Sobre identidade e mentalidade religiosa

A identidade cultural, sociopolítica e religiosa de uma pessoa, ainda que seja realidade em contínuo processo de transformação ao longo da vida, quando interpelada, ela apresenta-se quase sempre como um amálgama de vivências, influências afetivas, desejos, ideias acolhidas, ponto de vistas, mas também traumas, receios e medos, que se misturam, como um todo emaranhado, e alicerçam-se no mais profundo de nós. Não é tarefa simples responder perguntas do tipo: quem somos, como nos tornamos o que somos e por que caminhamos nessa direção e não em outra…

Do mesmo modo, não é simples, para qualquer um de nós, perceber e explicitar a mentalidade religiosa que confessamos. Mentalidade religiosa é algo diferente de confissão religiosa, credo, igreja ou religião. É um substrato interno, muitas vezes, assimétrico com o que explicitamente confessamos ou aderimos.

Urge fazermos sempre o exercício de tomar distância e consciência autocrítica das possibilidades e limites de toda e qualquer mentalidade religiosa assumida. Importa buscar perceber o tanto de influência que, direta ou indiretamente, ela exerce sobre as nossas ideias, posturas e atitudes. Do mesmo modo, perceber também o quanto ela é influenciada pelo meio em que a pessoa está inserira ou frequenta. Trata-se de um desafio gigantesco, mas fundamental e incontornável na busca do autoconhecimento e da autonomia.

A convivência fraterna e o cultivo simultâneo de três campos (o da abertura ao outro, o diálogo sincero e o do conhecimento histórico), caminho íngreme e árduo, mostra-se necessário e indispensável para não nos deixarmos guiar por preconceitos e miopias culturais e ou religiosas.

Ficamos sabendo, recentemente, de um jovem padre que proibiu o grupo de jovens de sua paróquia de convidar uma pessoa para uma atividade planejada pelo grupo. Ao ser indagado sobre o por quê dessa postura, ele disse que essa pessoa, por ser um adepto da Teologia da Libertação, era contra a Igreja Católica. Acontece que essa persona non grata era, na verdade, o monge, teólogo e biblista, Pe. Marcelo Barros. Para quem não o conhece, Marcelo Barros é autor de inúmeros livros de teologia, alguém que trabalhou diretamente com Dom Hélder Câmara, até hoje continua como assessor da CEBs, da CPT, do MST e de tantos outros movimentos sociais e religiosos. Além disso, atua, incansavelmente, no campo do ecumenismo e do diálogo inter-religioso e no da espiritualidade cristã, aberta e universal, em vista da construção do Reino de Deus e da cultura da paz mundial. Como esse jovem padre disse o que pensava, abertamente e para muitas pessoas, ao tomar conhecimento, Marcelo Barros resolveu escrever-lhe uma carta aberta. Segue o texto na íntegra. Pela transparência evangélica, abertura dialogal e franqueza de coração, vale a pena conferir:

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Marcelo Barros

Carta a um jovem padre

                                               Recife, domingo, 05 de julho 2015

Caro irmão padre…

Soube por um amigo comum que você diz que eu sou revolucionário e contra as leis da Igreja. Quanto a você, afirma ter optado por ser “conservador”, na linha dos papas João Paulo II e Bento XVI, contrários à Teologia da Libertação e não desse papa atual.  

Comumente, tenho por princípio ouvir atentamente as críticas que me fazem. Prometi a Deus colocar-me sempre disponível a dialogar e me manter aberto a rever minhas posições que, de fato, podem estar equivocadas. Só quando percebo que a pessoa não quer dialogar, evito responder para não alimentar polêmicas. No entanto, você é um irmão no presbitério e é jovem, portanto, portador de uma mensagem própria da juventude. Por isso, pensei que deveria provocar essa conversa entre nós. Não para me defender e sim para explicar melhor o que penso e por que penso isso. Como você mal me conhece, penso que suas críticas ao meu modo de viver a fé e compreender a Igreja não são pessoais. Você me associa aos irmãos e irmãs ligados às pastorais sociais e aos movimentos populares. Se suas críticas são de caráter pessoal a mim, a algum comportamento meu, é só me dizer ou escrever e procurarei rever. Se você é contrário aos que seguem a Teologia da Libertação e vivem uma espiritualidade macro-ecumênica mais aberta, aí sim, vamos procurar colocar os pontos nos iis.

1. Uma chave de leitura para compreender a profecia

Sem querer absolutamente me comparar com Jesus e nem canonizar os companheiros de caminhada da Igreja no meio do povo, penso que se queremos compreender os desafios da nossa missão profética como Igreja hoje, devemos reler o evangelho desse 14º domingo do ano B: Marcos 6, 1- 6. É uma das primeiras sínteses que o evangelho de Marcos faz sobre a atividade de Jesus na Galileia. Nela, o evangelho conta que Jesus não foi compreendido pela própria família, que foi buscá-lo porque achava que ele tinha enlouquecido (Mc 3, 21) e foi rejeitado pelos que lhe eram mais próximos: os seus conterrâneos de Nazaré. Jesus teve de assumir o fato de ser um “profeta incompreendido e sem honra”. Não foi reconhecido como profeta de Deus por parte daqueles que seriam os mais próximos e pensavam conhecê-lo melhor. No texto de Lucas paralelo a esse (4, 16 ss), se expressa o que ele, Jesus teria dito na sinagoga de Nazaré para que os religiosos da cidade o rejeitassem: “Havia muitas viúvas em Israel na época do profeta Elias, mas ele foi enviado a uma viúva de Sarepta no estrangeiro. E no tempo do profeta Eliseu, havia muitos leprosos em Israel, mas o profeta curou Naamã, o sírio (também  estrangeiro). O que escandalizou os religiosos da sinagoga foi a abertura da salvação aos outros, aos de fora… A reação deles foi a de querer o privilégio da salvação só para eles e para o seu grupo religioso. Jesus ameaçava o seu privilégio religioso.

Até hoje, o evangelho de Jesus, muitas vezes, é mais acolhido pelos de fora do que pelos que se consideram de dentro – pelos que se afirmam religiosos. Não posso e não quero dizer isso de você. Apenas aceno isso para que eu e você tenhamos essa referência ao conversarmos sobre a vocação profética da Igreja no mundo atual.   

 2 . Quem é mais conservador?

O termo conservador é usado para designar alguém que é contra mudanças e quer preservar o passado. Dependendo do que se trata e como se propõe isso, o conservadorismo pode ser uma postura excelente. As comunidades afro-brasileiras e indígenas que querem preservar suas culturas e seus costumes antigos fazem uma coisa muito boa. Grupos ecológicos que lutam para preservar a natureza contra um desenvolvimento depredador optam por um conservadorismo sadio. Na Bíblia, quando os hebreus conquistaram a terra e se libertaram não adotaram o sistema social mais moderno dos impérios da época (Egito e Babilônia), mas mantiveram o modelo tribal dos juízes. Para os profetas e mesmo para o evangelho, a grande esperança é refazer um novo Êxodo. Por isso, no hebraico bíblico, o termo lifné é um futuro que deve ser deixado para trás, enquanto aharon é o passado que está à nossa frente como proposta de libertação. Nesse sentido, temos de saber em que somos conservadores e em que Deus nos chama para acolhê-lo como “Aquele que faz novas todas as coisas” (Ap 21, 5). E aí, “não adianta remendo novo em roupa velha, vinho novo em barris velhos” (Mc 2, 18 ss). O problema de muitos irmãos padres e de alguns grupos católicos que fazem essa opção que você declara como sendo conservadora é que parecem não ter escolhido bem em que ser conservador e em que optar pela novidade do Espírito. Independentemente do papa Francisco e de sua proposta para a Igreja, no mundo todo e também no Brasil, muitos padres jovens continuam sendo formados no estilo e com a sensibilidade da Igreja anterior ao Concílio Vaticano II. Mesmo sem terem estudado profundamente os textos e o espírito do Concílio, optam por ser contrários. E contam com a cumplicidade ou ao menos a omissão de alguns bispos que tendem a ser severos com os grupos eclesiais considerados “de esquerda”, mas são extremamente complacentes com os que rejeitam o Concílio e a renovação por ele proposta. Não estou com isso sugerindo ou desejando que os bispos punissem ou condenassem ninguém. Sou absolutamente contra qualquer posição de autoridade desse tipo. O que estou dizendo é que poderiam ser mais claros em suas posições e não se omitirem diante de uma postura que, facilmente se percebe, ser superficial e inconsequente. Todos nós conhecemos pessoas conservadoras coerentes e mesmo espiritualmente profundas. Respeito-as e até as admiro. Não é o caso de muitos padres jovens e seminaristas que assumem dos tempos pre-conciliares o aspecto externo e folclórico de costumes, roupas e bugigangas. Não assumem a seriedade da espiritualidade daqueles tempos. Não se preocupam em estudar e não querem enfrentar o rigor dos antigos cursos de Filosofia e Teologia em latim. As antigas exigências de ascese, jejum e mortificação não lhes dizem nada. Nesses pontos, são modernos e “avançados”. Travestem-se de tradicionais no uso de batina ou cleryman e no gosto por cerimônias pomposas, sem assumir a dureza e a pobreza com que a maioria dos padres “dos tempos antes do Concílio” viviam o seu ministério.  

O conservadorismo deles, em geral, só vai até a Igreja do século XIX e mesmo assim aos aspectos mais exteriores e superficiais daquele modelo de Igreja. Ao preparar o Concílio Vaticano II, o papa João XXIII propôs como critério de renovação eclesial “voltar às fontes da fé”, isso é, retomar o ideal dos primeiros cristãos e atualizá-lo para os dias atuais. Em princípio, voltar ao Cristianismo primitivo deveria ser considerado mais conservador do que quem se apega a um modelo de Igreja dos séculos modernos. A partir desse critério, poderíamos nos perguntar: quem é mais conservador, um padre que se apega ao clericalismo e ao modelo tridentino de Igreja ou um que tem como critério o Cristianismo dos primeiros tempos – relido à luz do que o Espírito diz hoje às Igrejas?

Você diz que os papas João Paulo II e Bento XVI foram contrários à Teologia da Libertação. Além do fato de que, objetivamente, os documentos desses papas sejam mais cuidadosos e com nuances que você não guardou, de fato, se poderia dizer que a dificuldade deles não era em si com a Teologia da Libertação e sim com todo e qualquer tipo de teologia que fizesse mais do que meramente repetir os documentos do Vaticano. Não quero retomar a lista dos mais de 150 teólogos censurados e condenados nesses dois pontificados, mas se você olhar os nomes, verá que muitos nunca foram da Teologia da Libertação. Os teólogos que foram condenados estavam simplesmente obedecendo às orientações do Concílio Vaticano II que declarou o direito de liberdade de pensamento para todos dentro da Igreja (Cf. Lumen Gentium 37) e recomendou a liberdade de pesquisa teológica (Cf. Gaudium et Spes 72). 

3 . O mais profundo por trás de tudo isso

Cada pessoa tem uma sensibilidade própria e desde as primeiras comunidades cristãs, sempre houve pastores e fieis de linha mais inovadora e outros de tendência mais conservadora. Os próprios apóstolos Pedro, Paulo e Tiago não pensavam de forma igual. A Igreja é Católica porque é aberta a tudo o que é humano e deve sim acolher e abrigar em seu seio pessoas de diversas tendências e mentalidades. O importante é que se respeitem e caminhem para a unidade realizada a partir da diversidade. O importante é que uns ajudem os outros a aprofundarem a expressão de sua fé e evitem o dogmatismo que exclui.

Um ponto que gostaria de acrescentar é que, segundo muitos exegetas, nos tempos do Cristianismo primitivo, os nomes que conhecemos como figuras individuais são, de fato, expressões de comunidades que se identificam com aqueles nomes. O discípulo amado é a comunidade do discípulo amado. Marta e Maria representam dois grupos, cada um com sua tendência. Paulo é expressão de uma equipe missionária constituída de discípulos e discípulas que atuavam juntos. Pedro e Tiago igualmente representam polaridades, mas como comunidades. Eu procuro representar o grupo a que pertenço. Por acaso, você se preocupa em representar o modo de pensar e de ser da sua comunidade paroquial e  da diocese que tem uma linha ou está isolado?  

E por trás de tudo isso, o que há de mais profundo é a questão sobre que imagem de Deus estamos testemunhando ao mundo. As pessoas que nos encontram e que ouvem a mim e a você, que imagem de Deus podem ter?

O que significa para mim e para você testemunhar um Deus que é amor, misericórdia e perdão para toda a humanidade? O importante é atualizar para nós e nossa pastoral a palavra de Jesus: “Chegou a hora em que nem nesse monte, nem em Jerusalém deveis adorar. O Pai é espírito e verdade e os seus adoradores devem adorá-lo em espírito e verdade” (Jo 4, 23 ss).

Espero que você seja capaz de compreender os argumentos que aqui lhe expus e possamos assim continuar o diálogo aqui provocado. Deus o abençoe e o ilumine em seus caminhos.

 Um abraço do irmão Marcelo Barros

Fonte:

http://www.marcelobarros.com/2015/07/conversa-terca-feira-07-de-julho-2015.html

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