Toda a nossa cultura é uma cultura de morte, o Ocidente cristão é o centro que organizou a guerra, a fome, a acumulação de riqueza nas mãos de poucos“.

Arturo Paoli (30/11/1912 – 13/07/2015)

Arturo Paoli
Arturo Paoli

Duas doses de sua coragem profética e coerência de vida

1. Em Lucca, sua cidade natal, em 1995, o prefeito Giulio Lazzaroni lhe entregou o Diploma de Partidário. Nessa ocasião, frei Arturo pronunciou estas palavras:

“… A Resistência não se encerrou no âmbito de 1945 e, se nós não sofremos fortemente por pertencer a uma família que fabrica as armas, que envia as minas que dilaceram os corpos das crianças, se nós não pensamos que o nosso bem-estar é pago por milhões de famintos, se nós não pensamos que enviamos navios carregados de armas para África, para a vizinha Iugoslávia etc… e se nós não sofremos na nossa carne por esse escândalo significa que a Resistência foi uma ação valorosa, generosa ou talvez até uma manifestação de coragem, mas não foi algo que aderiu profundamente à nossa alma, que se tornou lei da nossa vida (…) e para que essa celebração não seja retórica (…) talvez hoje, mais do que nunca, precisamos resistir.

2. Trecho da carta de Arturo Paoli ao rejeitar a medalha de ouro que anualmente a Câmara de Comércio de sua cidade natal, confere aos seus cidadãos mais famosos. A carta publicada despertou muitas polêmicas:

“Conheço pessoalmente alguns de vocês para não duvidar da sua nobilíssima intenção, mas permitam-me recusar um prêmio como missionário católico. Além do fato de saber que o único selo que posso colocar nos 40 anos de vida na América Latina é o que me é sugerido pelo Evangelho, “sou um servo inútil”, atormentam-me uma outra consideração. Pertenço por nascimento e formação ao Ocidente que globalmente se diz cristão, desde as Montanhas Rochosas até os Urais, e é incontestável que esse mundo cristão que se define de Primeiro Mundo está no centro das injustiças que são a causa da fome de milhões de seres que o catecismo nos ensinou a chamar de irmão: eu volto para o Brasil e não posso voltar para lá ostentando no peito uma medalha que premia a minha atividade de ‘missionário’, representante de uma civilização cristã que despoja da terra seres humanos que nela vivem há séculos antes de Cristo. E essa espoliação dura desde 1492.

Força revolucionária nos jovens

1“Hoje, eu gostaria de reencontrar a força revolucionária positiva desses povos nos nossos jovens, mas eles estão apagados…”. Ele fixa nos olhos Benedetta, que tenta se defender e defender a sua geração: “Mas, Arturo, esse modo diferente de viver o Evangelho com leveza e ao mesmo tempo de forma extremamente profunda, como tu nos ensinaste, também já representa para nós uma pequena revolução…”. Frei Arturo concorda. Ele compreende as razões dos jovens de um Ocidente esvaziado e aniquilado, e mostra um pequeno livro. “No ano passado, eu escrevi este panfleto, La rinascita dell’Italia, em que denuncio o fato de que não se podem calar as graves responsabilidades da política, os roubos cometidos pelos dragões de uma classe dominante que não parece levar em conta a pobreza crescente do nosso povo. O desvio político, no entanto, é o espelho dessa moral… Nunca se viram, como hoje, tantas ‘uniões’ tão apressadas e que também se dissolvem depois muito rapidamente. A incapacidade de amar é o grande mal do ser humano”. 

Depois do encontro com o papa Francisco: “A fé só cresce onde há caridade”

Jesus nos fala de fé: o que é essa fé? É uma força interna, que nos ajuda não a viver despreocupadamente sem um projeto, mas sim na verdade. Cada um de nós que vem ao mundo é uma pessoa, um ser, uma força com a qual Deus conta. Uma força que vai rumo ao amor. Nós somos chamados hoje a colaborar com uma força de caridade seja porque este mundo nos apresenta muitas misérias, muitos sofrimentos, muitos vazios, seja porque o papa nos dá o exemplo descendo às ruas como guia para aqueles que sofrem. Em Assis, o papa Francisco também nos recomendou a sermos pobres, porque a nossa fé não é uma força estável, mas é uma energia que se torna forte quando desemboca na caridade. É isso que o nosso papa quer demonstrar indo ao encontro de pessoas que não são crentes na fé, mas manifestam uma força de caridade e de inteligência na compreensão do mal e do sofrimento.

O papa tem uma visão ampla, não vai apenas ao encontro dos pobres, das pessoas que precisam de ajuda, mas também se alia com aquelas pessoas que têm uma fé implícita, que declaram não poder chegar à fé teórica, porque as suas ideias se opõem a ela, mas, de fato, vivem o amor aos outros. Eu penso que o pensamento do papa é este: a fé deve se tornar caridade, alteridade, deve ter superado todas as formas de egoísmo. Não é somente catecismo, é a coragem de vencer o nosso egoísmo, de não acreditar que se tem a caridade por ter dado alguns trocados.

A caridade é algo que explode, que nos questiona por dentro profundamente, que nos toca no peito: o que você faz pelo seu irmão? Você venceu o seu egoísmo, essa grave doença que a maior parte dos homens carrega dentro de si? Você superou esse adversário tenaz? Então você pode dizer que tem a fé. Não é porque você recita o credo e adere a ele racionalmente que você pode dizer que tem fé. A fé só cresce com a caridade. E esse é o grande ensinamento do Evangelho que o Papa Francisco atualiza através da prática da sua vida.

Trecho de uma entrevista em 2011

1. O que significa ser autêntico?

A autenticidade é a primeira qualidade da pessoa. Autêntico equivale a verdadeiro. Desde a infância, a realidade nos inclina a adaptações: a mãe é uma mulher frágil e, portanto, quando quero obter alguma coisa dela, eu sei como fazer para que o “não” torne-se “sim”. O pai é um homem que se enraivece e chega a me bater. Assim, aprendo a lhe esconder o que eu penso, digo e faço. Crescendo, dou-me conta de que essa é a lei do viver social. Aproximo-me da autenticidade quando um grande ideal dirige as minhas energias interiores e as concentra em um ponto. Não conheço uma definição da pessoa autêntica melhor do que a que foi dada por Paulo na carta aos Efésios (4, 15): fazer a verdade no amor.

2. Como se educa para a autenticidade?

Educa-se por meio da fidelidade. Eu acredito que a autenticidade é um valor religioso no sentido de que devemos ter a primeira coerência com Deus, que não se pode enganar. Isso não quer dizer não cometer pecados, porque devemos sempre reconhecer a nossa fragilidade e a nossa fraqueza, mas quando não há coerência entre o que somos e o que aparece de nós é a prova de que não amamos seriamente as pessoas que nos circundam. É o fracasso da vida, e, infelizmente, isso acontece frequentemente.

3. Mas existe a possibilidade de mudar?

Penso que a Igreja afasta as pessoas pela sua excessiva intransigência com relação a certos princípios que a pessoa não está em condições de seguir. Não significa deixar que as coisas continuem como estão, mas sim aceitar a fraqueza da pessoa humana, ao invés de recusá-la por meio da afirmação intransigente dos princípios cristãos. O nosso irmãoGiorgio Gonella, no seu livro sobre o deserto, escreveu um belíssimo capítulo sobre a misericórdia de Deus: Deus não diz “está tudo bem”, mas a sua atitude é manifestada perfeitamente no episódio de Jesus na casa do fariseu, quando entra a mulher pecadora. O fariseu se escandaliza e lhe diz: “Se tu conhecesses essa mulher…”. Jesus, com efeito, a conhece, mas conhece também a sua dor, o seu sofrimento, o seu pranto que tem uma força de conversão e de transformação da sua vida que ela mesma não esperava. Certamente, há ambientes em que facilmente somos arrastados pelo negativo, mas sempre há a possibilidade do retorno que apaga o passado, uma possibilidade de mudança.

Olhando para o futuro aos 100 anos

Na minha fraqueza moral e física, ainda sinto que estou de pé alegremente, com força, porque o modelo único está ao meu lado, me dá força e principalmente me dá a esperança do viver e a alegria do morrer. O que é mais belo, viver ou morrer? Eu não sei. Se ele me dissesse: que escolha você faz da sua vida, quer ainda viver um pouco ou quer morrer logo? Eu não sei, escolha você, Amigo meu, qualquer escolhe que você me fizer me faz feliz.

Como é bom ter escolhido durante a própria vida, com todas as falhas que cometemos necessariamente, conservar a fé. São Paulo, o grande apaixonado por Cristo, pode dizer: “Conservei a fé, fiquei em pé e espero o prêmio que tu me darás”. Não há ninguém que tenha falado com tanta força e com tanta esperança. Iniciamos um tempo novo, não estamos nos desencorajando pelos tempos escuros, tristes, da decadência que estamos vivendo. “Estarei com vocês até o fim do mundo” – estarei com vocês, mas vocês devem me buscar, devem ter presente continuamente que eu estou perto de vocês. Então, por que nos desencorajar?

É bom viver com o Cristo. Quantas vezes todos os dias, quanto alguém me comunica que se sente desencorajado, sente tristeza, cansaço, eu repito: estarei com vocês até o fim do mundo – estarei com você, não importa que você não me veja fisicamente. Não sente essa força diferente da sua que vive em você?

Elevemos os olhos, olhemos para o futuro, sintamos a esperança de viver olhando longe. Não importa se no presente vemos tantas coisas tristes e erradas, acima de tudo a de preferir o dinheiro à pessoa.

Todas as manhãs, elevem os olhos e chamem-no: Cristo Jesus, mantém as tuas promessas, sede a minha força, a minha ajuda, a minha alegria, a minha esperança, ó Amigo meu.

Partida para a casa do Pai

Em silêncio, na madrugada de hoje, 13 de julho, partiu Arturo Paoli, um dos mais importantes profetas da Igreja dos pobres. Um patriarca. Em novembro faria 103 anos de vida. Foi um dos grandes testemunhos de um Evangelho vivido como práxis de libertação na Itália, na Argentina, onde chegou num transatlântico em 1960, na Venezuela, no Brasil (em São Leopoldo, Foz do Iguaçu…). Foi um dos pais da Teologia da Libertação. E também um Justo entre as Nações por ter ajudado a judeus em fuga durante a Segunda Guerra Mundial, acolhendo-os no seminário de Lucca. Uma vida dedicada totalmente aos outros, mas também ao estudo e às publicações que tanto contribuíram na formação de várias gerações. Arturo Paoli pertencia à congregação dos Pequenos Irmãos do Evangelho.

Fonte:

http://www.ihu.unisinos.br/noticias/516104-arturo-paoli-uma-biografia

http://www.ihu.unisinos.br/noticias/42491-coerente-consigo-mesmo-e-com-deus

http://www.ihu.unisinos.br/noticias/516102-o-evangelho-segundo-o-frei-arturo-paoli

http://www.ihu.unisinos.br/noticias/515221-olhando-para-o-futuro-aos-100-anos

http://www.ihu.unisinos.br/noticias/544538-arturo-paoli-partiu

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