Aproxima-se o dia da consciência negra, momento de reafirmação da resistência – como aquela de Zumbi dos Palmares – contra toda forma de opressão, racismo, exclusão; atitudes não queridas pelo Deus da Vida, que nos criou a todos com a mesma dignidade, a sua imagem e semelhança. Como cristãos é nossa missão enfrentar quaisquer situações que firam essa dignidade.

Tânia Jordão

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Por Pe. Ari Antônio dos Reis

O título que nomina este pequeno artigo diz um pouco da forma como os afro-brasileiros compreendem as duas “comemorações” sugeridas no calendário cívico brasileiro. As duas datas são importantes pela referência histórica e simbólica que sugerem. Contudo elas têm recebido acentos diferenciados por parte dos afro-brasileiros, especialmente o movimento negro.

A primeira é considerada um marco no que se refere à superação da escravidão legal no Brasil. A lei Áurea foi assinada, em 13 de maio de 1888, em complemento a outras leis que já coibiam a estrutura escravagista da economia brasileira. Considera-se este marco como fruto da pressão do movimento abolicionista. Contudo, assim como as outras leis pretéritas, a sua assinatura não sugeriu outros processos que poderiam ajudar na inserção social e econômica da população negra ou a reparação pela violência sofrida ao longo dos quase três séculos de escravidão.

A denúncia deste lapso, considerado uma dívida social, é uma das pautas do movimento negro hodierno, que além da reparação, cobra um enfrentamento mais decisivo das tantas situações de racismo, injúria e discriminação racial presentes no nosso cotidiano. Estas são consequências das justificativas da escravidão elaboradas ao longo do processo escravagista e que, no decorrer do tempo, embasaram um viés racista e discriminador de parte da população brasileira. Compreende-se hoje porque muitos brasileiros ainda pensam que a pigmentação da pele ou a origem cultural interfere em maior ou menor dignidade humana. Chega a tal ponto que o protesto ou uma ação contra tais atitudes é configurado como “coitadismo exacerbado”. Os negros são vítimas do racismo e da discriminação e são cobrados quando reagem contra tais atitudes. É algo muito próximo ao fenômeno da culpabilização da vítima. A pessoa é desrespeitada na sua dignidade por uma sociedade ainda racista e discriminadora e é culpada por reagir a este desrespeito.

Cabe lembrarmos que tais atitudes são contrárias à fé cristã. Para os cristãos, a criação divina confere igual dignidade a todas as pessoas, porque foram criadas à imagem e semelhança de Deus. (Gn 1,26). Enfrentar situações que ferem a dignidade humana conferida no nascimento é missão de todos os cristãos e pessoas de boa vontade.

A Lei Áurea, por não desencadear processos de inserção social dos negros e de reparação dos danos da escravidão, foi uma iniciativa incompleta. Neste sentido, assinala-se a data de 13 de maio como um fato histórico em que a memória acentua a necessidade de lutar pelos direitos da população afro-brasileira do que algo a ser celebrado efetivamente.

A segunda data, 20 de novembro, tem um perfil celebrativo pela evocação da memória de Zumbi, liderança do Quilombo dos Palmares e referência para os negros na luta contra a escravidão. À luta de Zumbi se acresce a luta de todos os que no passado enfrentaram a escravidão, e suas justificativas, através de diferentes iniciativas na esfera religiosa, cultural ou social. Esta militância é continuada nos nossos dias por diferentes organizações do povo negro. Tanto que a data de 20 de novembro é comemorada pela pluralidade do movimento negro enquanto memória, louvor e agradecimento pelas conquistas em prol da vida digna do povo negro.

O dia da consciência negra segundo a compreensão de que a cultura afro-brasileira é graça, valor e riqueza e não uma condição a ser negada ou ser assumida de forma tímida ou envergonhada. Contudo, também lembra que existe ainda um longo caminho a percorrer. Este caminho é continuidade da luta de Zumbi, de João Candido, Anastácia, Dandara, Santa Bakhita, Nhá Chica, e de tantos outros negros e negras, conhecidos e anônimos, que legaram para a história uma vida de compromisso com a vida digna da sua gente e de tantos outros excluídos da sociedade.

Em fidelidade ao legado destas pessoas celebra-se o dia da consciência negra, mas reafirma-se o compromisso de luta e resistência. A situação de pobreza e miséria de boa parte dos afros brasileiros, somada aos tantos casos de racismo, preconceito e discriminação, dizem que é preciso caminhar. A realidade de uma vida digna, justa e feliz para os afro-brasileiros ainda está na frente isto e anima todos a celebrar o 20 novembro no compromisso de completar o processo inacabado iniciado em 13 de maio de 1888.

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