“Mostravam-se assíduos ao ensinamento dos apóstolos,                                                   à comunhão fraterna, à fração do pão e às orações…

                                                 Mostravam-se assíduos no Templo e partiam o pão                                                          pelas casas, tomando o alimento com alegria e                                                                simplicidade de coração…” (Atos 2, 42.46)

Contextualização

O Movimento das Pequenas Fraternidades (MPF’s) surgiu há menos de vinte anos, na Arquidiocese de Belo Horizonte. Ele está presente em duas paróquias da região episcopal Nossa Senhora da Esperança (RENSE): na Nossa Senhora de Guadalupe, no bairro Castelo, onde tudo começou, e na Santa Clara de Assis, nos bairros Estoril e Buritis, local onde está dando os primeiros passos. As duas paróquias compartilham realidade urbana semelhante: crescente verticalização, forte densidade demográfica e, em sua maioria, constituída de pessoas socialmente incluídas. O MFP’s está fortemente vinculado ao padre Celso Antônio Rocha de Faria, iniciador do movimento.[1]

[1] Para uma primeira aproximação do MPF’s, assista aos vídeos:

 

Origem da experiência

O mês de maio de 1998 é considerado a data de origem do movimento. Na época, no recém-criado bairro Castelo, havia construções de prédios para todos os lados. Durante o processo de criação de uma nova paróquia, as pequenas fraternidades surgem como resposta aos desafios de consolidar ali a ação evangelizadora da Igreja Católica. No ano anterior, 1997, enviado pelo então cardeal Dom Serafim Fernandes de Araújo, o padre Celso realizava as primeiras celebrações, ainda sem templo físico e sem qualquer organização pastoral. No fim daquele ano, organizou-se a tradicional novena de natal nas casas. Foi ao final deste acontecimento que nasceu a intuição original do movimento: “quem de vocês gostaria de continuar com essa experiência de encontros fraternos nas casas?” Diante desse convite, um pequeno grupo responde afirmativamente. Padre Celso recorda assim esse momento vivido há dezessete anos:

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Padre Celso – Idealizador do Movimento das Pequenas Fraternidades

Comecei a pensar: é preciso fazer algo que una as pessoas, pois o Castelo é um bairro, onde as pessoas não se encontram. Percebia que ali iriam se erguer muitos prédios e que ficaria muito mais difícil depois. Então, promovemos a novena de Natal e nela eu fui descobrindo pessoas que gostariam de continuar com a experiência vivida, ou seja, de não fazer aqueles encontros fraternos apenas durante o tempo do Natal, de não parar com os encontros nas casas. Então, logo depois, reuni um grupinho de cerca de oito pessoas que aceitaram o convite de levar adiante e continuar com a experiência.” (Trecho de entrevista concedida à equipe executiva do Observatório, em 10/09/14)

Cinco meses depois, no mês de maio de 1998, na casa de Maria da Conceição Milagres de Castro, surge a primeira das futuras pequenas fraternidades.

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Lili Milagres – Co-fundadora do Movimento das Pequenas Fraternidades

Esta recebe um nome que foi inspirado pelo livro dos Atos dos Apóstolos, “O Caminho”, pois os cristãos das primeiras comunidades, na Igreja primitiva, eram chamados de “Seguidores do Caminho”. A experiência vivida no Castelo foi experimentada por eles como um caminho novo que se iniciava. Quando ela cresceu – chegou a ter quarenta pessoas – houve a divisão do grupo. Fundava-se, então, a segunda pequena fraternidade, que recebeu o nome de “Poço de Jacó”. A divisão aconteceu levando-se em conta as afinidades percebidas na caminhada do grupo, critério que será utilizado na constituição das futuras pequenas fraternidades.

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Início do Movimento das Pequenas Fraternidades. Encontro que reuniu participantes e o padre Celso.
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Início do Movimento das Pequenas Fraternidades

Em seguida, durante o primeiro ano, procurou-se consolidar a caminhada dessas duas fraternidades. Depois, aos poucos, foram sendo criadas outras fraternidades com arranjos distintos, por exemplo, formadas a partir do encontro de casais, só de mulheres, de jovens e até de adolescentes a partir da caminhada da catequese de perserverança. Foi assim que surgiu o MPF’s.

A prática de escolher nomes retirados do horizonte bíblico ou inspirados na espiritualidade franciscana para identificar as fraternidades tornou-se um costume: Bom pastor, Discípulos de Emaús, Caminho de Damasco, Emanuel, Maranatha, Rabuni, Casa de Betânia, Casa de Nazaré, Caná, Santa Clara, Irmão Sol, Irmãos de Assis, Irmãos menores, Jovens profetas, são alguns nomes dentre muitos outros.

Recentemente o MPF’s do Castelo passou por experiência inédita: a transferência do padre Celso, depois de dezesseis anos como presbítero e guia do movimento. Depois do impacto inicial, o movimento vem demonstrando maturidade ao dar continuidade a caminhada e provocar o surgimento de novas pequenas fraternidades. O padre Celso foi transferido para a paróquia Santa Clara de Assis e, ao assumir o novo campo de missão, em fevereiro de 2014, levou no alforje a experiência vivida na Nossa Senhora de Guadalupe. Oito meses depois, já ultrapassa a marca das dez pequenas fraternidades na nova paróquia.[3]

[3] Para visualizar a nova caminhada, veja a página da paróquia no facebook: “Pequenas Fraternidades Paróquia Santa Clara de Assis”.

Embasamento bíblico-teológico e pastoral

O Evangelho, encarnado nas palavras e atitudes de Jesus, é a baliza, o critério e o fermento de toda vida cristã. O anúncio da Boa Nova de Jesus provocou, pela força do Espírito Santo, o surgimento do Cristianismo. Numa palavra, ser cristão é seguir a Jesus Cristo e viver segundo o conteúdo do Evangelho no contexto onde a pessoa, que acolhe o querigma, está inserida.

Por isso o texto bíblico inspirador do MPF’s foi o do retrato das primeiras comunidades cristãs descrito no livro dos Atos dos Apóstolos (cf. At 2, 42-47). Nele, a comunidade cristã primitiva é caracterizada pela assiduidade no ensinamento dos apóstolos, na comunhão fraterna, na fração do pão e nas orações. Além disso, cultiva a prática do encontro nas casas para a partilha da vida, bem como para a partilha dos bens a fim de que não houvesse necessitados entre eles. Tudo vivido com alegria e simplicidade de coração, para louvor e glória de Deus.

O desafio do MPF’s foi adaptar esse instigante ideal para o atual contexto urbano. Nas palavras do fundador:

O texto escolhido foi Atos 2, 42-47, o retrato da primeira comunidade. Esse é o texto inspirador. Como se pode notar, não há nada de absolutamente novo no movimento. Pegamos a experiência das comunidades primitivas e tentamos adaptá-la aos desafios da pastoral urbana. Tem que adaptar, porque não dá para viver tudo do jeito que ali está descrito. Quando a gente lê no texto, por exemplo, que os cristãos partilhavam os bens, a gente coloca: eles partilhavam a vida, partilhavam as casas, abriam as casas, partilhavam o tempo, eram solidários uns com os outros. E essa foi a mística, o texto inspirador e orientador do movimento.” (Trecho da entrevista concedida à equipe executiva do Observatório, em 10/09/14)

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Entrevista cedida à equipe do Observatório da Evangelização

Segundo o padre Celso, que foi frade franciscano e demonstra carregar no coração a espiritualidade do Santo de Assis, ao texto bíblico citado foi associado o testamento espiritual de São Francisco. Em cálidas palavras, diz:

O texto de Atos foi associado com o testamento de São Francisco. Nele Francisco, no fim da vida, diz assim: ‘Depois que o Senhor me deu irmãos, ninguém me mostrou o que eu deveria fazer, mas o Altíssimo mesmo me mostrou que eu deveria viver segundo a forma do Santo Evangelho.’ Então, juntando isso ao texto de Atos 2, 42-47, configuramos o que seria o movimento. Sem nada escrito, queríamos caminhar apenas na leveza do coração. Por isso não tem documento nenhum. Pediram-me isso, mas não escrevi nada, pois, não queria que nenhum papel matasse essa intuição original.” (Trecho da entrevista concedida à equipe executiva do observatório, em 10/09/14).

Os membros das pequenas fraternidades foram percebendo que formavam a Igreja Viva. De acordo com Pe. Celso, o MPF’s fez da paróquia Nossa Senhora de Guadalupe uma Comunidade de comunidades, e concretizou ali uma autêntica rede de pequenas fraternidades. E o fez não com espaços territoriais e capelas, mas com pessoas vivendo a fé cristã em pequenos grupos fraternos. Os participantes são educados na fé para compreender que quando abrem a própria casa para o encontro das fraternidades, ali está a igreja. E a igreja torna-se a casa de todos. Aos poucos, eles passam a perceber que o alicerce da comunidade de fé, da vida cristã, concretiza-se na experiência da fraternidade. Para expressar a identidade das pequenas fraternidades afirma que:

O fundamento da pequena fraternidade não é o estudo bíblico, não é ser um grupo de reflexão ou de oração, mas a vivência fraterna. Começa e termina na vivência fraterna.” (Trecho da entrevista concedida à equipe executiva do Observatório, em 10/ 09/ 14).

As diversas demandas paroquiais de formação religiosa e aprofundamento na experiência da fé cristã eram suscitadas através da caminhada das fraternidades. Organizou-se, por isso, o Curso de Teologia Viva. Além disso, passou a haver maior necessidade de investimento na formação litúrgica, catequética e bíblico-teológica, pois, multiplicaram-se manifestações de interesse e de perguntas sobre temas diversos da religião cristã.

As pequenas fraternidades, segundo Celso e Lili, tornaram-se verdadeiros celeiros de vocação e de ministérios eclesiais.[4] Por favorecer o aprofundamento do sentido da vida cristã e do ser igreja, as fraternidades supriram diversas demandas da paróquia. Esta passou a contar com pessoas que se colocavam disponíveis a serviço da Igreja: na catequese, na animação litúrgica, como ministro da Palavra, ministro extraordinário da Eucaristia, agente de pastoral, dentre outros. As celebrações, consequentemente, tornaram-se mais vivas e passaram a concretizar um espaço eclesial contagiante onde as pessoas expressam a alegria do encontro com Deus e com os irmãos. Os participantes das fraternidades entrevistados corroboram que o clima da igreja tornou-se outro.

Como reflexo dessa crescente consciência eclesial, a paróquia encontrou condições pastorais para organizar-se e estruturar-se enquanto tal. Edificada a Igreja Viva, como consequência, construiu-se a primeira igreja-templo Nossa Senhora de Guadalupe e, depois, a segunda igreja-templo São Francisco de Assis.

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Igreja Nossa Senhora de Guadalupe, no bairro Castelo.
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Igreja São Francisco de Assis, no bairro Castelo.

[4] Nos diversos âmbitos da organização eclesial da paróquia Nossa Senhora de Guadalupe fica visível, nos diversos quadros de serviço litúrgico e pastoral, a presença marcante dos membros das pequenas fraternidades.

Processo de institucionalização

Após o primeiro ano de aprofundamento na vivência da dinâmica do movimento, das duas fraternidades até então constituídas, formaram-se duplas ou casais animadores e estes foram enviados com a missão de iniciar novas pequenas fraternidades, seja a partir de convites lançados pelo presbítero nas celebrações e encontros, seja por iniciativa dos próprios leigos em desejarem participar da experiência.

Consolidaram-se, aos poucos, duas formas de se iniciar novas fraternidades, a primeira, por divisão, quando acontecia o crescimento do número de membros, e a segunda, por envio missionário, quando os membros experimentavam o ardor e o chamado para irradiar para outros a experiência vivida.

Uma segunda etapa pode ser identificada após os primeiros anos de caminhada no processo de constituição das pequenas fraternidades. Introduziu-se na paróquia a dinâmica dos “Encontros de Casais com Cristo” (ECC’s), mas de forma adaptada e voltada para o MPF’s. Em cada encontro de casais, apresentava-se a proposta das pequenas fraternidades e nucleava-se, em seguida, novas fraternidades. Estas eram animadas, inicialmente, por membros do movimento. Além disso, o padre Celso acompanhava assiduamente os encontros fraternos nas casas, o crescimento e o fortalecimento de cada pequena fraternidade até que engrenassem na caminhada.

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Pequenas Fraternidades disponíveis ao serviço da Igreja.

Desde o processo inicial das primeiras fraternidades, foi instituído o serviço de animador. Em cada fraternidade escolhe-se uma dupla ou casal para exercer essa função. Este serviço foi concebido para ser concretizado de forma eletiva e rotativa a cada seis meses. A dinâmica foi pensada para oportunizar a todos os membros passar pela experiência de ser responsável pelo serviço de animação da fraternidade. Esta experiência favoreceu a busca de crescimento na vida cristã, bem como o despertar para o cultivo de dons e serviços eclesiais.

Ao longo do caminhar das pequenas fraternidades, diante de novas necessidades, foram sendo discernidos e instituídos outros serviços. Por exemplo, quando já não dava mais para a mesma pessoa acompanhar e atender todas as fraternidades e por multiplicarem-se os desafios e solicitações específicas de cada uma, instituiu-se o serviço de zelador. Isso aconteceu quando o número ultrapassou o de vinte e cinco fraternidades. Então, além dos animadores, surge o serviço de zelador. Assim, a cada três ou quatro fraternidades formava-se uma espécie de núcleo. Cada um desses núcleos passou a ser acompanhado por uma dupla ou casal de zeladores. Este serviço, com duração de dois anos, tem a função de levar a mensagem do pároco para as fraternidades do núcleo e trazer para o pároco demandas, dificuldades e problemas vividos no interior de cada fraternidade.

Posteriormente, com o crescimento do número de pequenas fraternidades, surge outra necessidade, a criação dos grupos fraternos, uma espécie de setor que reúne um grupo de zeladores com as suas respectivas fraternidades. Os grupos fraternos são formados pelos zeladores do setor com os respectivos animadores das fraternidades correspondentes a cada dupla ou casal zelador.

Atualmente, os grupos fraternos estão diretamente ligados ao Conselho Geral das Pequenas Fraternidades. Este foi criado apenas no final de 2013, diante da notícia da transferência do padre Celso. Para ajudar na visualização da organização atual das pequenas fraternidades na Paróquia Nossa Senhora de Guadalupe, veja o quadro a seguir:

Com o objetivo de oferecer um fio condutor ao movimento, além do conselho, foram elaboradas as Diretrizes das Pequenas Fraternidades. Algo simples e concreto, segundo o padre Celso, inspirado na regra de São Francisco: explicitação do que consistia a identidade do movimento das pequenas fraternidades; apresentação do texto bíblico inspirador; orientações práticas para a dinâmica dos encontros e descrição do serviço de animador, zelador e dos grupos fraternos. Veja o texto original, a seguir:

DIRETRIZES DAS PEQUENAS FRATERNIDADES
  1. Quanto à sua denominação

Pequenas Fraternidades são grupos de cristãos católicos que se encontram, periodicamente, em suas casas, buscando, essencialmente, a vivência da fraternidade tão desejada pelo Senhor Jesus Cristo. A base dessa fraternidade é alimentada pela oração e estudo da palavra de Deus na Sagrada Escritura e acerca da doutrina da nossa Igreja Católica Apostólica Romana.

Assim, queremos nos assemelhar à vida das primeiras comunidades cristãs, como nos relata os Atos dos Apóstolos 2, 42-47:

“Eram perseverantes em ouvir o ensinamento dos apóstolos, na comunhão fraterna, no partir do pão e nas orações. Em todos eles havia temor, por causa dos numerosos prodígios e sinais que os apóstolos realizavam. Todos os que abraçavam a fé, eram unidos e colocavam em comum todas as coisas: vendiam suas propriedades e seus bens, repartiam o dinheiro entre todos conforme a necessidade de cada um. Diariamente, todos juntos frequentavam o Templo e nas casas partiam o pão, tomando o alimento com alegria e simplicidade de coração. Louvavam a Deus e eram estimados por todo o povo. E a cada dia, o Senhor acrescentava à comunidade outras pessoas que iam aceitando a salvação.”

A sua formação aconteceu, no dia 12 de maio de 1998, presidida pelo Pároco Pe. Celso Antônio Rocha de Faria.

  1. Quanto à sua formação

2.1 – As Pequenas fraternidades são constituídas por jovens e adultos que desejam crescer na fé e no amor do Senhor. O número mínimo para se iniciar uma Pequena Fraternidade são 06 (seis) pessoas e o máximo que comporta em cada uma delas são 15 (quinze) componentes, não podendo exceder a esse número, uma vez que isso dificultaria o trabalho de partilha e estudo nas fraternidades.

2.2 – Para se formar uma Pequena Fraternidade, basta que haja pessoas interessadas que solicitem essa formação ou a coordenação paroquial tome a iniciativa, motivando os paroquianos para o mesmo.

  1. Quanto aos encontros

3.1 – Os encontros das Pequenas Fraternidades acontecem no horário e dia em que a fraternidade julgar ser melhor para seus componentes.

3.2 – Para cada encontro, há um material devidamente preparado, assim, todos estarão em comum união.

  1. Coordenação Paroquial das Pequenas Fraternidades

4.1 – Será nomeada uma coordenação paroquial das Pequenas Fraternidades distribuídas da seguinte maneira: coordenador, vice – coordenador, três conselheiros. Em comunhão e em obediência ao pároco, esta coordenação terá como função a organização geral das Pequenas Fraternidades e coordenar todos os trabalhos dos grupos fraternos com os respectivos zeladores. O mandato da coordenação geral e zeladores será de 2 (dois) anos.

4.2 – As Pequenas Fraternidades estão agrupadas em seis (06) grandes equipes, chamadas de grupos fraternos. Cada grupo fraterno tem um nome que o identifica e cada um deles tem irmãos, que zelam pelas pequenas fraternidades e que são a ponte entre elas e a Coordenação Paroquial das Pequenas Fraternidades, composta por 44 ( quarenta e quatro) zeladores.

4.3 – Os Grupos fraternos e seus nomes: Kerigma; Vida; Providência; Carisma; Fonte Viva; e Ruah (este último destinado as fraternidades de jovens).

Os irmãos chamados ao serviço de zelar pelas Pequenas Fraternidades são nomeados dentre aqueles que mostraram amor e dedicação à vida e a animação do movimento das Pequenas Fraternidades.

O papel fundamental dessa equipe é ser um apoio às Pequenas Fraternidades, procurando acompanhar, zelar pelo bom funcionamento das mesmas, providenciar o material de estudo para os encontros fraternos, favorecer o entrosamento das fraternidades e promover um espírito de comunhão entre todas. O mandato para cada equipe de Zelador é de dois anos podendo ser renovado conforme as necessidades paroquiais.

4.4 – Animação de cada Pequena Fraternidade

A animação de cada Pequena Fraternidade é feita por dois de seus componentes que podem ser escolhidos, indicados ou que, naturalmente, se apresentem para esse serviço. Os animadores serão os mesmos por um período de seis meses, ao final dos quais deverão ser substituídos, favorecendo uma maior participação e crescimento de todos.

O papel dos animadores, como o próprio nome já indica, é de animar a fraternidade, procurando fazer com que haja um crescimento igualitário de seus participantes. Devem ser os que menos falam e os que mais se colocam na atitude de escuta. Devem manter sempre a equipe de animação geral informada do andamento da fraternidade, zelando para que todos se sintam confortáveis na mesma. O mais importante a se saber sobre esse serviço de animação das pequenas fraternidades é que cada integrante deve ser responsável pelo bom funcionamento da fraternidade.

4.5 – Quanto à formação e espiritualidade das Pequenas Fraternidades

Para fomentar o aprofundamento da fé, mediante o estudo da Palavra de Deus e da doutrina de nossa Igreja, favorecendo para que os encontros das Pequenas Fraternidades sejam lugares privilegiados da vivência de uma espiritualidade cristã, fortalecida pelo testemunho e encarnada pela presença dos irmãos fraternos, será constituída uma equipe de espiritualidade e formação dentre os irmãos das pequenas fraternidades, a fim de que eles possam auxiliar a coordenação geral e zeladores a cuidar da vivência do amor de Deus mediante a escuta da Sagrada Escritura e de seu aprofundado estudo. Além de cuidar do material para o estudo nos encontros fraternos, essa equipe terá também, quando solicitada pela coordenação geral, pelos zeladores, animadores das fraternidades ou pelo pároco, a incumbência de ir ao encontro fraterno das pequenas fraternidades como ministros da palavra, discípulos missionários para levarem o anúncio da Boa Nova do Senhor. Essa equipe terá uma coordenação composta por duas pessoas que estarão subordinadas à coordenação geral das Pequenas Fraternidades e deverão participar das reuniões do conselho paroquial das Pequenas Fraternidades.

  1. O serviço das Pequenas Fraternidades

A Pequena Fraternidade deve ser, por excelência, um serviço à evangelização, ao crescimento e amadurecimento da fé cristã de seus integrantes, levando-os a um verdadeiro engajamento na igreja.

Assim sendo, as Pequenas Fraternidades devem estar atentas às necessidades paroquiais, procurando colocar-se sempre à disposição e a serviço da igreja.

No momento atual, as Pequenas fraternidades têm prestado os seguintes serviços:

5.1 – O primeiro e mais importante, já citado acima, é o serviço à evangelização e ao crescimento e amadurecimento da fé dos seus integrantes;

5.2 – São responsáveis pela arrumação de nossa igreja (templo) e pela organização litúrgica das missas dominicais;

5.3 – É apoio essencial às diversas festas e promoções paroquiais;

5.4 – Têm sido celeiro de diversos ministérios e serviços leigos para a Paróquia, tais como: Catequistas; Agentes da Pastoral do Batismo; Agentes da Pastoral da Acolhida; Ministros Extraordinários da Eucaristia; Agentes da Pastoral do Canto; Agentes da Equipe de Promoções e Festas; Agentes da Pastoral da Juventude; Agentes da Equipe de Obras; Agentes para Pastoral Familiar; Pastoral da Comunicação; Pastoral Social e tantas quantas se fizerem necessárias para a vida eclesial de nossa Paróquia.

5.5 – As Pequenas Fraternidades querem ser um apoio às famílias católicas, procurando através de uma formação sólida, ajudá-las na sua vivência cristã.

5.6 – Vem assumindo uma ajuda a famílias carentes, buscando exercitar o dom da partilha, lembrando o que mandou Jesus aos discípulos pela ocasião da multiplicação dos pães: “Dai-lhes vós mesmos o de comer”(cf. Mt 14,16).

5.7 – O grande testemunho de caridade, da vivência de uma fé encarnada que floresce em obras é a fundação da Associação Assistencial Nossa Senhora de Guadalupe- Casa de Nazaré, criada para que a vivência fraterna de cada Pequena Fraternidade possa se traduzir no gesto máximo do novo mandamento de Nosso Senhor Jesus Cristo: “Amai-vos uns aos outros como eu vos tenho amado”.

Em síntese, nossas Pequenas Fraternidades tem sido verdadeiras células vivas, movidas e guiadas pelo Espírito do Senhor, a fazer pulsar o coração de nossa Paróquia.

OBSERVAÇÃO: Essas diretrizes podem ser alteradas conforme as necessidades que surgirem a fim de que o movimento das Pequenas Fraternidades não perca o seu ponto de partida, o seu encantamento, o sentido de sua existência, que é ser sinal de ternura, de misericórdia e do amor de Jesus Cristo na Paróquia de Nossa Senhora de Guadalupe e na Arquidiocese de Belo Horizonte.

Com o crescimento das fraternidades – atualmente, no Castelo, são mais de setenta e, segundo seus dirigentes, elas envolvem mais de mil pessoas – e com a saída do padre Celso, o movimento assumiu nova forma de estruturação.  No primeiro nível vem o pároco com um Conselho Geral das Pequenas Fraternidades. Este é formado por um(a) coordenador(a), um(a) vice e três conselheiros(as). Em seguida, no segundo nível vem o casal ou a dupla de zeladores que coordena cada um dos seis grupos fraternos. Cada um destes grupos é composto pelos zeladores e animadores do conjunto de pequenas fraternidades animadas que compõem o grupo.[5]

Como se pode notar, o processo de institucionalização vai acontecendo ao longo da caminhada, diante da necessidade de estruturação e organização, com o desafio de manter a dinamicidade e a leveza do carisma inicial.

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5] Veja, no organograma acima, sob os grupos Kerigma, Vida, Providência, Carisma, Fonte Viva e Ruah, cada coluna, com cores diferentes, formada por determinado grupo de pequenas fraternidades, com seus respectivos zeladores e animadores.

Entre o ideal e os desafios da caminhada

O ideal do MPF’s não é novo, nem original. Trata-se, pois, do belo desafio proposto a todos que se deixam seduzir e acolhem a fé cristã: concretizar, da forma mais autêntica e palpável possível, o Evangelho de Jesus no contexto onde se está inserido. A questão central pode ser assim sintetizada: como solidificar, na convivência diária, a vida fraterna provocada pela experiência da fé cristã no Deus que a todos irmana com seu amor de Pai?

A maioria dos cristãos não consegue concretizar, a não ser de modo superficial e ainda mais no ritmo da vida contemporânea, a ousada proposta do Evangelho. Por receber, frequentemente, evangelização fragmentada e pontual, contenta-se com a vivência simbólica e ritual da fé cristã: receber o Batismo, participar semanalmente da Eucaristia, rezar, de mãos dadas, a oração do Pai Nosso etc. Trata-se de muito pouco para quem se deixou seduzir pela experiência cristã e decidiu pautar a vida pelos valores do Evangelho.

Em nossa pesquisa de campo, observamos inúmeros desafios na história do MPF’s. Toda caminhada recolhe vitórias e conquistas, mas também derrotas e fracassos. O desafio de todo caminhante encontra-se na resiliência, na capacidade de retomar, com renovado ardor, à experiência fontal, para recuperar o fio da meada, alimentar o horizonte de busca e continuar o caminho. O movimento esbarra em inúmeras situações adversas. Estas estão presentes no interior de cada pequena fraternidade com as dificuldades inerentes a qualquer convivência humana: relações de poder, arrogância, tendência ao fechamento, ciúme, linguagem, conflitos do cotidiano, dentre outras. Outras dificuldades são oriundas da própria dinâmica da vida eclesial: fechamento em si mesma, falta de formação bíblica, teológica e litúrgica do leigo, falta de aprofundamento na compreensão da fé cristã, excessiva dependência e centralidade do padre, dificuldade do leigo crescer em autonomia e da corresponsabilidade eclesial, redução da fraternidade ao nível sacramental e ritual, dificuldade com a explicitação da dimensão política da fé, dentre outras.  Um terceiro grupo de dificuldades emerge da própria vida urbana inserida numa sociedade injusta, desigual e carente de políticas públicas fundamentais: participar dos movimentos sociais, associações de moradores, ONG´s, cooperativas, irmanar-se e apoiar as diversas lutas em defesa da cidadania e da dignidade da vida, denunciar situações de injustiça social e agressão a dignidade da vida. A vida cristã é vivida sempre encarnada na vida de pessoas concretas e na realidade onde estas estão inseridas.

Vitalidade da experiência

A fonte de vitalidade do MPF’s está primariamente ligada ao próprio projeto salvífico de Deus. A experiência da salvação cristã passa pela acolhida do amor gratuito de Deus no comprometimento com a prática do amor ao próximo. Segundo, a dinâmica dos encontros fraternos vem ao encontro do anseio do ser humano de sentir-se amado, acolhido e reconhecido e de concretizar estruturas sociais de fraternidade e convívio social sadio. Tal experiência possui raízes no cerne da fé cristã: Deus se revela como o Pai nosso. Somos todos filhos(as) amados(as) e vocacionados(as) à convivência misericordiosa, solidária, justa, e fraterna.

No centro da prática das pequenas fraternidades está o cultivo do encontro fraterno entre seus membros e o colocar-se a serviço da comunidade de fé, sobretudo, na liturgia e nas pastorais. Além disso, o movimento oferece oportunidade de protagonismo em ações solidárias ou de serviço no seio da comunidade eclesial. Os participantes deixam de ser anônimos no meio da multidão de fiéis da comunidade. A experiência do MPF’s nos encontros fraternos garante laços de apoio e crescimento humano pessoal e intersubjetivo no seio da pequena fraternidade, bem como reconhecimento social na grande comunidade. Cada fraternidade passa a ter vez, voz e espaço de participação na comunidade eclesial. Por isso seus membros vestem a camisa. E isso faz muito bem para o ser humano, especialmente, nesse contexto urbano em que vivemos.

Os participantes do movimento que foram entrevistados falam da experiência com brilho nos olhos, entusiasmo. Segundo os coordenadores, o nível de perseverança dos membros das pequenas fraternidades é alto. Tais aspectos indicam que a experiência vivida alimenta o bem estar, favorece o a construção de identidade eclesial e social e contribui na convivência social.

Desafios do Movimento

Um primeiro bloco de desafios do MPF’s situa-se no cuidado diário para que a experiência não caia na rotina, não espiritualize o significado social de fraternidade e não perca o ardor carismático da experiência. Para isso, há que se cultivar uma espiritualidade cristã capaz de neutralizar a tendência ao fechamento no próprio grupo e de provocar contínuo processo de conversão ao projeto de Deus, investir em processos formativos que favoreçam o conhecimento cada vez mais profundo da Palavra, do Projeto Salvífico de Deus e do significado de ser Igreja. Por fim, cuidar que não se perca a alegria do Evangelho.

Um segundo bloco de desafios encontra-se na capacidade de formar o leigo para a autonomia, a corresponsabilidade e a favorecer a conquista da cidadania eclesial. A coordenação do MPF´s é chamada a discernir formas de ajudar na construção de uma igreja viva, acolhedora, participativa, toda ministerial e a serviço do povo. Enquanto os membros das pequenas fraternidades permanecerem vinculados e dependentes visceralmente do presbítero, do conselho, dos zeladores e animadores estarão na menoridade e aquém da conquista da maturidade eclesial. A Igreja é chamada a libertar as consciências e promover a concretização do agir adulto, eticamente, livre e responsável. Para isso, importa consolidar espaços de estudo, pesquisa, diálogo, partilha e de crescimento na fé adulta. O padre, como pastor zeloso, e as demais lideranças do movimento, são chamados a promover experiências que ajudem cada pequena fraternidade e cada membro a caminhar com as próprias pernas. Como um pai ou uma mãe zelosos em relação ao crescimento de seus filhos, como um educador atento em relação ao ensino-aprendizagem de seus educandos, o pároco e o conselho das pequenas fraternidades, zeladores e animadores, todos são chamados a educar para a liberdade, para a criatividade e para a corresponsabilidade eclesial e social. Urge descobrir metodologias e experiências adequadas para estimular, pedagogicamente, o protagonismo e a corresponsabilidade de cada membro com a caminhada das pequenas fraternidades e da igreja.  Com as palavras sábias de Dom Helder, “que tuas mãos ajudem a alçar o voo, mas que jamais cedam a tentação de substituir-lhes as asas”.

Um terceiro bloco de desafios mostra-se na capacidade de manter o carisma e apresentá-lo de forma significativa e experiencial para os jovens.  Atrair e envolver, com paciência e criatividade, os jovens na dinâmica do Movimento deve assumir a categoria de urgência irrenunciável. Com abertura crítica e autocrítica e com confiança na condução e criatividade do Espírito Santo, cuidar dos espaços de escuta, de diálogo fraterno e de comunicação: seja entre as fraternidades em cada um dos grupos fraternos e no conjunto do movimento, seja do movimento com os demais movimentos, pastorais e grupos eclesiais presentes na paróquia e/ou na vida da Igreja. Além disso, manter o espírito de abertura, interação e convivência com os movimentos sociais, associações, cooperativas, ONG’s, pessoas que participam de outras igrejas cristãs ou de outras tradições religiosas.

E você o que pensa deste movimento?

Nota-se que o MPF’s procura assumir o ideal das primeiras comunidades e concretizar a vida cristã no contexto atual, desafio que é comum a todo batizado. Qual será contribuição do Movimento para a Igreja de Jesus Cristo e para a sociedade? Só o tempo irá dizer.

O movimento conseguirá tirar cristãos católicos sistematicamente acomodados em zonas de conforto e provocar novo horizonte de conversão? Conseguirá atrair, pelo testemunho de seus membros, os cristãos católicos afastados e despertar neles, mais que o desejo, o compromisso com o seguimento de Jesus? Conseguirá favorecer oportunidades de crescimento e de conquista da maturidade de cristãos adultos, críticos e corresponsáveis na vida da igreja? Conseguirá envolver os jovens e favorecer experiência cristã capaz de ajudá-los na adesão livre e consciente pela fé cristã? Conseguirá desenvolver mentalidade religiosa ecumênica e concretizar convivência fraterna com membros das demais igrejas cristãs? Conseguirá formar cristãos católicos para o diálogo e respeito fraterno e solidário com membros das demais religiões e com as pessoas sem religião? Conseguirá criar condições favoráveis para que os membros das pequenas fraternidades desenvolvam a dimensão sociopolítica e ambiental da fé cristã, levando-os a se irmanar com outros movimentos, associações, grupos, ONG’s nas ações em defesa da dignidade da vida? Só o tempo irá dizer.

E você, o que pensa a respeito? Escreva para nós. Dê-nos o seu parecer e a sua crítica. Ajude o Observatório da Evangelização a concretizar a sua missão.

 

Edward Neves Guimarães

P/ equipe executiva do Observatório

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