Defender a vida ameaçada e colocar-se ao lado dos excluídos promovendo a sua igual dignidade. No Brasil, os povos indígenas estão entre os mais ameaços e sofrem diversas formas de exclusão sociopolítica, econômica, cultural e religiosa.

“O esquecimento das línguas já não acontece mais pelo extermínio dos povos, mas por uma imposição cultural. É como se você fosse obrigado a desistir de si, da sua história.” Niminon Suzel Pinheiro, historiadora e especialista em tribos indígenas.

ÍNDIOS LUTAM PARA SALVAR DUAS LÍNGUAS DA EXTINÇÃO NO INTERIOR

ndio “Ithók rerre nógam”. As três palavras da língua crenaque poderiam ser traduzidas para: “A língua ainda resiste”. Na tribo Vanuíre, em Arco-Íris, no oeste paulista, 200 índios de duas etnias tentam manter a tradição viva. Por lá, os idiomas kaingang e crenaque estão em processo avançado de extinção. Em toda a tribo, apenas três índios idosos são falantes fluentes dos dialetos. Agora, os esforços se concentram para que as crianças voltem a falá-los.

Em 1500, especialistas estimam que havia 1.175 línguas no País. Hoje, são cerca de 180 dialetos vivos, mas todos em risco de extinção, segundo a Unesco. “A grande maioria das línguas desapareceu com a própria população falante, principalmente por causa dos conflitos por terra”, diz o professor Wilmar D’Angelis, doutor em Linguística pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Juvelina Krenak, de 110 anos, é a única índia que fala fluentemente o grupo linguístico macro-jê, dos indígenas boruns. Naturais do norte de Minas, são popularmente conhecidos como krenaks. Eles habitavam uma região rica em ouro e, após conflitos com garimpeiros, deixaram a área. Em 1940, o Serviço de Proteção ao Índio (SIP), atual Funai, enviou parte da população para São Paulo.

Os krenaks se tornaram maioria em Vanuíre – são cerca de 140 índios – e dividem o dia a dia na tribo com os kaingangs, que foram os primeiros a habitar a região, em 1919. Eram mais de 4 mil e hoje não passam de 20 representantes e apenas Ênia Kaingang, de 82 anos, e Dirce Kaingang, de 80, mantêm a língua da etnia viva.

Silêncio. Embora fluente, o trio preferiu deixar os idiomas em silêncio. Por anos, tiveram medo de repassá-los às novas gerações. “Isso foi provocado por uma política de Estado. O SPI proibia as populações de falarem suas línguas. A coerção era a principal arma. Os índios chegavam a ser presos se ousassem se comunicar na língua materna”, conta o arqueólogo Robson Rodrigues.

Lia Krenak, de 58 anos, é filha de Juvelina e, na infância, via os pais viverem com o medo de ensinar a cultura indígena. “Eles (os brancos) nos obrigaram a usar roupa na aldeia, não podíamos fazer pratos típicos. Meus pais não falavam crenaque perto da gente para a gente não aprender”, afirma. “É triste ver a história se perder.”

indio2Quem chega à tribo Vanuíre não vê mais ocas. A aldeia é uma vila, com casas com energia elétrica, internet e televisão. Carros e motocicletas chegam a formar um trânsito contínuo pelas ruas de chão batido. A igreja católica deu lugar aos cultos evangélicos na capela construída em 2012.

“O esquecimento das línguas já não acontece mais pelo extermínio dos povos, mas por uma imposição cultural. É como se você fosse obrigado a desistir de si, da sua história”, diz Niminon Suzel Pinheiro, historiadora e especialista em tribos indígenas da Unip.

No centro da aldeia está a escola, construída em 2005. Para krenaks e kaingangs, simboliza a recuperação do tempo e da cultura perdidos. Cinquenta alunos frequentam a instituição, que tem um currículo próprio, adaptado para os índios.

Lidiane Krenak, de 27 anos, foi estudar Letras fora da tribo, mas foi dentro dela que buscou o conhecimento necessário para não ver o idioma morrer. “Fizemos um trabalho de convencimento com os índios mais velhos, para eles repassarem a língua, que é ensinada na sala de aula. Só eles poderiam transformar o medo do passado em esperança”, diz.

Cinco professores indígenas, acompanhados de especialistas em Linguística e da consultoria de D’Angelo, transformam os fonemas em vocábulos escritos. “É um processo que demora pelo menos 20 anos para dar frutos. Para nossa surpresa, já vemos as crianças entendendo o que os mais velhos falam e arriscando algumas palavras. É uma sobrevida que as duas línguas ganharam”, comemora D’Angelo.

Pequena amostra de glossário:

Crenaque Kaingang
ambim: noitearerré: bonito

areré ambimbim: bom dia

bacanã: passarinho

chtom: árvore

curré: jacaré

thé pú: eu vou chorar

irminham iapé: vamos beber água

thé minha pranmo: eu estou com sede

akanené: acabar
a íx: nós
ajoro: anta
brene: cinza
ka: árvore
kaél: papagaio
kanhére: macaco
de: animal
dó: flecha
ején: comida
oa: olá
langen dó kaxa: meio-dia
nha: dente
nhá: mãe

Obs.: Esta reportagem de Edgar Maciel, publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 14-03-2015, foi publicada no portal do IHU:

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/540885-indios-lutam-para-salvar-2-linguas-da-extincao-no-interior

 

Anúncios