Celebração no Encontro Nacional de Juventudes e Espiritualidade Libertadora
Celebração: Encontro Nacional de Juventudes e Espiritualidade Libertadora

É escrevendo, seja um romance, um conto, um poema, uma música, ou expressando um sentimento através da arte que o ser humano se consola (ou em certos casos, apenas tenta se consolar). Assim, Antonia Bird, não apenas se consolando, mas buscando uma solução para uma questão pessoal, colocou na boca do seu personagem Pe. Greg, na obra cinematográfica O Padre (1994), aquilo que talvez a incomodasse: “quando criança era levada à missa pelos pais, enquanto adulta, conduzia os filhos à igreja… Por quê?”. Todos, no percurso de uma caminhada de fé, estão sujeitos a cair em incertezas.

Dessas incertezas nascidas de uma projeção da autora para um filme, também poder-se-á projetar questionamentos possíveis a um líder na comunidade eclesial (não necessariamente, um ministro ordenado), tais como: “O que leva alguém, no contexto atual, a ser cristão? Como iluminar as perplexidades cotidianas dos cristãos contemporâneos em suas práticas religiosas? Como motivar as pessoas, que se assumem enquanto cristãos, a participarem, de fato, dos ritos e celebrações cristãs?”. Certamente, questões bastante desafiadoras.

É notório que na sociedade pós-moderna, geralmente, as pessoas anseiam por algo que a Igreja não pode atender, porque não é compatível com a sua missão e pregação. Querem resolver problemas por métodos fáceis e instantâneos (ou “miraculosos”, diria em linguagem religiosa deturpada), e assim transformar a religião num mercado mágico que existe para conveniência. Seguem um ideal de Mercado, onde devem receber por aquilo que pagam (no caso, o dízimo). Outras vezes, a igreja passa a ser considerada, tão somente, como um local de encontros sociais, onde os fiéis se dirigem para dar satisfação segundo costumes sociais ou até mesmo um lugar de auto-ajuda, onde simplesmente se encontram consigo mesmas.

Muito presente nessa realidade pós-moderna é o número dos problemas sociais, tais como injustiça, corrupção, violência, miséria, descaso com o outro e até mesmo o medo do mundo. Geralmente é nesses momentos que o homem, tantas vezes perdido, busca a Deus. Porém, quase sempre, um deus sem rosto, sem identidade, sem projeto, reduzido a uma mera energia, força maior ou fonte de milagres para quem vive no meio dessa fria selva de pedra. Ou ainda, um deus que, por prometer fazer o que é nosso dever, nos infantiliza.

Muitas pessoas, por experimentarem o peso de uma religião impositiva e moralista, acabam deixando de lado ou mesmo perdem a fé em Deus. Outras, por terem tido acesso a oportunidade de aumentar o seu capital intelectual e cultural, julgam irrelevante a fé em um Deus invisível que, sem demonstração racional, exige a prática da justiça e da misericórdia e do amor ao próximo. Consequentemente, desferem a mesma sentença em relação às instituições que anunciam esse Deus. Mas, em contraste a isso, continuam a procurar curas milagrosas em outros meios (soluções mágicas para as crises financeiras, físicas e ou afetivas), a sentir fome e sede de experiências de sentido (busca exacerbada de consumo, uso de psicotrópicos, álcool etc.) e a frequentar ritos desinstitucionalizados (ritos de yoga, salas de meditação, sessões de cromoterapia, musicoterapia, dinâmicas de relaxamento ou que prometem o encontro com o próprio eu etc.). Surge o questionamento: então por que o abandono da religião ou, no caso do cristão, da Igreja?

Não seria por que a Igreja é uma instituição de tradição e de responsabilidade, que, geralmente, favorece o vínculo de fraternidade e o compromisso de seus fiéis com a construção de uma sociedade justa, inclusiva e ecológica, enquanto outros “apriscos” não têm isso como fundamento? Ou quem sabe, por viverem em um mundo sedutor de gastos desenfreados que os faz reféns da busca insana pela acumulação de dinheiro, tendem a negar quando encontram um lugar que os libertam para que, de fato, possam ser livres? Uma espécie de medo à liberdade, fazendo uma referência a Erick Fromm.

Na sociedade pós-moderna, percebe-se contradições nas posturas religiosas ou avessas à religião: umas rejeitam, simplesmente, a religião por julgarem-na ultrapassada, outras a procuram por diversas motivações, mas, o que, de fato, buscam?

Então o ser humano, enquanto ser religioso participa das celebrações: Por que tem medo de Deus e de ser condenado? Ou, por que ele quer ser recompensando por ter participado metodicamente das “reuniões” dominicais? O cristão que entende sua fé não aceitará essas justificativas, mas dirá que participa das celebrações eucarísticas porque ama a Deus, simplesmente por amor a Ele. Assim, o fiel justifica o motivo de ter sido, um dia acompanhado pelos pais e estar fazendo o mesmo com os filhos conduzindo-os para a igreja, o local do encontro com a comunidade que professa a mesma fé, o mesmo amor pelo mesmo Deus.

Celebração do compromisso de irradiar com a nossa vida os valores do Evangelho.
Celebração: compromisso de irradiar com as nossas atitudes e posturas os valores do Evangelho.

Frente a isso, cabe aos pastores desse povo juntamente com as lideranças leigas e agentes de pastoral, favorecerem uma liturgia bem preparada, envolvente e participativa, com partilha da Palavra bem aprofundada, com reflexões meditativas que tocam a interioridade, despertam a sede de Deus e favorecem o encontro com o Mistério de Deus ali presente em Jesus Ressuscitado na força e na luz do Espírito Santo. Importa evitar que o mistério eucarístico celebrado torne-se algo banal e simplório. Ao contrário, que ele seja vivenciado como um gesto profundamente simbólico de Jesus Cristo que reflete e atualiza o que é revelação por meio de sua pessoa para toda a humanidade: que Deus tem um projeto amoroso e salvífico universal, algo que nos liberta para a prática do amor uns para com os outros. Urge, então, que cada rito sacramental seja vivenciado, pelo cristão, como alimento espiritual que provoca conversão e crescimento na fé, bem como no compromisso ético de participar da construção da sociedade justa, fraterna e ecologicamente sustentável.

Celebração: juntos na mesma caminhada da fé no projeto de Deus revelado na vida de Jesus Cristo.
Celebração: juntos na mesma caminhada da fé alimentados pelo projeto de Deus revelado na vida de Jesus Cristo.

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Paulo Vinícius Faria Pereira

Jovem cristão, estudante de Ciências Sociais e de Teologia da PUC Minas

Participou da Jornada Mundial da Juventude

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