Em meio a celebração dos 50 anos do término do Concilio Vaticano II e da realização de um sínodo convocado pelo papa Francisco com metodologia participativa e em duas etapas, o Observatório da Evangelização evoca um tema caro ao Concílio: a estrutura sinodal da Igreja:

“Sinodalidade na Igreja: Os desafios da comunhão” em análise na revista Didaskalia

Rui Jorge Martins

Concílio Vaticano II
                        Foto histórica do  Concílio Vaticano II

A mais recente edição da revista “Didaskalia”, publicada semestralmente pela Faculdade de Teologia (Lisboa) da Universidade Católica, é dedicada ao tema “Sinodalidade na Igreja: Os desafios da comunhão”.

«O presente volume aborda, em diferentes e complementares perspetivas (bíblica, histórica, teológica e pastoral) a dimensão sinodal da sinodalidade da Igreja. Esta, como no-lo mostra a longa experiência da história, está longe de se esgotar na instituição sinodal», refere a nota de apresentação.

A sinodalidade «volta a ganhar relevância» a partir das intervenções do papa Francisco, que, «na linha do Concílio Vaticano II, tem relançado o desafio da “descentralização”, não só ao nível das relações entre o Bispo de Roma e as Igrejas locais, mas também no que concerne à participação e exercício da corresponsabilidade em cada comunidade e em toda a vida da Igreja».

No período que medeia entre o sínodo extraordinário dos bispos realizado em outubro e aquele que está previsto para o mesmo mês deste ano, no Vaticano, para debater a família, e ao mesmo tempo que também decorrem sínodos diocesanos em Portugal (como Lisboa, Viseu e Portalegre-Castelo Branco), «muitos são os desafios sobre os quais a teologia não pode deixar de refletir».

Este número, conclui o texto introdutório, pretende oferecer «linhas de aprofundamento e orientação teológico-pastorais».

No artigo “Radicalidade da vocação cristã e comunhão eclesial: interpelações das comunidades paulinas”, José Tolentino Mendonça parte da afirmação de um especialista em S. Paulo, para quem «o ex-fariseu de Tarso» ajuda-nos «a purificar o próprio conceito de cristianismo».

«Será que o pensamento de Paulo nos pode servir de guia à revisitação e à reconfiguração profética da atual morfologia cristã?», questiona o autor, que propõe quatro desafios:

1. O desafio a acolher a metamorfose como gramática do crer;

2. O desafio a edificar uma Igreja referida a Cristo, mais do que a si mesma;

3. O desafio a levar a sério a natureza comunitária da Fé;

4. O desafio a viver em estado de recomeço».

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                                         Foto do último Sínodo em outubro de 2014.

Isidro Lamelas, professor de Teologia Patrística e diretor da “Didaskalia”, analisa “A experiência sinodal na Igreja pré-nicena: o caso de África sob o episcopado de S. Cipriano“, sublinhando que as antigas comunidades cristãs tendiam «a considerar as primitivas experiências sinodais à luz do ´prestigiado modelo´ dos grandes concílios ecumênicos, projetando o modelo das magnas assembleias episcopais pós constantinianas sobre a rica e variegada vida sinodal da Igreja precedente». «Depois de nos referirmos às múltiplas expressões da sinodalidade, daremos conta dos principais momentos da sinodalidade in actu. Numa segunda parte, aproveitando da generosa documentação facultada por S. Cipriano de Cartago, daremos especial atenção ao estudo do caso das Igrejas africanas no século III».

“O Concílio Geral é infalível?” é a pergunta avançada por José Antônio de C. R. de Souza, que analisa e comenta «duas opiniões contrárias e seus fundamentos», antes de tratar «da refutação dos argumentos a favor da infalibilidade».

«Partindo da constatação de que nos últimos cinco séculos a Igreja celebrou apenas dois concílios ecumênicos», o artigo de Bernardo Bayona Aznar, “Nacimiento, letargo y renacimiento de la colegialidad en el Concilio Vaticano II”, «explica como o Concílio Vaticano II recupera a colegialidade eclesial teorizada na primeira metade do século XV». O autor examina o «renascimento da colegialidade nos teólogos conciliares K. Rahner e J. Ratzinger, bem como no texto da constituição ‘Lumen gentium’; aborda criticamente os entraves ao seu desenvolvimento durante várias décadas; e saúda o atual renascimento pela mão do papa Francisco».

Medard Kehl recorda que «a Igreja possui uma estrutura e composição hierárquica e sinodal», o que constitui «um binômio de tensão para o qual há que procurar reiteradamente o equilíbrio nem sempre fácil». O artigo “Syn-odos – O elemento estruturo-sinodal na Igreja Católica” «começa por mostrar a não equivalência estrutural entre o princípio hierárquico e o sinodal, quase sempre em detrimento da constituição sinodal que aparece, na Igreja católica, como o princípio ‘fraco’ face ao princípio ‘forte’ ou hierárquico». O texto refere-se, ainda, a «um franco avanço no sentido de um novo equilíbrio entre os dois referidos princípios» e, por fim, apresenta «propostas concretas para reforçar o elemento estrutural sinodal no seio da Igreja Católica».

«Os órgãos de participação são lugares institucionais nos quais os fiéis tomam parte nas decisões que dizem respeito ao anúncio do Evangelho», acentua, por seu turno, Alphonse Borras, no estudo “‘Votum tantum consultivum’: les limites eclésiologiques d’une formule canonique”.

“Sínodo diocesano: um serviço à missão da Igreja local” é o título do estudo de Bonifácio Bernardo, que arranca da «experiência eclesial dos Sínodos diocesanos e dos principais documentos do Magistério recente sobre o assunto» para propor «uma breve retrospetiva e avaliação breve sobre os Sínodos que em diferentes Igrejas locais em Portugal se realizaram depois do Concílio Vaticano II ou estão em curso». Assina o autor que «Os Sínodos diocesanos são um precioso serviço à missão da Igreja local que os promove, na medida em que contribuem para projetar a sua renovação e a sua ação pastoral evangelizadora e missionária. Comunhão, renovação, missão, evangelização e corresponsabilidade são, entre outras, palavras incisivas que fazem pulsar o ritmo dos Sínodos diocesanos deste período».

Em “La Costituzione Liturgica Sacrosanctum Concilium, tra risultati e prospettive dei primi cinquant’anni, Giuseppe Midili relê o referido documento conciliar com o propósito de «evidenciar o que já foi realizado e o que há ainda a empreender para os tempos futuros».

Por fim, Armindo dos Santos Vaz lembra que «na exegese e na teologia, na catequese e na pastoral, a interpretação tradicional de Gn 2,4b-3,24 parte de vários pressupostos: que essa narrativa fala de Adão e Eva, de um pecado ou de uma culpa original por eles cometida, de uma promessa de salvação, do diabo sob forma de serpente, do paraíso perdido… E liga explicitamente o pecado à criação». O artigo “Criação: o presente iluminado pelas origens” propõe «uma interpretação radicalmente nova» daquela passagem bíblica, baseando-a nos «métodos exegéticos recomendados pelo magistério eclesial», na leitura no «contexto próprio» e nas «escavações arqueológicas», concluindo que a interpretação do texto aponta para a intenção de «dar o sentido último ao presente belo e penoso – ao “bem” e ao “mal” – da vida humana», dissociando-se «totalmente da ideia de pecado».

Fonte:

http://www.snpcultura.org/sinodalidade_na_igreja_didaskalia.html

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