Certamente Jesus aprendeu, como todos os demais judeus, a rezar todas as manhãs: “Bendito és Tu, Adonai, nosso Deus, Rei do Universo, que não me fizeste mulher”. As judias também recitam a bênção matinal, na qual se encontra essa expressão, mas substituem a parte destacada por: “que me fizeste conforme a Tua vontade”. Ser criado em uma cultura machista, excludente, não fez de Jesus um homem assim. Ao contrário, Jesus incluiu publicamente as mulheres entre as suas discípulas e as reintegrou de muitas formas à sociedade, devolvendo-lhes a dignidade que lhes havia sido usurpada pela cultura opressora em que vivia.

http://1.bp.blogspot.com
Jesus de Nazaré não foi indiferente à situação dessa mulher. E nós cristãos?

Dois mil anos depois, e o que vemos? Aqui, entre nós, o machismo se perpetua a tal ponto que leva meninas a deixarem de frequentar a escola, envergonhadas, e várias chegam a tentar o suicídio após terem sido expostas em listas nas redes sociais, escolas e vizinhança como “vadias”.

Jesus se posicionou claramente contra toda opressão e injustiça, inclusive no que diz respeito às mulheres. Nós, que nos dizemos cristãos, seguiremos perpetuando essa cultura excludente? Há quem diga que o machismo já não existe mais, ao menos mulheres não são mais condenadas à morte por questão de gênero e mesmo a lei do feminicídio veio fora de hora. Se assim é, porque então seguem ocorrendo dia a dia questões como as que são apresentadas abaixo no texto-denúncia de Jarid Arraes?

jesus_prostituee copy
Jesus ergueu a mulher, acolheu-a e restaurou a dignidade dela! E nós cristãos, o que estamos fazendo?

A sexualidade tem dois pesos diferentes para homens e mulheres. Esse não é um fenômeno recente, mas se perpetua baseado na lógica misógina que objetifica a mulher. No último dia 27, uma matéria do R7 exibiu a situação terrível que as meninas da periferia de São Paulo estão vivendo: em listas chamadas de “TOP 10″ , meninas consideradas “vadias” são expostas nas escolas, nas redes sociais e até nas vizinhanças. Várias meninas deixaram de frequentar as aulas e já houve pelo menos 12 tentativas de suicídio. Embora existam também listas para os garotos, aqueles que entram são considerados “campeões” ou “pegadores”, enquanto as meninas são vistas como “vadias” e “putas”.

Casos como o das listas “TOP 10″ denotam que muitos homens não gostam de sexo, mas sim de humilhar e violentar mulheres. O prazer de muitos deles não está em dividir um ato sexual com uma mulher que considerem atraente, mas sim em dominá-la e exibi-la como uma coisa que não merece respeito.

Isso não se trata de uma questão individual; nossa cultura ensina o tempo inteiro aos homens que eles devem agir dessa forma, humilhando e objetificando as mulheres. Esse ensinamento está nas músicas, nos filmes, na programação da televisão e até mesmo na igreja. Sempre que um garoto escuta que mulheres que fazem sexo são “fáceis” ou “vadias”, sempre que um menino liga a televisão e vê mulheres reduzidas ao papel de corpos para exibição, ele aprende que o seu lugar é o de predador e explorador do corpo feminino.

Por isso, quando adultos, esses são os mesmos homens que publicam fotos íntimas das mulheres com quem transaram – e, ao fazerem isso, eles estão apenas seguindo o roteiro aceito pela sociedade. Afinal, esses homens acreditam que precisam exibir suas “conquistas”, mostrar que são homens que “comem” mulheres e dominam as “vadias”. Mas isso vai além: em muitos casos, o homem não quer apenas propagar o seu feito, mas também marcar a mulher para que ela não “sirva” a nenhum outro. Com a reputação destruída e sendo ele o responsável por essa destruição, a mulher é finalmente punida e ele vira o herói dos seus amigos. É alarmante que um ato tão doentio seja visto como natural e socialmente aceitável.

Essa realidade não é um mero “generalismo feminista”, mas sim uma epidemia que vem provocando a morte de milhares de mulheres. Meninas como as que estão nos “TOP 10 Vadias”, mulheres que têm seus vídeos e fotos vazados e também as que são estupradas, todas elas são vítimas de um mesmo sistema que beneficia os homens, que são celebrados e não sofrem qualquer consequência moral quando têm gravações e fotos íntimas vazadas ou aparecem em listas como o “TOP 10″.

Esse problema precisa ser diretamente nomeado para que possamos enfrentá-lo. Enquanto se coloca panos quentes, as vidas de milhares de meninas e mulheres são destruídas; e enquanto os homens viram as costas para a questão e não confrontam seus amigos por suas práticas misóginas, mais mulheres continuam a ser violentadas e expostas. É mandatório que tomemos nossa responsabilidade nesse quadro – não podemos mais ser ou tolerar uma sociedade que odeia as mulheres.

http://www.revistaforum.com.br/questaodegenero/2015/05/29/listadas-como-vadias-punidas-por-serem-mulheres/

Anúncios