceira da cama”. Nela encontra-se a pedagogia amorosa de Deus que assume a condição humana para fazer chegar o seu amor até nós. A Bíblia é a Palavra de Deus encarnada na palavra humana e na realidade histórica em que foi anunciada.

Nem sempre foi assim ao longo da caminhada histórica do cristianismo. A consciência da centralidade da Palavra cresceu paulatinamente. A Reforma Protestante representa marco histórico importante. No contexto católico, merecem destaque, de modo especial, o período da patrística e, mais recentemente, o movimento bíblico, antes do último Concílio, e a própria Constituição Dogmática Dei Verbum sobre a Revelação Divina, documento produzido ao longo do Concílio Vaticano II. Nele, assume-se categoricamente a unidade entre Tradição e Escritura como fonte da Revelação divina.

A ação evangelizadora da Igreja, desde então mais claramente, preocupa-se com o acesso dos cristãos em geral à Palavra de Deus. Consequentemente, atenta-se de modo crescente para a necessidade constante de investir na formação dos fieis e, de diversos modos, colocar-lhes ao alcance as fontes da Tradição cristã. Multiplicaram-se nos últimos tempos os estudos e cursos de Bíblia, de Teologia para leigos ou de Teologia Pastoral e, concomitantemente, o interesse do leigo em conhecer e apropriar-se da Palavra de Deus. A Igreja promoveu a tradução da Bíblia nas diversas línguas, com versão especial em linguagem popular e pastoral.  Além disso, surgiu entre nós a tradição do mês de setembro como “mês da Bíblia”, com ênfase no estudo de um livro específico, bem como a criação e/ou publicação de inúmeros cursos, livros, revistas, sites e muitos outros subsídios com a finalidade de estimular o interesse e possibilitar a aproximação, de fato, do cristão à Palavra de Deus.

Por meio dela, o cristão tem acesso ao modo como Deus concretizou a sua pedagogia amorosa de autorrevelação na história humana. A princípio, situada na caminhada do povo de Israel e, depois, percebida, de modo pleno, presente em toda a história da humanidade. Israel construiu identidade histórica alicerçada na leitura de fé da aliança selada entre Deus e Abraão. Esse pacto foi, muitas vezes, abandonado ou esquecido pela descendência abraâmica, mas, na mesma medida, sempre novamente retomado e renovado ao longo da caminhada desse povo. Merece destaque a figura de Moisés, que não apenas renovou a aliança, mas a codificou nas tábuas da lei, após a marcante experiência de libertação da escravidão do Egito. Esta codificação foi consolidada no enfrentamento da desafiante caminhada do deserto e, sobretudo, na difícil conquista da Terra de Israel. Depois, no contexto da monarquia e do exílio na Babilônia, novamente, renovou-se a aliança com Deus, de modo impactante, por meio do grito dos profetas em defesa do direito, da justiça e dignidade da vida como expressão e conteúdo concreto da aliança, além de condição básica para a paz entre Deus e seu povo e entre as nações.

No meio desse povo nasceu Jesus de Nazaré, considerado pelos cristãos a nova e definitiva aliança com Deus, mas, não mais entre um povo específico e Deus. Ao contrário, aliança universal, com a humanidade inteira. Todos os povos formam o único Povo de Deus chamado a assumir o projeto divino universal de salvação. Acolhe-se, então, a pessoa de Jesus de Nazaré, com seus ensinamentos e gestos proféticos, como a encarnação da Palavra de Deus. No fundo da realidade humana de Jesus as pessoas encontram o rosto amoroso de Deus. “O Verbo de Deus se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1, 14).

Para que tal acolhida se tornasse possível, Deus enviou-nos o seu Espírito Santo, para confirmar a vida de Jesus como “Caminho” e encorajar cada cristão ou pessoa de boa vontade a assumir como projeto salvífico libertador a busca de concretização histórica da justiça – com inclusão social das vítimas – da misericórdia e do perdão para com os pecadores e da prática diária do amor ao próximo.

A ênfase na centralidade da Palavra de Deus provocou nos cristãos a redescoberta da importância do Jesus histórico. Eles recuperaram, com renovado ardor, o interesse em buscar melhor conhecer a vida concreta e o contexto vivido por Jesus. Passaram a levar a sério o mistério da encarnação e a perceber que a pessoa de Jesus oferece acesso à compreensão e ao critério do que significa fazer a vontade de Deus. Esse renovado interesse e encantamento pela pessoa de Jesus de Nazaré provocaram  mudanças significativas na configuração da identidade, da vida cristã e da própria ação evangelizadora. Consolidou-se, sobretudo, de modo significativo a consciência da dimensão ecumênica e dialogal da vida cristã, além da necessidade da encarnação ou tradução da Tradição cristã no contexto histórico contemporâneo.

No campo da catequese, enquanto espaço de iniciação e educação da fé cristã, lugar privilegiado para captar a presença atuante do leigo, sobretudo desse perfil, nota-se a profundidade da transformação na mentalidade religiosa popular. Os catequistas perceberam, de modo cada vez mais crescente, a centralidade da Palavra de Deus como fonte da vida cristã e conteúdo da própria catequese. Sentiram, de modo mais urgente que a própria instituição, a necessidade de investir intensamente na formação bíblica. Buscaram, geralmente por conta própria, estudar e conhecer a Bíblia, com profundidade e intimidade. Em defesa da nova consciência eclesial e de novo jeito de promover a iniciação cristã, surgiram diversos movimentos de renovação da catequese. Estes preconizam a necessidade de passar pela porta estreita, ou seja, conhecer e deixar-se transformar pelo jeito de viver de Jesus de Nazaré. A vida desse homem encarna o Cristo da fé. Assumiu-se, então, a bandeira da “catequese cristocêntrica”. Como Jesus percebia, com agudeza de espírito, a importância da situação concreta que cada pessoa se encontrava, do mesmo modo, a catequese passou a preocupar-se com a realidade sociofamiliar do catequizando como parte integrante do dinamismo catequético.

Nos grupos de reflexão bíblica encontramos outro campo especial que favorece a percepção da nova realidade eclesial assumida pelo leigo. Do seio das Comunidades Eclesiais de Base, como também nas tradicionais paróquias, brotam inúmeros círculos bíblicos no meio do laicato. Pequenos grupos de pessoas se reúnem nas casas para estudar e meditar a Palavra de Deus, de modo orante e diretamente relacionado com os desafios da vida concreta. Aos poucos, o leigo experimenta que o Deus que lhe fala por meio das narrativas bíblicas, fala-lhe também, do mesmo modo, de dentro das situações concretas da vida. Ao perceber, de modo próximo e concreto, a unidade entre fé e vida, começa a conversa a partir de provocações diretas da Palavra de Deus, mas, ao mesmo tempo, sem mudar de assunto, insere no calor do bate-papo os problemas e desafios da vida concreta. Em seguida, inspirado pela Palavra, sobretudo pela vida de Jesus, planeja ações transformadoras, cria organizações, associações, movimentos e outras estratégias de participação sociopolítica.

Fizeram história na caminhada da Igreja Católica no Brasil, dentre outros, os trabalhos do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos (CEBI), do Serviço de Animação Bíblica (SAB), do Movimento da Boa Nova (MOBON), do Projeto “Tua Palavra é Vida” da Conferência Episcopal Latino-americana (CELAM) com diversificada produção de subsídios para a leitura popular da Bíblia, além de cursos, livros, revistas e roteiros.

No contexto da Arquidiocese de Belo Horizonte, embora não tão numerosos quanto os dois grupos já analisados, o leigo pertencente a esse grupo consegue desenvolver significativa presença e participação mais qualificada na ação evangelizadora da Igreja. Geralmente teve a chance de participar de curso de Teologia ou de Bíblia promovido na Arquidiocese.  Aos poucos, torna-se inquieto e mais exigente em relação à configuração da vida cristã. Não consegue reduzir as interpelações do Evangelho e a própria vida cristã ao redor das práticas sacramentais. Deseja, como é de se esperar, que a Igreja invista mais firmemente na formação bíblica e teológica dos fieis, que consiga efetivar institucionalmente maior fidelidade ao Evangelho de Jesus, com pregação mais qualificada por parte dos clérigos e mais aberta à participação do leigo, sobretudo, da mulher. Quem consegue concretizar o acesso à Bíblia, geralmente torna-se mais exigente em relação ao próprio engajamento eclesial e sociopolítico. Em resposta aos desafios postos pela realidade, promove o surgimento ou compromete-se a participar das já existentes pastorais sociais, tais como a pastoral da criança, do menor, da juventude, de rua, da terra, da mulher marginalizada, dos indígenas, dos negros, carcerária, dos dependentes químicos, dos refugiados, do migrante, grupos de fé e política, dentre outras. O leigo com formação bíblico-teológica assume-se como agente de pastoral e de transformação sociopolítica, movido pela fé e pela consciência da missão batismal, sobretudo. Deseja a Igreja menos clerical, mais fiel às fontes bíblicas, consequentemente, mais participativa e envolvente, comprometida com os rumos da sociedade, educadora da fé e do espírito ecumênico.

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Comentário teológico e pistas pastorais

Muitos leigos, embora formem grupo cada vez menos numeroso, sobretudo entre os jovens, demonstram ter desenvolvido impressionante intimidade com as narrativas bíblicas. Adquirem vasto conhecimento dos personagens e dos acontecimentos descritos na vida deles. Transitam pelos diversos livros com destreza e desenvoltura. Localizam rapidamente livros, capítulos e versículos. Tal conhecimento, resultante de longo processo de dedicação e estudo, mostra-se importante, mas não suficiente para alimentar a caminhada de cristão adulto. A leitura literal, fundamentalista, moralista, apologética e antiecumênica ainda predomina no meio dos cristãos que conquistaram acesso ao universo bíblico. Desse modo, favorecer a aquisição de visão de conjunto e do processo histórico da revelação bíblica mostra-se investimento básico na ação evangelizadora.

Importa apropriar-se e reconhecer-se no longo e árduo itinerário de amadurecimento histórico pelo qual passou o Povo de Deus até dar-se conta do projeto salvífico universal de Deus revelado em Jesus de Nazaré. Nesse sentido, aprender a situar as narrativas bíblicas no contexto histórico em que foram escritas e reconhecer as crises vividas e o significado de cada etapa de revisão, aprofundamento, retomada e amadurecimento da imagem de Deus e do conteúdo da aliança adquirem o status de passagem obrigatória e incontornável na caminhada de fé.

Urge, então, que a ação evangelizadora promova, por meio de cursos, grupos de estudos, subsídios, homilias qualificadas, dentre outros, a arte de interpretar a Palavra no horizonte da vida e, sobretudo, de cultivar intimidade orante com o Deus da vida que se revela na pessoa de Jesus de Nazaré e na dinâmica dos acontecimentos históricos de cada povo e, particularmente, de cada pessoa.

Esse acesso à Bíblia mostra-se caminho necessário para a conquista da fé cristã adulta, crítica e autônoma. Além disso, mostra-se condição necessária para a consolidação da identidade cristã em contexto de pluralismo cultural e multirreligioso. Somente reconhecendo-se enquanto interlocutora legítima da Tradição consignada nas Escrituras, a pessoa construirá e manterá a sua identidade religiosa cristã.

A ação evangelizadora tem a missão de tornar as narrativas bíblicas um verdadeiro espelho através do qual cada cristão se reconheça, experimente a presença amorosa de Deus com ele e encontre elementos significativos para analisar e forças para transformar a situação em que se encontra. É preciso investir, oportunizar e possibilitar a experiência de que cada cristão compreenda-se, de fato, descendente de Abraão e, portanto, herdeiro da promessa; como outrora no Egito e no cativeiro da Babilônia, reconheça-se herdeiro da libertação promovida por Deus através de Moisés e dos profetas. Mais fortemente ainda, que experimente a presença amorosa do Abbá de Jesus e ouça o chamado de ser discípulo missionário, como Pedro, Tiago, João, Paulo e tantos outros.

A missão da Igreja concretiza-se, fundamentalmente, quando se torna mediação facilitadora da experiência de Deus. Além de zelar, cuidar, apresentar e testemunhar a memória da revelação cristã, ela é chamada a promover o encontro pessoal com Jesus Ressuscitado na força do Espírito Santo, favorecer a geração de novos/as filhos/as para a fé, cuidar deles, educá-los para a convivência justa e fraterna, servir-lhes de plataforma de lançamento para a vida em sociedade.

Em todos os passos da IV Assembleia do Povo de Deus percebem-se claramente presentes os apelos dos cristãos pela maior explicitação, concretização e cultivo da centralidade da Palavra de Deus na vida da Igreja. Observa-se, de modo recorrente, no convívio com os membros das comunidades de fé, nos relatórios paroquiais e forâneos, como também no texto das próprias Diretrizes e dos Planos de pastoral regionais, a sede de um maior acesso ao conhecimento da Bíblia por parte de todos os cristãos. Urge que todos se unam na promoção desse acesso dos cristãos, sobretudo dos jovens, à Palavra de Deus através de investimento e subsídios para cursos, grupos de estudo, rodas de conversa, palestras, gincanas, campanha para aquisição de Bíblias, aquisição de bons comentários bíblicos, participação ativa no mês da Bíblia, dentre tantas outras.

No tocante à espiritualidade encarnada, diante do reconhecimento da centralidade da pessoa de Jesus e de seu mistério na vida cristã, as diretrizes, de modo claro, estabelecem como prioridade para todos os cristãos a busca incansável por concretizar o primado da Palavra de Deus na oração, nas celebrações litúrgicas, nos círculos bíblicos, na leitura orante e no ofício divino, na catequese e, sobretudo, no incentivo à participação em cursos e estudos capazes de qualificar bispos, presbíteros, religiosos e leigos para a missão. Enfatiza-se nelas a necessidade de atenção especial para a qualidade das homilias enquanto espaço significativo para alimentar a espiritualidade bíblica em nossas comunidades de fé.

Em vista da renovação da vida comunitária as diretrizes para Ação Evangelizadora da Arquidiocese confirmam como prioridade a oferta de formação integral e de qualidade para todos, sobretudo através da formação bíblica e teológico-pastoral. Devido ao caráter de urgência, a fim de integrar iniciativas e coordenar as diversas ofertas e suscitar processo de formação permanente, as diretrizes propõem a criação de um Secretariado de Formação em nível arquidiocesano vinculado ao Vicariato Episcopal para a Ação Pastoral.

Em relação a inserção social, elas apontam para a necessidade de concretizarmos, com ousadia, a dimensão profética da fé por meio da participação na construção da sociedade justa, inclusiva e solidariamente fraterna. Instiga-nos a criar, promover e participar dos diversos projetos sociopolíticos, defender políticas públicas garantidoras da qualidade de vida e desenvolver presença qualificada nos meios de comunicação social e nas novas mídias.  A Tradição consignada na Bíblia prescreve a unidade inquietante e criativa entre fé e vida como importante critério de autenticidade e credibilidade, interna e externa, para a vida cristã.

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