Breve entrevista com o biblista e professor da Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia – FAJE, o Pe. Johan Konings, SJ sobre a Bíblia. Concedida em 2012, devido a sua atualizade, o Observatório da Evangelização a transcreve aqui:

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1. Quais os primeiros passos para uma leitura adequada das Sagradas Escrituras nos dias de hoje?

Pe. Konings: A primeira função da SE, do ponto de vista cristão, é pôr as pessoas em contato com a pessoa e a obra de Jesus de Nazaré. Costumo aconselhar como primeiro passo a obra em dois volumes de Lucas, o Evangelho e os Atos dos Apóstolos, porque tratam de Jesus e de sua comunidade, que são inseparáveis. Além disso, Lucas é um excelente narrador, um grande romancista, sensível ao ambiente judaico de Jesus, por exemplo na bela evocação da infância, e sensível também à perspectiva dos não judeus, sobretudo em Atos.

Outra abordagem possível é o Evangelho segundo João, sobretudo para pessoas com grande sensibilidade pelo simbolismo e pela contemplação. O que Lucas descreve em cenas vivas, João o diz em palavras de profundidade universal, superando tempos e culturas.

Pode-se começar também com Marcos, que propõe a mensagem em torno de Jesus de modo mais direto e incisivo, deixando o leitor descobrir em que sentido Jesus é o Cristo, a saber: Servo sofredor!

Quanto a Mateus, sua preocupação com a instrução dos fiéis de tradição judaica faz com que não seja tão simples quanto parece.

E não se pode deixar de conhecer o grande pregador Paulo, mas é preciso colocar-se na pele dos seus leitores e não dos teólogos do século XVI! Importa tentar ler com os olhos dos primeiros destinatários! E para isso é preciso migrar para o tempo deles.

Em torno do Jesus do Novo Testamento, deve-se entrar em contato, aos poucos, com o Antigo Testamento, que faz conhecer as tradições culturais e religiosas de Jesus e de seus seguidores – a Torá de Moisés, os Profetas. Para os primeiros cristãos, que eram judeus, o Antigo Testamento serviu de referência para reconhecer a paradoxal missão messiânica de Jesus: em Jesus se cumpriram as antigas Escrituras. Sobretudo, vale curtir os Salmos, que são a oração de Jesus e de seu povo e continuam oração dos cristãos, apesar de algumas expressões que, à luz de Jesus, precisam de correção. De qualquer maneira, o Antigo Testamento deve ser lido à luz de Jesus.

2. O que levar em conta para não fazer uma interpretação fundamentalista da Sagrada Escritura?

Pe. Konings: Precisamente o que eu disse: é preciso ler com os olhos dos primeiros destinatários. É assim que se lê, honestamente, uma obra literária ou uma carta de um amigo, levando em consideração o jeito, as estratégias do autor, os interesses do suposto leitor etc. Há grande diferença entre essa atitude literária honesta e o literalismo fundamentalista.

Não se deve manipular a Bíblia para, na base da letra, fundamentar expressões dogmáticas. Os dogmas ou pontos de doutrina nascem da crescente consciência que o Espírito suscita na Igreja, não de alguma frase isolada. Uma vez que essa consciência cresceu, algumas páginas da Bíblia a ilustram e iluminam, isso sim, mas não a provam como as premissas a conclusão de um silogismo. Sobretudo, não cabe usar as páginas bíblicas para dirimir questões de Ciência Natural ou Histórica, pois não foram escritas para isso.

A verdade da Bíblia é para nossa salvação, não para resolver problemas científicos. Assim, a narrativa da criação do mundo em seis dias, no Gênesis, serve para glorificar a Deus por ter criado todas as coisas boas e o homem e a mulher como obra prima, e, sobretudo, para ensinar a santificação do sétimo dia, o repouso de Deus e dos homens.

3. Existe diferença entre Sagrada Escritura e Bíblia?

Pe. Konings: A Bíblia é a coleção dos livros religiosos do antigo judaísmo e dos primeiros cristãos: como diz o próprio termo, é uma biblioteca, pois ‘ta biblia’ é um plural que significa ‘os livros’. Por Sagrada Escritura, pelo contrário, entendem-se escritos que são considerados como vindos de Deus, inspirados por Deus. A Bíblia é um fenômeno literário, a Sagrada Escritura um objeto de fé. Assim, os escritos dos primeiros cristãos estão na Bíblia, mas não são Sagrada Escritura para os judeus. Hoje em dia temos muitos biblistas que se ocupam com a Bíblia no aspecto cultural, histórico ou político, mas não a veneram como Sagrada Escritura.

4. Em que a fé bíblica pode contribuir para uma vida saudável?

Pe. Konings: Um dos traços fundamentais da Sagrada Escritura, tanto da judaica quanto da cristã, é a esperança. Deus tem algo de novo a oferecer à humanidade: “Eu faço novas todas as coisas”, lemos em Isaías e no Apocalipse. Até um autor ateu como o marxista Ernesto Bloch reconhece isso. E segundo as Escrituras cristãs, esse ‘novo’ já se tornou definitivamente presente em Jesus de Nazaré. Por isso ele é chamado de Messias, Cristo. Mas este ‘novo’ aguarda ainda seu pleno desabrochamento. É algo que ultrapassa a morte e mesmo a história humana. A fé judaica e cristã não deixa espaço para o niilismo que está corroendo a nossa cultura e a nossa sociedade. Por isso não se deve ler a Bíblia como coleção de problemas, mas como textos de unção, mesmo quando nos sacodem. Exatamente porque nos confrontam com Deus – e a nós, cristãos, com Deus como ele se dá a conhecer em Jesus –, as Escrituras nos dão um choque de saúde espiritual, e é isso que importa.

5. Que mensagem o Sr. daria para os que se interessam pelo estudo de teologia?

Pe. Konings: Ler, ler e ler. Ler as Escrituras e, em redor delas, algumas explicações essenciais, como as notas das boas Bíblias, os comentários indicados pelos professores, e também, introduções históricas e literárias, para poder fazer o que eu disse antes: ler com os olhos dos primeiros leitores.

Mas precisa-se algo a mais: confrontar essa compreensão primeira com aquilo que nos ocupa hoje. Fazer das Escrituras um espelho para nossa própria vida, como indivíduos e como comunidade. E isso acontece na Lectio Divina, nos Círculos Bíblicos, na homilia da Liturgia etc. Criar, por assim dizer, uma roda em que os primeiros destinatários estejam junto conosco ao lermos os textos que eles nos transmitiram.

Fonte:

http://www.itf.org.br/entrevista-padre-johan-konings-2.html

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