Evangelizar implica trabalhar as diversas dimensões da vida humana. Entre estas merece destaque, pelo esquecimento e urgência, a dimensão telúrica. Por telúrico compreende-se o que é relativo à Terra ou o que pertence intrinsecamente a ela. Portanto, trata-se de pensar a evangelização como também espaço de alfabetização ecológica, de ensino-aprendizado do bem viver e da arte de cuidar da sensibilidade ecológica a fim de despertar, em nossa relação com o planeta Terra, admiração, encantamento, contemplação e desejo de respeito e cuidado para com a obra da criação.

Para começar, recomendamos deixar-se provocar pelo eu poético de Paulo Gabriel:

TELÚRICO

Paulo Gabriel

Sangue-de-boi
Sangue-de-boi

Eu peco de luxúrias, confesso
O sangue-boi bicando na peruana me delira
E se vejo uma garça irresistível
A beber com seus olhos o Araguaia e seu infinito
Eu estremeço.

Faminto de beleza eu ando
Como andam famintas de Deus
As virgens no outono.

Ipê florido
Ipê florido

Erótica
Minha alma suga o mel nos ipês do Bananal
Quando em agosto eles se vestem para o amor lá no horizonte.

Compulsivo
Eu quero tocar o corpo da terra
E seu mistério.

 

Meu desejo escorre nu

Pôr do sol do Araguaia
Pôr do sol do Araguaia

Sem leito e sem cadarços
Lâmina viva na palavra ardente
Feito cabelo de cigana ao vento.

Não, não quero o fim da luz nas tardes tropicais
Nem a morte e seu mormaço eu quero.

Floresta de Buriti
Floresta de Buriti

Amo a vida em estado bruto:
o verde sem farda do buriti no brejo
o beijo obsceno dos cachorros guiados apenas pelo instinto
o vestido esvoaçante do beija-flor sem corpo
o café e seu aroma quando amanhece o dia
a brasa e seu calor.

Eu peco de luxúrias, confesso
E se navego para o mais fundo do meu ser
Lá onde o inconsciente explode sem disfarces
Ouço Deus e seu grito:
Peca mais e peca sempre!

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