Na Eucaristia, que significa ação de graças a Deus, celebra-se o mistério central da fé cristã católica: Deus enviou seu Filho amado ao mundo para revelar o seu amor universal à humanidade e Jesus, o Filho fiel, fortalecido e guiado pela força do Espírito Santo, concretizou com fidelidade profética até as últimas consequências, um caminho de salvação.  Este caminho além de nos irmanar no amor fraterno e prática da justiça, nos envolve e nos compromete numa lógica de amar e servir cultivada na vida em comunidade que seja fermento de nova sociedade.

Jesus, na última ceia, depois de lavar os pés de seus discípulos, na véspera de sua paixão-morte-ressurreição, sintetizou, num gesto simbólico, o sentido maior que deu à sua vida: entregou-se com fidelidade ao Reino e fez de sua vida serviço ao povo de Deus a partir dos mais pobres. Após a sua morte, Jesus foi ressuscitado pelo Pai, fazendo da vida fiel de Jesus caminho de salvação. A vida de Jesus, para a fé cristã, é caminho, verdade e vida.

 

Um pouco de história da festa de Corpus Christi

Tapete de Corpus Christi 002
Tapete para a festa de Corpus Christi

A festa de Corpus Christi, tradicionalmente, tem como objetivo maior dar testemunho público da fé e da devoção católica em adorar o Corpo de Cristo presente na hóstia consagrada. Segundo antiga tradição, a festa de Corpus Christi teve origem no ano de 1243, em Liège, na Bélgica, no século XIII, quando uma freira, Ir. Juliana de Cornion, teve visões nas quais o próprio Jesus Cristo pede que o mistério celebrado na Eucaristia tivesse maior destaque e reconhecimento público. Ela partilha suas experiências espirituais com aquele que, mais tarde, viria se tornar o papa Urbano IV. Este, no ano de 1264, decide instituir esta festa litúrgica para toda a Igreja.

Procissão de Corpus Christi
Procissão de Corpus Christi

O Papa pediu, então, que Tomás de Aquino preparasse textos litúrgicos específicos para esta data. A procissão com a hóstia consagrada, como um cortejo público de ação de graças a Deus, teve início no ano de 1274.

No Brasil, como em Portugal, tornou-se popular a tradição de enfeitar as ruas com lindos tapetes com imagens e símbolos religiosos. Na liturgia, a celebração de Corpus Christi inclui missa, procissão e adoração ao Santíssimo Sacramento.

Tapete para a festa de Corpus Christi
Confecção dos tapetes com símbolos cristãos para a festa de Corpus Christi

O contexto cultural de insensibilidade ecumênica e de pouca atenção à necessidade de diálogo inter-religioso favoreceu deturpações e muitos conflitos religiosos. A festa de Corpus Christi, em muitos lugares, tornou-se mais que uma celebração da liturgia cristã católica. Passou a ser encarada ou utilizada, por muitos, como momento oportuno para explicitar, publicamente, a supremacia do catolicismo, em relação às outras Igrejas cristãs, bem como às outras tradições religiosas.

 

Outra compreensão se faz necessária a partir dos sinais dos tempos

Hoje somos chamados a agir na Igreja e na sociedade, com a consciência de ser o Corpo de Cristo, de outra maneira. Somos interpelados pela vida de Jesus a testemunhar o amor universal de Deus e o amor fraterno entre nós. Pelo diálogo fraterno, somos chamados a cuidar da casa comum e defender, irmanando-se nas lutas dos movimentos populares, a igual dignidade de todos os filhos e filhas de Deus. O amor de Deus nos irmana e nos compromete com a unidade da família de Deus: a humanidade. Para o cristão não há fronteiras culturais ou religiosas, pois, pela vida de Jesus, todo ser humano, independente de qualquer critério, é acolhido como filho amado de Deus. Ser cristão é um compromisso de testemunhar a boa notícia da universalidade do amor de Deus desde os mais pobres.

Grito dos excluídos - 2014
Caminhada ecumênica de 7 de setembro – Grito dos excluídos organizado pelas Igrejas cristãs em defesa da dignidade da vida – 2014

Aconteceram muitas mudanças culturais em nosso meio que se tornaram sinais dos tempos. Dentre outras, merecem destaque:

  • o crescimento da consciência planetária e de que vivemos numa espécie de “aldeia global”;
  • com as novas tecnologias de transporte e comunicação passamos a reconhecer a beleza do pluralismo cultural e religioso;
  • em muitos países o Estado se tornou laico e democrático, defensor da liberdade de crença e de culto;
  • em vista da paz entre os povos e pessoas, cresceu a consciência da importância de desenvolvermos e cultivarmos o espírito ecumênico entre as Igrejas cristãs e as posturas de diálogo inter-religioso, diante, sobretudo, da conquista da legitimidade cultural da diversidade religiosa.

 

Tais mudanças exigem outras posturas religiosas. A Igreja Católica, há 50 anos, no Concílio Vaticano II reconheceu essas mudanças culturais e legitimou, internamente, para os cristãos católicos, a necessidade de assumir o espírito ecumênico com as Igrejas cristãs e posturas dialógicas para com as outras tradições religiosas. Os primeiros passos já foram dados, mas ainda temos muito que aprender.

Mutirão pela moradia para todos!
Mutirão ecumênico por moradia para todos!

 

Corpus Christi – como todas as festas valorizadas pelo cristianismo católico, tais como Natal, Semana Santa, Páscoa, Pentecostes, festividades de Nossa Senhora e todos os santos e santas da devoção popular – é chamada a deixar-se fecundar pelos sinais dos tempos. Em toda ação evangelizadora da Igreja, por fidelidade a Jesus Cristo e a tradição apostólica, não deve conter qualquer espírito apologético agressivo ou mentalidade religiocêntrica arrogante defensora de violência religiosa em nome de Deus. Importa dizer não a qualquer compreensão de guerra santa!

Mutirão pelos desabrigados
Mutirão pelos desabrigados promovido por iniciativa da Caritas

 

A festa de Corpus Christi, balizada pelos valores do Evangelho do Reino, tem como objetivo favorecer, aos fiéis, oportunidades criativas de encontro com o Senhor Jesus, crescimento na vida cristã, aprofundamento da identidade cristã católica sem qualquer pretensão de agredir ou diminuir outras igrejas cristãs ou tradições religiosas.

O fundamento bíblico deve prevalecer na ação evangelizadora: cada cristão, enquanto seguidor de Jesus e alguém que se alimenta da vida do Mestre, é chamado pelo batismo a concretizar em suas ações, no contexto em que vive, a vontade de Deus. Ele se nutre da memória dos feitos de Jesus para, juntamente com seus irmãos e irmãs de fé, agir a atuar na Igreja e na sociedade em vista do bem comum, com a consciência de ser o Corpo de Cristo.

Prof. Edward Guimarães

Teólogo leigo e secretario executivo do Observatório da Evangelização

 

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