cartaz_cf2015_medio_pk

A Campanha da Fraternidade (CF) consolidou-se como uma importante estratégia na ação evangelizadora da Igreja Católica, e também de outras Igrejas cristãs que compartilham o horizonte ecumênico.  Desde seu nascimento, ajuda no desenvolvimento e vivência do espírito quaresmal de conversão, de renovação interior e de ação comunitária. Revela-se como um excelente meio de evangelização capaz de promover a penitência que agrada a Deus: repartir o pão, vestir o maltrapilho, libertar os cativos, restaurar a dignidade do oprimido e promover a sociedade justa e fraterna. Cria ricas oportunidades de evangelização libertadora, pois favorece inúmeros processos de renovação na vida da Igreja e, ao mesmo tempo, promove significativos apelos de transformação na sociedade.

Ao longo de sua história, a CF favoreceu o crescimento de “um outro olhar possível” para a vida interna da Igreja e sua relação com a sociedade. Proporcionou perceptível aumento da consciência em relação às situações de injustiça, exclusão e miséria. Ajudou no processo de formação para que cristãos e outras pessoas de boa vontade percebessem a importância de reflexão crítica e de ações transformadoras urgentes em determinados aspectos da realidade socioeconômica e política brasileira. Além disso, ajudou a suscitar pertinentes reflexões sobre situações existenciais do povo brasileiro. Situações geradoras de sofrimento e morte, tais como problemas relativos a: fome, terra, criança, negro, mulher, trabalho, juventude, família, educação(…), tráfico humano. O caminho percorrido demonstra que a Igreja Católica tem buscado, cada vez com maior clareza, concretizar a sua missão de anunciar Jesus Cristo, de forma compromissada com a caminhada histórica do povo brasileiro, com a busca de superação de situações de injustiça social e em vista da construção de uma sociedade justa, humana e solidária.

Com o objetivo de persistir nesse caminho, a CF2015 propõe como reflexão, meditação, oração e ação, o tema: “Fraternidade: Igreja e Sociedade”, e como lema: “Eu vim para servir” (Mc10, 45). A campanha visa ajudar-nos a “aprofundar, à luz do Evangelho, o diálogo e a colaboração entre Igreja e Sociedade, propostos pelo Concilio Vaticano II, como serviço ao povo brasileiro, para a edificação do Reino de Deus” (Objetivo geral da CF 2015).

250d933679e647eb_oA vitalidade de uma sociedade, formada por pessoas, está fundada no cultivo do pacto social e na garantia da cidadania com igual dignidade entre todos e todas. Ela é uma realidade viva, chamada a se transformar permanentemente na busca de existir, persistir, e guiar-se por valores fundamentais, tais como, a justiça, a fraternidade, a solidariedade e a paz.

Segundo o Concílio Vaticano II, a Igreja é convocada a discernir os sinais do advento do Reino de Deus e, como Povo de Deus que caminha, anunciar e testemunhar essa Boa Nova ao mundo. Reino este manifestado aos homens, de forma singular e inédita, através de ensinamentos, obras e presença de Cristo (Cf. LG, n°3). As pessoas que tem o seu olhar voltado para Jesus Cristo, autor da Salvação, vivem em e na sociedade. Elas são chamadas, juntamente com outras,  como cristãs e inseridas no contexto da vida social, a viver e levar seus valores e compromissos, participando da construção de uma sociedade justa, fraterna e de paz.

O Papa Francisco nos convoca a sermos uma Igreja em saída capaz de comunicar a tantos e tantas a força, a luz, e a consolação da amizade de Jesus Cristo, uma Igreja acolhedora e do diálogo:

prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e comodidade de se agarrar às próprias seguranças. Não quero uma Igreja preocupada com ser o centro, e que acaba presa num emaranhado de obsessões e procedimentos. Se alguma coisa nos deve santamente inquietar e preocupar a nossa consciência é que haja tantos irmãos que vivem sem a força, a luz e a consolação da amizade de Jesus Cristo, sem uma comunidade de fé que os acolha, sem um horizonte de sentido e de vida. Mais do que o temor de falhar, espero que nos mova o medo de nos encerrarmos nas estruturas que nos dão uma falsa proteção, nas normas que nos transformam em juízes implacáveis, nos hábitos em que nos sentimos tranquilos, enquanto lá fora há uma multidão faminta, e Jesus repete-nos sem cessar: “dai-lhes vós mesmos de comer” (Mc 6, 37) (Evangelli Gaudium, n°49).

A tarefa de toda a Igreja, dos cristãos em geral, pelo diálogo e pela caridade, é cuidar das pessoas a fim de que não sejam excluídas da sociedade. Pela participação ativa na vida social através de discussões, proposições, engajamentos, lutas etc., tudo se deve fazer e empenhar em vista do bem comum.

Assim, a CF-2015 oferece uma preciosa oportunidade de, visto que estaremos celebrando os 50 anos do término do Concílio Vaticano II, retomar as significativas contribuições deste concílio que nos desafiou e desafia, a sermos uma igreja atuante, participativa, consoladora, misericordiosa e samaritana. Nesse contexto, somos chamados a transformar, enquanto Igreja e cidadãos, estruturas, normas, organizações eclesiais e sociais em vista a concretizar a condição de filhos/as de Deus portadores de igual dignidade, a partir do exemplo daquele que primeiro colocou-se como servidor da humanidade anunciando e testemunhando a chegada do Reino de Deus.

Como Jesus que se colocou a servir e ajoelhou-se para lavar os pés dos seus big_509e3c6fdb75103456fe2cf1e119efb2discípulos, a comunidade dos seus seguidores (a Igreja) é chamada a ir ao encontro de todas as pessoas acolhendo-as, como diz o Papa, “em suas periferias existenciais”, em suas dores e sofrimentos. Com palavras, gestos e obras, a comunidade de fé é convidada a acolher a vida das pessoas com todas as experiências que carregam, tocando a carne mesma do Cristo sofredor e possibilitando a Ressurreição das mesmas através do anúncio, do testemunho, da caridade, do serviço. Além disso, é chamada a criticamente entender a complexa realidade social e comprometer-se com a sua transformação rumo a “outra sociedade possível”.

Joel Maria dos Santos

P/ equipe executiva do Observatório da Evangelização

Anúncios