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Acho muito importante registrar que o problema do Aglomerado da Serra não é principalmente a pobreza ou a miséria, mas a exclusão. Isso é comprovado pelas visitas no interior de muitas casas e pelo visível crescimento do número de motos e carros entre moradores do aglomerado. Exclusão quer dizer, sobretudo, que muitas leis do país não se aplicam ali prejudicando ou, em alguns casos, ajudando os moradores.

Essa exclusão tinha repercussões (provavelmente inconscientes) também na nossa Igreja. Em muitos casos, os católicos do Aglomerado não recebiam o mesmo tratamento que os outros paroquianos.

Existem mais de 150 “projetos” sociais no Aglomerado. Certamente eles favorecem a promoção e a saída da exclusão de alguns moradores, mas nunca acabam com a exclusão global que sempre se reproduz.

Criar uma paróquia na favela, com certeza, foi uma boa iniciativa: pouco a pouco, os católicos se sentem igualmente membros da nossa Igreja.

A vida política de BH, com a chegada da esquerda no poder, esvaziou as associações de defesa dos moradores. No Aglomerado, elas despareceram para dar espaço aos “líderes comunitários” que ajudam a solucionar alguns problemas individuais e coletivos, mas trabalham antes de tudo como cabos eleitorais remunerados e por isso mais preocupados em conservar seus empregos que em favorecer as lutas populares coletivas.

Quando a Paróquia Bem Aventurada Dulce dos Pobres foi criada, quase nenhum dos seus membros era identificado pelos poderes públicos como participante de movimentos ou de lutas populares.

Ora, nossa igreja de Belo Horizonte não tem dado a devida atenção à realidade social do trabalho. Há na diocese um trabalho com a Economia Social Solidária, que vem do tempo do ex-presidente Fernando Henrique. Não há mais essa nomenclatura, mas permanece esse nome na arquidiocese. Por outro lado, em 34 anos na diocese, nunca vi um seminarista orientado para a Pastoral Operária, dentre os diocesanos. E não há um só bispo para acompanhar a P.O. em toda Minas Gerais.

Podemos dizer que, até a chegada do Pe Orlando e o início da “rede de comunidades”, os problemas do Aglomerado não entravam nas preocupações das equipes de liturgia (quando elas existiam!).

As dificuldades não faltam:

  • A geografia do lugar: pouca distância entre as comunidades, mas muitas subidas e descidas!
  • O transporte coletivo deficiente: muitas vezes, andar a pé é mais rápido. Isso dificulta a participação especialmente dos idosos.
  • A formação bíblica deficiente, levando a uma leitura fundamentalista.
  • A influência dos meios de comunicação e dos documentos católicos nacionais ou diocesanos, que hoje ligam pouco a fé e a vida com ausência total da questão do trabalho, que era a prioridade das prioridades da CNBB em 1988!
  • As mudanças constantes de padres e seminaristas para acompanhar e dialogar com o Pe Wagner, sobrecarregado já na Paróquia e agora com outras tarefas (estudos, VEASP, forania etc).
  • É muito difícil encontrar catequistas formadas para uma “catequese renovada”. A mentalidade dominante é “catequese para preparar a 1ª comunhão”.

Ao mesmo tempo há bastantes potencialidades:

  • A “prática” dominical é, sem dúvida, uma das mais importantes entre as vilas de BH.
  • Todas as comunidades têm um Conselho Pastoral mensal com a participação de um padre, o que é uma exceção raríssima entre as 1500 comunidades da diocese de BH.
  • Com paciência, todas as comunidades chegam agora a ter ao menos um círculo bíblico com um acompanhamento.
  • Pouco a pouco desaparece entre os católicos o medo da incompetência ou de misturar o “joio e o trigo” ao entrar nas lutas e atividades do Aglomerado: criação de um “Grupo de Referência” para dialogar com o poder público, comissões de saúde, participação nas academias dos CRAS ou de ruas, etc.

Padre François Marie Lewden, há 34 anos a serviço da Arquidiocese de Belo Horizonte, atua no Aglomerado da Serra desde antes da criação da Paróquia Dulce dos Pobres.

 

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