Uma minoria islâmica jihadista violenta, exposta, excessivamente, pelos grandes meios de comunicação, foi capaz de construir uma mentalidade mundial anti-muçulmana ou, que, pelo menos, olha com suspeita para o Islamismo. Aqui, com a ajuda das reflexões publicadas do cientista político francês Gilles Kepel, especialista em Islã e no mundo árabe contemporâneo, professor do Instituto de Estudos Políticos (IEP) de Paris, procuraremos melhor entender o Estado Islâmico, o  grupo radical da jihad.

Essa palavra “amplamente utilizada – muitas vezes de maneira imprecisa – por políticos ocidentais e pela mídia, em árabe, a palavra significa “esforço” ou “luta”. No islã, isso pode significar a luta interna de um indivíduo contra instintos básicos, o esforço para construir uma boa sociedade muçulmana ou uma guerra pela fé contra os infiéis.

Membros da primeira geração de jihadistas
Membros da primeira geração de jihadistas.

Muçulmanos têm, a rigor, o objetivo de reordenar o governo e a sociedade de acordo com a lei islâmica, chamada de sharia. No entanto, os jihadistas entendem que a luta violenta é necessária para erradicar obstáculos para a restauração da lei de Deus na Terra e para defender a comunidade muçulmana, conhecida como umma, contra infiéis e apóstatas (pessoas que deixaram a religião).

1. Por que fala-se, hoje, da terceira geração de “jihadistas sociais radicais”?

Porque a primeira geração de jihadista surgiu no Afeganistão, nos anos 1980, quando a oposição dos Talibãs à ocupação soviética, uma união de estudantes cansados de tanta guerra e exploração, tornou-se um movimento militar que fez da jihad um conceito nobre e contagiante. Surgiu como um movimento político e militar, portador do ideal político-religioso de recuperar todos os principais aspectos do Islã (cultural, social, jurídico e econômico), com a criação de um Estado teocrático. Tinha, como objetivo declarado, impor a lei islâmica e alcançar um estado de paz no Paquistão e no Afeganistão.

Taliba 003
Membros do movimento jihadista Talibã!

A segunda geração da jihad ou soldados da guerra santa, a Al-Qaeda, veio depois na Argélia, Egito e Tchetchênia, organizada por Bim Laden e outras lideranças jihadistas a partir da construção de um inimigo comum: a cultura ocidental propagada pelos EUA.  O erro de Bin Laden e do seu ideólogo Zawahiri foi acreditar que, atingindo as Torres Gêmeas e o Pentágono, eles derrubariam o gigante de pés de barro e galvanizariam as massas muçulmanas a ponto de fazê-las se levantar por trás da bandeira da jihad contra os regimes pró-ocidentais. Na realidade, o 11 de setembro permitiu que George W. Bush encontrasse os bilhões de dólares necessários para derrotar a Al-Qaeda, sem nenhuma reação, senão de alívio, por parte das massas muçulmanas.

Membros do movimento jihadista Al-Qaeda
Membros do movimento jihadista Al-Qaeda!

Já a terceira geração, o Estado Islâmico, é formada, muitas vezes, por jovens excluídos, vagabundos ou delinquentes, facilmente doutrináveis e dificilmente identificáveis pelos serviços secretos. São pessoas que podem escolher os seus alvos e alcançá-los de modo extremamente barato. Essa terceira geração da jihad nasce na Síria, país que, nos últimos anos, forneceu as condições materiais ideais para que as teorias dos seus ideólogos fossem postas em prática.Isso também foi possível graças ao desenvolvimento cada vez mais invasivo da rede, com a qual foram mobilizados dezenas de milhares de jovens em todo o planeta, especialmente na Europa, mediante um bombardeio incessante de imagens das atrocidades cometidas contra a população síria pelo regime de Damasco. Também desta vez bastaram o Facebook e o Twitter para atrair novas forças à causa, sem a necessidade de recorrer aos histéricos sermões de alguns imanes agitados dos subúrbios, muito vigiados pela polícia. O outro componente que permitiu o surgimento da terceira geração na França, Inglaterra, Bélgica e agora na Dinamarca é o apelo lançado pelo Estado Islâmico para combater no califado. Uma vez treinados no campo e, melhor, doutrinados, os jovens jihadistas são enviados novamente para as suas sociedades europeias de origem para cometer os seus crimes. O Estado Islâmico não é uma organização piramidal: não há uma decisão tomada de cima.Trata-se de um mecanismo que parte de baixo, autônomo. Um modo totalmente novo de ser dessa terceira geração de jihadistas. Facilmente doutrináveis, pouco identificáveis, mobilizados pelas redes sociais aos milhares.

Estado Islâmico
Membros do movimento jihadista Estado Islâmico!

2. Por que os jihadistas da terceira geração tem tanto problema com os judeus?

Porque os judeus são o alvo ideal da sua estratégia, que consiste em desencadear uma guerra civil interconfessional na Europa. Para trazer para o seu lado os “indecisos”, os muçulmanos da França ou da Inglaterra revoltados com a integração ocidental, mas ainda não devotados à  causa jihadista, o modo mais fácil e menos custoso é o de matar um judeu, bode expiatório por excelência. Ora, o ponto fraco da Europa tornou-se, para os islamistas, o melhor teatro para representar as suas truculentas dramatizações. Por isso, depois de Paris e de Copenhague, podemos nos perguntar qual será a próxima capital que eles ensanguentarão no Velho Continente.

Dez anos atrás, no dia 14 de fevereiro de 2005, foi criado o YouTube, instrumento indispensável para a terceira geração de jihadistas, porque, além de permitir um alistamento rápido de novos “soldados”, sem passar pelas mesquitas mais radicais, as redes sociais fornecem as imagens e a linguagem para uma juventude mundializada híbrida, nascida na Europa, mas alimentada pelas mais antiquadas teorias do islamismo militante. Para essa terceira geração, o alvo não são mais os Estados Unidos, poderosos demais e distantes demais das terras do Islã, mas a tolerante Europa, seguramente mais fraca e mais dividida do que a América, a poucos passos do mundo muçulmano e com dezenas de milhões de maometanos mal integrados, que formam um gigantesco viveiro de possíveis recrutas locais.

A nossa vida cotidiana permanece igualmente segura. Mas a fragilidade é a representação midiática que surge. E o Estado Islâmico quer exatamente isso, criar medo na Europa e mobilizar os europeus contra os muçulmanos, para provocar uma radicalização entre os muçulmanos, uma reação deles e, por fim, uma guerra civil. Os últimos atentados estão no aniversário do nascimento do Califado e demonstram tanto a vontade de festejá-lo quanto a de serem vistos como capazes de atacar em qualquer lugar, em um momento em que eles têm vários problemas. Eles precisam não se mostrar enfraquecidos. Mas o Estado Islâmico está parado em Palmira, enquanto, na retaguarda, perde o controle da fronteira turca e, portanto, muitos lucros do contrabando.

3. Em que sentido, o senhor afirma que a força dessa jihad revela a sua fraqueza profunda?

Acima de tudo, porque os adeptos do Estado Islâmico não conseguem se distanciar do mundo virtual da comunicação, e as milhares de mensagens e de vídeos que publicam continuamente permitiram que as forças de segurança descobrissem na sua conta muito mais do que se sabia das milícias da Al-Qaeda um ano depois do 11 de setembro. A relativa liberdade de ação do seu modus operandi, desprovido de qualquer doutrina estratégica controlada pela cúpula do movimento, fez com que fossem cometidos atos monstruosos, que fez o califado perder aqueles potenciais simpatizantes muçulmanos que está buscando.

Além disso, o uso do horror torna-se uma armadilha. As crucificações, as decapitações e, agora, a cremação de um ser vivo servem, acima de tudo, para captar a atenção da rede. Mas a guerra de propaganda pode ser uma faca de dois gumes, e esse horror levado ao extremo, até limites que parecem avançar a cada vídeo, pode se tornar uma armadilha.

Cena de violência radical divulgada nas redes sociais pelo movimento jihadista Estado Islâmico.
Cena de violência radical divulgada nas redes sociais pelo movimento jihadista Estado Islâmico.

O Estado Islâmico pensou que, para aqueles que são bombardeados com barris carregados de TNT, essas mortes deviam aparecer como um castigo merecido, porque nada é mais atroz do que ver os próprios filhos queimarem entre as chamas e a própria casa destruída pelo explosivo. É o mesmo raciocínio usado desta vez: o fogo que queima o piloto é a resposta para o fogo dos incêndios que os bombardeios aéreos desencadeiam. Mas, para além do oportunismo político e da lei do talião que passam através da rede, podemos nos perguntar se o Estado Islâmico não cometeu um grave erro na sua contínua busca de atrair grupos de simpatizantes cada vez mais numerosos. Este último crime como que desencadeou o efeito contrário ao esperado e inverteu a tendência que era do alistamento voluntário e maciço entre as suas fileiras. As chamas que lambem o piloto antes de carbonizá-lo despertaram nas massas do mundo muçulmano um sentimento de horror. No seu conjunto, a comunidade islâmica rejeitou em bloco uma seita que, aos seus olhos, já é vítima daquilo que os árabes chamam de gholu, ou seja, exagero. E, nesse caso, o exagero é um crime, porque tanto horror provoca nojo e raiva, e coloca a comunidade dos fiéis muçulmanos em situação de fraqueza em relação aos seus potenciais inimigos. As manifestações na cidade natal do piloto queimado foram muito violentas, e a recusa do Estado Islâmico alcançou um nível nunca registrado antes.Como demonstrado pelas reações de condenação na Jordânia, esse relançamento à barbárie pode se revelar perigoso, senão fatal, para os islamitas, mesmo com uma população em que os simpatizantes às suas causas são numerosos.

4. Desde a “primavera árabe” em 2011, os acontecimentos se sucedem e o Oriente Médio encontra-se em meio a uma imensa crise. Como analisar esta situação?

A crise do Oriente Médio articula-se em torno de uma dialética em três fases. Primeiro, as reivindicações democráticas da “primavera árabe” em 2011 que desembocam na queda dos antigos regimes na Tunísia, no Egito e na Líbia, ao passo que as revoluções fracassam no Iêmen e no Bahrein e a guerra civil prossegue na Síria. A segunda fase, qualificada de “inverno islâmico”, é a negação da primeira fase com a vitória dos islâmicos na Tunísia, no Egito e na Líbia. Enfim, a mais surpreendente é a terceira etapa: a queda dos islâmicos se deu em 2013 no Egito e a repressão sangrenta das manifestações. Na Tunísia, o governo do Ennahda está sob pressão, ao passo que em Istambul, o primeiro ministroRecep Tayyip Erdogan (cujo partido é uma variação local da ideologia da Irmandade Muçulmana) está sendo acusado pelas classes médias laicas de querer instaurar uma ditadura religiosa.

Acontece que os serviços secretos são incapazes de examinar esse novo terrorismo do Estado Islâmico, que é uma verdadeira revolução cultural, feita pelo efeito das mídias sociais combinado com o de um campo de batalha muito próximo.

Fontes:

http://www.ihu.unisinos.br/noticias/544032-europeus-contra-muculmanos-esse-e-o-unico-objetivo-para-o-is-entrevista-com-gilles-kepel

http://www.ihu.unisinos.br/noticias/539963-jihadistas-qsociaisq-que-visam-ao-coracao-judaico-da-europa-artigo-de-gilles-kepel

http://www.ihu.unisinos.br/noticias/539678-a-armadilha-do-horror-artigo-de-gilles-kepel

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