Entre o primeiro e segundo séculos do Cristianismo, foi redigida uma carta dirigida à Diogneto que faz um relato de como eram aqueles cristãos que estavam crescendo em número e em influência no Império Romano. Apesar das controvérsias de quem é o autor, o verdadeiro destinatário, o ano e o local em que fora escrita, não perde seu caráter de importância para a Tradição Cristã. Assim ele define os cristãos:

Os cristãos, de fato, não se distinguem dos outros homens, nem por sua terra, nem por sua língua ou costumes. Com efeito, não moram em cidades próprias, nem falam língua estranha, nem têm algum modo especial de viver. Sua doutrina não foi inventada por eles, graças ao talento e especulação de homens curiosos, nem professam, como outros, algum ensinamento humano. Pelo contrário, vivendo em cidades gregas e bárbaras, conforme a sorte de cada um, e adaptando-se aos costumes do lugar quanto à roupa, ao alimento e ao resto, testemunham um modo de vida especial e admirável e, sem dúvida, paradoxal. Vivem na pátria, mas como forasteiros; participam de tudo como cristãos e suportam tudo como estrangeiros. Toda pátria estrangeira é pátria deles, e cada pátria é estrangeira. Casam-se como todos e geram filhos, mas não abandonam os recém-nascidos. Põem a mesa em comum, mas não o leito; estão na carne, mas não vivem segundo a carne; moram na terra, mas têm sua cidadania no céu; obedecem as leis estabelecidas, mas com sua vida ultrapassam as leis; amam a todos e são perseguidos por todos; são desconhecidos e, apesar disso, condenados; são mortos, e desse modo, é lhes dada a vida; são pobres, e enriquecem a muitos; carecem de tudo, e têm abundância de tudo; são desprezados e, no desprezo, tornam-se glorificados; são amaldiçoados e, depois, proclamados justos; são injuriados, e bendizem; são maltratados, e honram; fazem o bem, e são punidos como malfeitores; são condenados, e se alegram como se recebessem a vida. (CARTA A DIOGNETO, 5,1-17)

Hoje, apesar das perseguições contra cristãos em algumas partes do mundo, no ocidente eles não se encontram mais na clandestinidade. Então, como reconhecer esses cristãos no mundo? Segundo o CENSO demográfico brasileiro, eles estão por todo o país, constituindo quase a totalidade da população; é possível ver alguns que se dizem cristãos em seus templos todos os dias da semana (é só escolher a denominação). Mas está sendo difícil encontrar algum pelo seu modo de vida coerente com aquilo que prega. Antes não precisavam de roupas que os definissem, mas hoje é possível reconhecê-los pelas escritas nas roupas, pela bíblia que carregam (deixo em minúsculo devido ao fato de estar sendo usada como livro sagrado ou não); pela cruz no peito, e muitos sacerdotes (católicos ou protestantes) podem ser reconhecidos pelo uso do clegyrman ou colarinho romano.

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O profeta dom Pedro Casaldáliga com o anel de tucum!

Mas, será que muitos fizeram uma adesão total aquilo que Jesus Cristo quis e ensinou? Seriam capazes de entregar suas vidas em favor dos pobres? Pensando nisso, lembro-me de outro símbolo, o Anel de Tucum, feito a partir de uma palmeira da Amazônia, que segundo Dom Pedro Casaldáliga tem um espinho muito bravo. Segundo o bispo emérito da Prelazia de São Félix do Araguaia (MT) no filme/documentário o Anel de Tucum, o anel é “sinal da aliança com a causa indígena, causas populares. Quem carrega este anel, normalmente, significa que assumiu estas causas e as suas consequências”.  É o símbolo da opção preferencial pelos pobres. Assim, esse anel é utilizado por pessoas ligadas às pastorais sociais, movimentos sociais e algumas ONG’s.

Mas, como autocrítica de quem o usa, é bom lembrar que o uso do anel de tucum não substitui o crucifixo que representa a Cruz de Cristo, mas somado a ele é um diferencial para aqueles e aquelas que assumiram um compromisso social. É uma aliança como a de ouro que os casados usam, e como alguns padres usam dizendo estarem casados com a Igreja (sic). E enquanto cristãos não devemos pensar que aderir às causas sociais é aderir ao comunismo, mesmo que seja da Teologia da Libertação, pois como lembra Dom Hélder Câmara: “não percamos de vista que, enquanto ingenuamente há quem morra e mate por anticomunismo e comunismo, os impérios capitalistas e os impérios socialistas encontram meios de entender-se, sempre que os interesses respectivos falam mais forte”. Daí que Jesus Cristo tem que estar em primeiro lugar.

Voltando ao uso do Anel de Tucum, vale retomar novamente a fala de Dom Pedro Casaldáliga:

“Você toparia levar um anel? – Olha isso compromete, viu? Queima. Muitos, muitas, por essa causa, com esse compromisso, foram até mortos”.

Assim, como muitos cristãos foram mortos pela fidelidade à Jesus Cristo, não devemos temer os problemas encontrados nas lutas sociais inspiradas nessa mesma fidelidade ao Deus Filho. “Assim como a alma está no mundo, assim os cristãos estão no mundo” (Carta a Diogneto 6,1).

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Paulo Vinícius Faria Pereira

Estudante de Ciências Sociais e de Teologia da PUC Minas

Participou da Jornada Mundial da Juventude

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