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“Antes do missionário chega o Espírito”, essas são as palavras que ecoaram em minha mente e espírito enquanto lia o relato da experiência pastoral da Paróquia Nossa Senhora do Morro. Realmente, uma experiência inspiradora. Sentimos o desejo de conhecer essa comunidade, pois sabemos que a experiência deste povo de Deus ali situado transcende as linhas da descrição.

Em primeiro lugar quero parabenizar a Igreja católica que, ouvindo o “grito dos crucificados”, decidiu subir o Morro. Verdadeira obra do Espírito de Deus, pois sinto que há uma perfeita sintonia com o Espírito que move a Igreja Católica nos últimos anos, encarnado no pontificado de Francisco. Afinal, ele conclama a Igreja a sair às “periferias existenciais”. O que não poderia ser diferente, porque o pontífice representa, resgata e atualiza a tradição libertadora da América Latina, que originou a Teologia da Libertação.

Enquanto mulher negra e pastora protestante gostaria de fazer três observações.  A primeira é sobre o sujeito eclesial. Apesar de perceber inúmeras pastorais ligadas à questão afro, não há no relato qualquer menção à Missa. Não é possível perceber se houve ou há um processo de inculturação da liturgia. Para a comunidade negra em “diáspora” a sacramentalização do rito se constitui em um obstáculo para uma recepção do Evangelho. Muitas vezes, acontece uma espécie de cooptação, se insere cuidadosamente símbolos da cultura afro: usa-se uma estola sacerdotal étnica ou algum instrumento musical que  possa se adequar à “tradicional” liturgia. Mas, não se inicia um verdadeiro processo de inculturação, porque o povo negro não é sujeito no culto. Se houver a inculturação -onde a comunidade negra seja sujeito -, nascerá uma Igreja com rosto próprio, a saber: um rosto negro.

Outra questão que percebo no relato é a “tensão” com os movimentos pentecostais e neopentecostais no Morro. Esta tensão não é exclusividade do Morro. Todas as Igrejas históricas são desafiadas com o grande movimento “carismático” da atualidade. No catolicismo parece que a influência deste movimento se concretiza da Renovação Carismática. O pluralismo é muito salutar quando assumido como um pressuposto e não como um obstáculo. O Morro é sincrético, isso é maravilhoso. Apesar dos séculos de oposição entre catolicismo e protestantismo que originou a “cultura de rivalidade”,  hoje as fronteiras entre um e outro estão sendo derretidas pelo “fogo” do espírito plural. Certamente há coisas que os pentecostais podem ensinar, evidente que não são teológicas, por ser esta sua maior carência. Mas, parece que eles respondem melhor à necessidade, sobretudo do povo negro, de uma experiência na qual a libertação do corpo torna-se imprescindível no ato de culto. Ou seja, como citado acima, àquela necessidade de inculturar a liturgia. Por outro lado, a comunidade católica pode enriquecer a experiência dos pentecostais, sobretudo na área teológica, ajudando-os a refletir teologicamente sobre sua experiência. Conheço os dois lados da fronteira: afirmo que se houver aproximação todos ganharão. E a melhor maneira de aproximar pessoas é fazer coisas juntas: comer juntos, rezar/orar juntos, um projeto em comum… Além de uma abertura ecumênica, ou seja, diálogo com outras igrejas cristãs se faz necessário e urgente dialogar com as demais religiões, sobretudo as religiões de matriz africana. Sem a abertura às religiões de matriz africana não existe verdadeira inculturação do Evangelho por parte da comunidade negra. Eis aqui um erro histórico que precisamos corrigir.

A última questão é de ordem política. Como o relato aponta, esta é uma comunidade que vive em constante ameaça, um futuro incerto, até mesmo temerário. Por outro lado, percebe-se que este é um povo que tem um espírito de resistência e que nunca foi passível diante das adversidades. Mas, nestes tempos novos, quando estamos vivendo certa crise de militantismo e da representação partidária, somos desafiados a outro tipo de atuação política. Com o enfraquecimento das políticas partidárias, as pessoas estão se organizando em torno de projetos comuns específicos.  Organizar-se em torno de um projeto comum tem sido a forma política mais eficaz de fazer valer os direitos de minorias, sejam étnicas, sexuais, sociais….E neste caso, parece ser um bom motivo para unir pentecostais, católicos, protestantes históricos e outras religiões na luta política para assegurar o direito à moradia e também preservação de toda a comunidade em detrimento da “gentrificação”.

(A autora é pastora na Igreja Presbiteriana Independente Doutoranda em Teologia Prática/Pastoral com enfoque na Evangelização, na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia – FAJE. Ela faz parte da equipe de colaboradores do Observatório da Evangelização)

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