Foto: Site - Arquidiocese de Belo Horizonte
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Um dos maiores poetas portugueses da atualidade e membro do Conselho Pontifício para a Cultura, padre José Tolentino de Mendonça esteve na PUC Minas no último sábado, dia 20 de junho.

O sacerdote, que também é professor de Teologia e vice-reitor da Universidade Católica Portuguesa, falou sobre a evangelização nos dias atuais, a leitura da Bíblia e o diálogo entre a fé e as culturas.

O tema proposto para a reflexão – “Bíblia, a leitura infinita” – é inspirado no livro de autoria do padre José Tolentino “Leitura Infinita – Bíblia e Interpretação”, reeditado recentemente pela Paulinas Editora. A obra reúne ensaios sobre teologia e exegese bíblica de agradável leitura; oportunidade para uma reflexão não só religiosa, mas também sobre as raízes da nossa civilização.

Confira a entrevista com padre José Tolentino que revela um pouco do seu pensamento sobre o inesgotável caminho de redescobertas das Sagradas Escrituras.

O que o levou a optar pelo título “A leitura infinita – A Bíblia e a sua interpretação” para o seu livro recentemente reeditado, que inspirou a manhã de reflexão na PUC Minas?
A nossa leitura da Bíblia é um processo, um caminho inesgotável. Nunca podemos dizer que já lemos e entendemos a Bíblia. Relacionamo-nos com o texto sagrado por aproximações, por tentativas, com a humildade do discípulo que escuta e com a paixão do enamorado que se deixa prender, afetiva e existencialmente, por aquela Palavra. O encontro com a Bíblia é sempre novo, surpreendente, imprevisível. Não pode ser uma rotina sonolenta.

O senhor concorda com a afirmação recorrente de que “ A Leitura Infinita – Bíblia e Interpretação” parece dar continuidade a outras duas obras de sua autoria “As Estratégias do Desejo” e “A Construção de Jesus”?
Creio que em todas essas obras procuro realizar um objetivo comum: passar ao leitor a consciência de que compreender o texto bíblico (ou procurar compreendê-lo) é compreender-se a si mesmo, na relação com Deus e com a comunidade que dá horizonte à nossa leitura individual.

É comum o senhor dizer que Deus vem ao nosso encontro no cotidiano, ou seja, naquilo que há de mais simples na vida, não por feitos extraordinários. Até que ponto esse mesmo quotidiano nos capacita para a interpretação da Bíblia?
Tudo o que nos prepara para ler a vida, prepara-nos também para ler a Bíblia. Um analfabeto pode interpretar a Bíblia com grande agudeza espiritual. É claro que os instrumentos científicos são muito importantes e têm a sua função, mas eles não se substituem à sabedoria do vivido ou à maturação do olhar e do coração que só no cotidiano se aprofunda. O ideal seria juntar as duas coisas, vida e ciência. Mas isso vem acontecendo cada vez mais na prática da Igreja.

Por favor, explique-nos como se dá essa interação entre a vida contemporânea e o texto bíblico escrito em vários momentos da história e em diferentes culturas.
Entre nós e o texto bíblico há uma distância de milênios e um salto cultural gigante. Mas o emissor (Deus) e o destinatário (a pessoa humana) continuam os mesmos. O texto bíblico não é um documento mumificado no passado, mas é um rio comunicativo que continua a irrigar e a fecundar a história. Interessa certamente estudar as condições e o contexto original de produção de cada texto, mas fazer isso esquecendo a necessidade de atender às condições de recepção do texto nas nossas vidas é tratar a Bíblia como pura arqueologia e não como fonte e luz para todos os tempos e culturas.

Por ter uma estratégia narrativa que distancia as Sagradas Escrituras das interpretações fundamentalistas, o senhor acredita que sua obra – como afirmam vários especialistas – consegue romper barreiras culturais e aproximar as pessoas da leitura bíblica?
Gostaria muito que pudesse ser isso que diz. As leituras fundamentalistas fecham o texto numa interpretação simplista e estática. Ora o texto é dinâmico, vivo, enigmático, interrogativo. Nós não o dominamos. O que podemos fazer é humildemente, insistentemente deixarmo-nos iluminar por ele.

Qual a intenção do senhor em ir além dos temas restritos à religião e propor também a reflexão sobre as raízes da nossa civilização?
A Bíblia é um mapa espiritual, um território de crença, uma teofania que incessantemente nos revela Deus. Mas a Bíblia é também o grande código da nossa cultura! E cabe-nos a nós cristãos fazer com que a Bíblia seja, de facto, olhada civilizacionalmente como uma chave insispensável para entender a arte, a cultura, o pensamento, a política, a pessoa… Por exemplo, sem a Bíblia nós passaríamos por grande parte dos nossos patrimônios artísticos com a mesma ignorância com que olhamos para as estátuas da Ilha de Páscoa. É muito importante promover o grande papel cultural da Bíblia. Essa é, no contexto da modernidade secularizada, uma primeira e válida aproximação.

Que desafios a Igreja enfrenta na evangelização em um mundo globalizado e que papel a cultura tem nesse processo?
Precisamos encarar a cultura como um campo novo para o anúncio do Evangelho. É claro que a forma do anúncio que se faz na cultura não é a mesma daquela que realizamos na liturgia. Tem de haver criatividade. A Igreja precisa de encontrar novas linguagens para o discurso religioso; carece reinventar pontes com o coração do homem. Ela necessita estar mais atenta aos sinais dos tempos e dialogar com eles. É preciso, inclusive, que faça um esforço para falar e ser entendida pelas pessoas, como tão bem o demonstra o Papa Francisco.

O senhor é sacerdote, escritor, professor e vice-reitor na Universidade Católica, membro do Conselho Pontifício para a Cultura e também um dos maiores poetas portugueses da atualidade. Em que momentos a poesia se faz mais presente em sua vida?
No meu caso a poesia é inseparável da experiência do silêncio. Como sem o silêncio não conseguiriamos ouvir os sons, sem o silêncio a poesia não se revelaria. É na polifonia secreta do silêncio, nessa mina cotidiana e funda, feita de beleza e bruteza, de coisas provisárias e perenes, compreensíveis e inacessíveis, que os versos encontram o seu caminho.

De outro modo, o sacerdócio, ao prever o desapego material e a possibilidade de interiorização (liberdade), o fortalece enquanto poeta?
Não tenho dúvidas disso. Como dizia o grande poeta e mestre espiritual Manoel de Barros, «tudo o que me liga ao abandono/ me liga a Deus».

Fonte: http://www.arquidiocesebh.org.br/site/noticias.php?id_noticia=10903

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