Quem é Jesus para o biblista Francisco Orofino?

Entrevista com Francisco Orofino

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Jesus: um apaixonado por Deus e pelas pessoas

1. Como o senhor descreve o processo de aprendizagem de Jesus, na condição de ser humano?
Francisco Orofino – Temos que entender o processo de aprendizado de Jesus dentro da vida cotidiana de uma aldeia da Galileia no primeiro século da Era Cristã. Ao nascer, uma criança pertencia à mãe. A mãe era a única professora, catequista, mestra que uma criança tinha. Assim, competia à mãe ensinar a língua, a religião, as tradições religiosas, as tradições familiares, enfim, tudo que fosse importante na vida daquela criança: andar, falar, comer, vestir-se, conviver, rezar, trabalhar, pensar… Temos que entender que a formação de Jesus começa em casa, e sob forte influência materna. Jesus viveu muito tempo neste ambiente familiar e comunitário. E neste ambiente comunitário, profundamente religioso, a leitura e a vivência da Palavra eram muito importantes. Se de fato Jesus sabia ler e escrever, deve-se à escola dos escribas que funcionava junto às sinagogas. Mas a vida familiar de Jesus é muito conflitante. Depois que começou sua itinerância, os parentes pensam que ele ficou maluco e queriam que ele voltasse para casa (cf. Mc 3,20-21). Nazaré era uma pequena aldeia, com horizontes muito limitados e fortes preconceitos. Jesus deve ter sido motivo de vergonha para alguns de seus parentes. Não sabemos exatamente quando Jesus saiu de Nazaré. O evangelho de Marcos insinua que ele teve moradia em Cafarnaum (Mc 2,1). De qualquer forma, os evangelhos são unânimes em dizer que a vida pública de Jesus começa depois que João Batista foi preso. Isso mostra que a inserção de Jesus nos movimentos populares proféticos de sua época, como o movimento do Batista, foram importantes em sua formação humana. Em resumo, a grande escola de Jesus foi a casa familiar, a Palavra na comunidade e a história de seu povo vivida numa época de grande turbulência social, política e religiosa.

2. Quais os fatos históricos mais significativos dos 30 anos de Jesus em Nazaré?
Francisco Orofino – Creio que os fatos históricos mais significativos na vida de Jesus estão relacionados com a ocupação romana e a administração herodiana feita em nome de Roma. Logo após a morte de Herodes, o Grande (4 a.C.) explodiram muitas revoltas na Judeia e na Galileia. Este clima de violências e de revolta vai durar até a grande guerra judaica contra Roma, entre 66 e 73 d.C. Portanto, Jesus viveu um dos períodos de maior turbulência política e religiosa da história da Palestina. Quando da grande revolta após a morte de Herodes, a capital da Galileia, Séforis, distante uns 8 km de Nazaré, foi totalmente arrasada e sua população escravizada. Neste período, em Nazaré, o menino Jesus, “crescia em sabedoria, tamanho e graça diante de Deus e dos homens” (cf. Lc 2,52). Estas revoltas que surgem depois da morte de Herodes mostram que o povo está à procura de um rumo. Surgem muitos líderes apontando a realização das antigas promessas feitas por Deus ao povo ao longo da história. O povo começa a seguir muitos líderes populares como Judas, o Galileu e Teudas (cf. Atos 5,36). Esta movimentação popular aumentará sempre mais a repressão romana. Esta tensão político-religiosa sem dúvida foi marcante na vida de Jesus. Como estes fatos chegavam e repercutiam numa pequena aldeia como Nazaré, fica difícil de dizer e de imaginar. O que podemos deduzir é que num determinado momento de sua vida, Jesus sai de Nazaré e vai trabalhar em Cafarnaum. Pode ter sido mesmo por questões de trabalho e de sobrevivência. Em Cafarnaum tem uma proximidade muito grande com as colônias de pescadores. Dos seus doze apóstolos, cinco são pescadores, provavelmente gente sem instrução. De lá Jesus se insere no movimento popular do Batista. Depois da prisão do Batista, Jesus começa sua pregação. Seus primeiros discípulos também saem do movimento do Batista (cf. Jo 1,37).

3. Quais os momentos mais difíceis vividos pelo Jesus homem?
Francisco Orofino – Creio que sempre é difícil para alguém perceber que sua proposta de amor, perdão, justiça, igualdade e fraternidade encontrou uma grande resistência por parte daqueles que falam e agem em nome de Deus. Jesus fez, antes de tudo, um enfrentamento religioso com as autoridades religiosas de sua época. E isso nunca é fácil. Ele teve que enfrentar a religião institucional nos lugares em que passava, defendendo as pessoas marginalizadas pela religião. Quando será que ele chegou à conclusão de que as práticas religiosas de seu tempo afastavam as pessoas de Deus? E que a Teologia oficial legitimava a exclusão de grande parte do povo dos serviços religiosos no Templo? E, uma vez tendo chegado a estas conclusões, quando será que ele decidiu partir abertamente para o confronto (cf Lc 9,51)? Tais conclusões com as respectivas atitudes práticas também não foram fáceis para Jesus. Mas, sem dúvida, o momento mais difícil foi perceber para onde este confronto desigual o estava conduzindo e, mesmo assim, sabendo que havia uma cruz na virada do caminho, manter-se fiel ao projeto de Deus e às esperanças daqueles e daquelas que o seguiam, sem cair na tentação de fugir.

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4. Qual a importância do sofrimento humano de Jesus para a compreensão de sua divindade?
Francisco Orofino – A palavra que geralmente define este sofrimento humano de Jesus é a palavra “paixão”. Ora, nos relacionamentos humanos, a palavra “paixão” é muito positiva. Define um sentimento gostoso e intenso. Quem já sentiu e viveu uma grande paixão sabe disso. Como canta Vinicius de Moraes “quem nunca curtiu uma paixão, nunca vai ser nada não!” Ora, a palavra “paixão” relacionada a Jesus toma uma conotação negativa, de sofrimento doloroso. E de um sofrimento necessário e pedido por Deus. Como se Jesus só poderia demonstrar sua divindade assumindo o sofrimento humano. Eu penso que temos que recuperar a palavra “paixão” em Jesus de maneira muito positiva: Jesus era antes de tudo um apaixonado por Deus e pelas pessoas. E trouxe, em seus gestos e palavras, uma proposta de um Deus amoroso e apaixonado. E aqui temos que entender a dor de Jesus. Nada dói mais do que a gente perceber que nossa proposta de amor apaixonado está sendo rejeitada pela pessoa amada. Como lembra o evangelho de João: “veio para os seus, mas os seus o rejeitaram!” (cf. Jo 1,11). Rejeição dói. Rejeição de um amor livre e gratuito dói mais ainda. Manter-se fiel a este amor, mesmo se sabendo rejeitado, revela algo do rosto divino de Jesus.

5. Quais as características humanas mais interessantes de Jesus?
Francisco Orofino – Creio que a principal característica humana de Jesus era a de ele ser uma pessoa absolutamente normal. Jesus não era um asceta, como esperamos de qualquer líder religioso. Ele não fazia retiros prolongados, nem jejuns penitenciais. Pelo contrário, era um festeiro. Por isso era conhecido como “comilão e beberrão” (Mt 11,19). Este espírito de festa, de acolhida e de convivência, principalmente com as pessoas marginalizadas, deve ter causado muito impacto na vida das pessoas simples da época. É como se Jesus dissesse: é impossível ser amigo desta gente toda e ao mesmo tempo ser conivente com o sistema religioso que os marginaliza. Esta cordialidade de Jesus para com todos, especialmente com as mulheres, causou estranheza nos próprios discípulos (Jo, 4,27).

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6. Como podemos entender melhor as frases “Jesus é humano, muito humano, ‘tão humano como só Deus pode ser humano’” (Papa Leão Magno); e “Ele veio nos mostrar o caminho para quem quer ser divino: antes de tudo ser profundamente humano!”. (Fl 2,6-11)?
Francisco Orofino – Estas frases querem nos ajudar a entender o mistério da Encarnação de Jesus. Desde a revelação de Deus a Moisés no Sinai (Ex 3,7) fica claro que na proposta religiosa judaico-cristã não é o ser humano que se eleva, mas é Deus que desce. E esta descida de Deus, que atinge seu ponto máximo na encarnação de Jesus, é provocada pelo grito do pobre, do marginalizado, do excluído, do escravizado. A mais antiga reflexão que temos sobre a encarnação de Jesus é o hino que Paulo transcreve na carta aos filipenses. Paulo constata que o movimento natural dos seres humanos é querer ascender, atingir o topo, suplantando todos ao redor. Ao apresentar o hino, Paulo lembra que Jesus estava no topo. Era de condição divina. Mas não se apega a esta posição e começa a descer. E esta descida só acaba na execração pública da crucificação. Mas baixo do que isso, impossível. Mas é exatamente quando Jesus atinge este ponto máximo de humilhação que o Pai o exalta e o eleva. Fica claro então os inúmeros paradoxos de Jesus: “quem quiser ganhar a vida vai perder… quem souber perder a vida por amor, vai ganhar…” (cf. Mc 8,35 e paralelos). Jesus veio mostrar que todos nós podemos nos tornar divinos. Mas o caminho de nossa divinização exige de nossa parte a mais profunda humanização. Temos que nos abrir para a convivência com os outros. Para Jesus, mais importante que o relacionamento com Deus é o relacionamento com as pessoas. Este deve ter sido um dos pontos centrais na pregação de Jesus. Assim registra de maneira radical a Primeira Carta de João: quem não ama seu irmão é assassino! (1Jo3,15).

Para conhecer melhor o biblista Francisco Ourofino:

Ele ministra aulas para leigos no Seminário Paulo VI, em Nova Iguaçu, Rio de Janeiro. É também biblista e educador popular. Assessora grupos populares e comunidades de base nos municípios da Baixada Fluminense. É autor de vários livros e leciona em Institutos de Teologia voltados para a formação de leigos. É assessor nacional do CEBI (Centro de Estudos Bíblicos). Fez doutorado em Teologia Bíblica na PUC-Rio (2000).

Fonte:

http://www.ihuonline.unisinos.br/index.php?option=com_content&view=article&id=3360&secao=336

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