Caracterização do perfil

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Nosso mundo passou por mudanças profundas nos últimos tempos. Dentre elas destaca-se a crescente percepção, seguida do reconhecimento, da legitimidade e do valor do pluralismo: étnico, cultural e religioso. Esse fenômeno contemporâneo, descrito como compreensão do mundo enquanto aldeia global ou planetária, resultou da inédita experiência possibilitada pela criação de poderosos meios de comunicação e de transporte. Esses engendraram outra visão da realidade e dos limites do planeta Terra, ao favorecerem verdadeiro estreitamento das distâncias físicas e temporais. Atualmente, temos nova situação quanto à diversidade e à própria relação entre as diferentes nações, culturas e religiões.

Após a trágica experiência de duas guerras mundiais, reconhecemos que paulatinamente a humanidade conquistou avanços na gestão dos conflitos: conseguimos ultrapassar fronteiras, superar divisões, quebrar muros e construir pontes. Hoje há muito maior proximidade e interação entre os grupos diversos. “Cidades planetárias”, como Nova York, Cidade do México, São Paulo, Paris, Londres, Madri, Berlim, Tóquio, Rio de Janeiro, dentre tantas outras, possibilitam a relação e a convivência cotidiana entre pessoas dos mais diversos grupos étnicos, culturais e religiosos. Criam-se novos vocábulos e expressões: planetização, globalização, mundialização, multiculturalismo, mundivivências. Promovem-se, com frequência cada vez maior, intercâmbios culturais, experiências e encontros multirreligiosos. Se por um lado, os conflitos aumentaram e cotidianamente nos deparamos com as velhas práticas xenofóbicas, etnocêntricas ou religiocêntricas, por outro, reconhecemos, em não poucas pessoas, inusitada mudança de mentalidade, manifestações de novas identidades, esforços de tolerância, convivência, respeito e diálogo para com as minorias, além de preciosas e originais experiências antropológicas, até pouco tempo inimagináveis.

A necessidade de novo pacto social impõe-se. Do mesmo modo, brota a exigência de pensar em educação para a convivência em tempos de pluralismo. Há uma crescente preocupação em fomentar a cultura da paz. Percebe-se a urgência da construção de, pelo menos, um mínimo de consenso ético planetário. Muitos já reconhecem, não apenas empresas e feiras de negócios multinacionais para fins de ampliação de mercado ou intercâmbio tecnológico, mas organismos e tribunais internacionais ou mundiais. Muitas manifestações dessa nova configuração da humanidade, especialmente no campo cultural e religioso, revelam-se ainda incipientes e germinais.

O cenário religioso brasileiro transforma-se de modo visível. Os dois últimos censos, sobretudo, indicaram mobilidades e alterações na nossa geografia religiosa. Diante das novas posturas religiosas das pessoas, as tradicionais opções para caracterizar as experiências religiosas apresentam diversos limites. Houve necessidade da criação de outras categorias para expressar novas realidades, identidades, posturas e vivências religiosas, bem como explicitar mudanças ocorridas nas identidades religiosas tradicionais de nosso meio. A título de exemplo, entre o grupo dos que se denominam “sem religião”, há ateus, agnósticos, cristãos católicos não praticantes, cristãos evangélicos não praticantes, dentre outros.

Em relação ao Cristianismo Católico, observa-se, além da crescente perda de fieis, sobretudo entre os jovens e, geralmente, para outras igrejas cristãs, há leigos com mentalidades religiosas diversas. Em relação a esse fato, já nos referimos ao crescimento do número de católicos pentecostais ou carismáticos. Constatamos, de modo significativo, em muitos leigos a tendência a quebrar distâncias entre as igrejas cristãs e, em menor número, em relação a outras tradições religiosas. Por um lado, observamos a diminuição da radicalidade de posturas extremistas, apologéticas excludentes, de intolerância para com a mudança de religião e, ainda, a realidade, cada vez mais comum, de diversidade religiosa familiar; por outro, o aumento das manifestações de desconforto em relação às posturas e práticas proselitistas. Cresceu também a fragilização dos vínculos institucionais e a postura de acolher mais de uma religião ou igreja como fonte de identidade ou vivência religiosa.

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Historicamente reconhecemos o fenômeno do sincretismo religioso no cristianismo popular em Minas Gerais, sobretudo, em relação aos cultos afro-brasileiros, Candomblé e Umbanda, e, especialmente, ao Kardecismo. Hoje, com a conquista de maior autonomia das subjetividades religiosas, isso acontece muito mais. Alguns cristãos católicos mostram-se, simplesmente, mais dispostos a dialogar, com abertura para aprender e até assimilar valores de outras igrejas e/ou tradições religiosas. Não se trata, a nosso ver, do crescimento da tendência à privatização do patrimônio religioso, mas da superação de preconceitos demonizadores da religião alheia; do crescimento da consciência da autonomia; e, consequentemente, da conquista de liberdade de trânsito religioso. Em contexto de reconhecimento da beleza do pluralismo religioso, tolerância, respeito e liberdade religiosa, quando não há investimento na formação, clareza da identidade religiosa e satisfação do fiel em suas buscas espirituais e existenciais, acontecem, com maior facilidade, casos de mudança de religião, como também o fenômeno do sincretismo, da bricolagem e do hibridismo religioso. A pedagogia do medo e da ameaça tende a perder credibilidade e eficácia no discurso religioso como forma de fidelização dos fieis.

Alguns cristãos católicos, à revelia da instituição e dos limites estabelecidos pela doutrina, convivem bem, assimilam e até consomem, em suas práticas religiosas, sem contradições internas, elementos, crenças, ritos e costumes de matrizes religiosas diferentes. Entre esses há aqueles que praticam veladamente, mas com tendência a tornar pública, sobretudo entre as novas gerações, a prática da dupla ou até tripla pertença: reconhecem-se católicos kardecistas, católicos kardecistas e umbandistas, católicos umbandistas e candomblecistas, católicos daimistas, católicos budistas, católicos animistas, dentre outros. Há também aqueles que afirmam ser católicos e frequentar igrejas evangélicas e outros tipos de culto; há católicos que rezam para os santos e para orixás; há os que frequentam a Igreja Católica, mas também a Sheicho-no-Iê, por exemplo. Outros ainda reconhecem a beleza e o valor das diversas tradições religiosas, confirmam a identidade cristã católica, mas ampliam a capacidade de convivência e admiração pelas posturas e ensinamentos de líderes religiosos: Desmond Tutu, Luther King, Chico Xavier, Dalai Lama, Mahatma Gandhi, dentre outros. Promovem avanços na direção da superação de preconceitos e na construção do diálogo ecumênico e inter-religioso.

No contexto atual da Arquidiocese de Belo Horizonte notam-se mudanças dignas de serem aqui reunidas: observa-se a presença teimosa de grupo de leigos com mentalidade religiosa cristã predominantemente ecumênica e aberta ao diálogo inter-religioso. Muitos fazem parte, concomitantemente, dos grupos de leigos com mentalidade religiosa bíblico-teológica e sociopolítica e ecológica já aqui apresentados. Primeiramente, leigos com acesso à formação bíblico-teológica, ao conhecer de perto o projeto salvífico de Deus revelado na vida de Jesus de Nazaré e os ensinamentos do Concílio Vaticano II, tendem a acolher o espírito ecumênico e a desenvolver postura de diálogo inter-religioso. Em Belo Horizonte, nos cursos de teologia tornou-se comum encontrar pessoas de outras igrejas cristãs e/ou tradições religiosas. Do mesmo modo, aqueles que conquistaram acesso ao ensino superior e receberam formação humanista crítica, filosófica, ética, sociopolítica e ecológica tendem a desenvolver abertura fraternal, ecumênica e dialogal com as pessoas participantes de outras religiões. Em terceiro lugar, leigos que construíram sua identidade cristã nutrida e trabalhada pela matriz do catolicismo popular mostram-se capazes de gestar identidades, posturas e vivências religiosas cristãs mais abertas, tolerantes e dialogais tanto com as outras religiões cristãs, quanto com as demais religiões. Os muros da separação e do preconceito religioso foram construídos mais por conceitos doutrinais impostos e por ideologias institucionalizadas com discursos demonizadores das demais tradições religiosas que por experiências pessoais de conflito, contradição ou incompatibilidade. Ao conversar com os leigos com mentalidade religiosa oriunda do catolicismo popular observa-se maior tendência à postura tolerante, de respeito, de convivência e de abertura dialogal que de fechamento ou exclusão. Há igualmente presbíteros que estimulam, incentivam e, também eles próprios, ensaiam, juntamente com os leigos, parcerias, encontros e estudos com membros de outras igrejas cristãs e tradições religiosas.

O que mais caracteriza esse grupo parece ser a capacidade de cultivar uma visão positiva da religião do outro. O leigo desse grupo não se aproxima do adepto de outra religião como quem se aproxima de inimigo ou de doente contagioso. Livrou-se do preconceito, do medo e do famoso “cruz-e-credo” que provocava a cegueira e o afastamento por considerar como obra do demônio qualquer símbolo, rito e costume religioso diferente. Por isso, quando se aproxima de pessoa de outra igreja ou tradição religiosa, tais leigos não desejam convencê-la da superioridade da própria igreja e religião ou demonstrar erros, contradições e limites da igreja ou religião alheia. Aprendeu, com o exemplo de Jesus, a acolher a pessoa independentemente de qualquer coisa, inclusive de sua confissão religiosa. A postura de respeito, abertura e diálogo, nasce, cresce e amadurece na convivência social e fraterna.

Há também a prática de estudos bíblicos teológicos ecumênicos como os desenvolvidos pelo Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos (CEBI), a Campanha da Fraternidade Ecumênica, parceria entre a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC), do mesmo modo, a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, além da utilização da versão ecumênica da Bíblia (TEB) e da própria oração do Pai Nosso. Outro exemplo, digno de ser mencionado é o trabalho social desenvolvido pelo Núcleo Assistencial Caminho para Jesus, que começou com um grupo de espíritas e que, hoje, nele atuam espíritas, católicos, evangélicos, candomblecistas, umbandistas e pessoas de boa vontade… todas de mãos dadas pela causa comum. Nesse mesmo sentido, acontecem parcerias em creches, lares de idosos, campanhas, protestos, projetos políticos, sociais e ecológicos.

Os leigos católicos com mentalidade religiosa predominantemente ecumênica e aberta ao diálogo inter-religioso desejam uma igreja mais aberta e dialogal, consciente de seu papel de construtora da cultura da paz, comprometida com parcerias sociopolíticas e ecológicas ecumênicas e multiconfessionais.

Comentário teológico e pistas pastorais

A boa nova do Evangelho não deve ser compreendida, sob pena de deturpar-se, apenas para os cristãos, menos ainda com exclusividade para os católicos. Na base do cristianismo encontramos a experiência de Deus que nos irmana a todos. O Deus de Jesus revela-se com projeto salvífico para toda humanidade.

Urge formar nos cristãos a consciência da dimensão sacramental da Igreja em relação ao Reino. Mais importante que a defesa da instituição católica, visão estritamente autorreferencial, encontra-se a missão de evangelizar o mundo. Formar comunidades de fé capazes de acolher o Espírito Santo, testemunhar e irradiar a presença do Reino de Deus ao jeito de Jesus.

Essa compreensão emerge da própria vida de Jesus que se entrega totalmente, de modo fiel, à missão de revelar ao mundo a presença do amor gratuito e universal de Deus no meio de nós. Em Jesus de Nazaré, Deus se revela fonte de amor universal e de sustentação da autonomia da vida; fonte de misericórdia infinita e de poder transformador de vidas pela força do amor; fonte de sentido que inspira a práxis da justiça e da inclusão social, fonte de poder para, livremente, colocar-se a serviço da dignidade da vida.

A Igreja encontra a sua razão de ser no serviço que presta à humanidade: tornar visível pelo ensino e, ainda mais, pelo testemunho a presença amorosa e dinamizadora de Deus. Quem ama aproxima, reúne, congrega, acolhe, perdoa, cuida, promove a liberdade e a dignidade, reconstrói, não exclui, não abandona, espera contra toda desesperança.

Cabe à ação evangelizadora promover a configuração da Igreja enquanto comunidade dos batizados, conscientes da missão de formar o “Corpo de Cristo”. Comunidade de fé que assume a tarefa de ser sacramento do projeto salvífico universal do Pai. Comunidade fraterna que adota como critério de discernimento de seu agir a própria vida de Jesus. Comunidade toda ministerial que, na força do Espírito do Senhor, compromete-se, de modo corresponsável, na missão de anunciar e testemunhar a presença do Reinado de Deus no meio de nós.

As diretrizes da ação evangelizadora da Arquidiocese de Belo Horizonte, no tocante a espiritualidade encarnada, afirmam que quanto mais a centralidade da vida de Jesus conseguir ser concretizada nas comunidades, mais explícita tornar-se-á a dimensão ecumênica e dialogal da espiritualidade cristã. Deus não violenta o mistério da consciência e da liberdade humanas, ao contrário, revela-se como aquele que as sustenta. O dinamismo da aliança centra-se em estrutura dialogal, apresenta-se como proposta que interpela e espera pacientemente resposta livre, responsável e participativa do ser humano. Jesus provoca o chamado ao manifestar a misericórdia infinita e amorosa de Deus para com o pecador. O chamado à missão de evangelizar revela-se maior do que a adesão a um credo religioso. Além disso, importa não esquecer-nos das lições advindas do caminho trilhado, pois a configuração autossuficiente e autorreferencial do cristianismo católico deixou marcas negativas na história da humanidade. Justificamos guerras religiosas, ignoramos a dignidade e passamos por cima de tradições culturais e religiosas indígenas e africanas, desenvolvemos posturas apologéticas violentas, preconceituosas e excludentes. A Igreja percebeu a necessidade de conversão. Com a graça de Deus, deu passos concretos, ainda que tímidos, na reflexão teológica e na concretização de práticas ecumênicas e abertura dialogal a outras religiões.

No âmbito da renovação da vida comunitária, do mesmo modo, as diretrizes insistem em formar rede de comunidades capazes de fomentar a participação e provocar a experiência de Jesus Cristo.  A relação de Jesus com os discípulos suscitava em todos o desejo de envolver-se e participar, de modo corresponsável, da missão. Jesus os educa, orienta, encanta, confia e envia em missão. Os evangelhos mostram que Jesus formava a identidade religiosa dos discípulos numa caminhada que apostava na liberdade e na autonomia de cada sujeito. O Mestre não permitia a construção de muros quando a tentação batia na porta dos discípulos.  Os evangelhos descrevem a postura de abertura e de diálogo de Jesus. Mostram inclusive situações concretas em que muitos decidiam não mais segui-lo.  A adesão somente pode ser livre. Por isso mesmo a dimensão ecumênica e dialogal não pode ficar de fora, já que a boa nova do Reino deve ser anunciada a todos.

Em relação à inserção social, as diretrizes assumem com clareza a opção pelos pobres e excluídos como testemunho profético de fé, assumida na perspectiva ecumênica e do diálogo inter-religioso.  Somente assim, faz-se possível chegar a todos o amor gratuito e salvífico de Deus. Jesus assume a prática da justiça, da acolhida misericordiosa e do amor fraternal ao próximo, como critérios concretos para situar as pessoas no horizonte do Reino. Nesse sentido, na inserção social da vida cristã, importa fundamentalmente menos a adesão a confissões e doutrinas religiosas que a promoção da justiça inclusiva e da dignidade da vida. Avançar na dimensão ecumênica e do diálogo inter-religioso significa concretizar a acolhida da família humana. Ao qualificar a presença e atuação nos meios de comunicação, a sensibilidade ecumênica e de abertura ao diálogo inter-religioso fará diferença.

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