Conferência de Abertura com o Prof. Dr. Pe. Pedro Trigo, SJ
Conferência de Abertura com o Prof. Dr. Pe. Pedro Trigo, SJ

A conferência de abertura do 28º Congresso da SOTER, ministrada pelo jesuíta venezuelano Pedro Trigo, sublinhou a grande dificuldade atual da convivência democrática entre pessoas diferentes e o desempenho não secular, sagrado, da instância econômica, como instância incondicionada, deus. São globalizados o poder do capital e as mercadorias. No entanto, os seres humanos, sobretudo dos países empobrecidos, não têm liberdade de mover-se e atuar mundo afora.

A secularidade foi idealizada pela modernidade para favorecer a convivência democrática, pacífica entre os diferentes, afirmou o conferencista. E há que seguir crescendo nisso. Só que, na prática, a esfera política não é realmente democrática, a política representa sujeitos concretos, com sua cultura e sua religião e à medida que cresce a concepção individualista de cada sujeito, não há espaço para a democracia real. Para que essa democracia de fato existisse, teria que haver um a dimensão cidadã com uma densidade e relevância que hoje não existe. Porém, não se alcançará tal densidade se o cidadão não é, de fato, um componente da cidade que contribui para edificá-la; ao contrário, é um indivíduo individualista em uma luta contínua contra os demais para sobreviver e conseguir atingir seus objetivos em um espaço-tempo extremamente concorrido e com bens escassos para o que cada um pretende.

Nenhuma instituição é sagrada nem absoluta, só as pessoas, a cujo serviço deveriam estar as instituições, que devem contribuir de algum modo para o bem da cidade e dos cidadãos. À política cabe velar para que todas as instituições contribuam de um ou outro modo para a interação simbiótica dos cidadãos. A secularidade implica que nenhuma instância é absoluta; nem a esfera econômica. Portanto, se quiser ser consequente à sua própria exigência, a secularidade reivindicará que a política não substitua a esfera religiosa, em sua pretensão de transcendência. As instituições representam os cidadãos, portanto, não têm mais densidade que estes, antes, menos. Logo, as pessoas e suas relações são sempre superiores às instituições políticas, que estão a seu serviço.

Assim, cada nível da realidade não é autônomo, autoproduzido e autorregulado, estão produzidos para seres humanos e interatuam entre si. Mas, para que a política seja realmente democrática as pessoas têm, de fato, que ser mais densas que as corporações e os grandes financistas. O são? Até que ponto a democracia, a esfera política, a esfera pública é capaz de formar pessoas tão densas? A educação, os meios de comunicação social conseguem isso? Qual o papel da teologia nessa reflexão?

Como Jesus não é o Messias político, a comunidade que sai dele também não. A salvação acontece na história, tem por sujeitos os seres humanos e consiste em sua qualificação como fraternidade das filhas e dos filhos de Deus; portanto, a instituição eclesiástica não é sagrada. Agora, os seres humanos o são.

A teologia latino-americana insiste que muitos são ateus porque rechaçam a imagem deformada de Deus que conhecem. Essas falsas imagens de Deus pululam porque há muita idolatria entre os cristãos. Essa é a razão para a Teologia da Libertação insistir que a idolatria é um problema mais radical que a secularização. Assim, cabe-nos questionar que Deus é apresentado? Essa pergunta se agudiza com o escândalo de que nós anunciamos a um Deus crucificado pelos ídolos desse mundo, pelos poderes sacralizados e fetichistas.

O mais escandaloso é que, a respeito desses endeusados, o Deus cristão se apresenta como sem poder; não porque não o tenha, o tem infinitamente, mas porque seu poder não consiste em impor-se pela força, chegando, se necessário for, a matar. Ao contrário, o Deus cristão vence o mal pelo bem, respeitando sempre a liberdade de todos.

Daí a afirmação do Professor de que a cidade não pode contentar-se com o que é exigido pelo contrato que a funda. Ela necessita de resultados de uma religião que fomente humanidade, a qual deve ser vivida pelos seguidores de Jesus: Ele não é Messias político e a salvação que ele traz tem como âmbito a vida histórica, não a religião organizada. O sujeito e o destinatário dessa salvação são as pessoas, as comunidades, o povo de Deus e, tendencialmente, toda a humanidade.

A pós-secularização poderá oferecer o reconhecimento que tal religião traz para a cidade. Ali, há aqueles que não vivem para sobreviver, mas para viver na reciprocidade de dons, na celebração. Vivem com dignidade e proativamente e convivem solidariamente. Profissionais solidários que, por opção, capacitam-se constantemente não para subir na pirâmide social, mas para melhor colocar seus dons a serviço de projetos de vida alternativos. Pessoas assim são sujeitos de uma verdadeira secularidade, a qual só é possível em uma democracia real, de cidadãos que buscam o bem da cidade.

Só se nos assumirmos como pessoas que são sempre irmãs entre si, colocando os dons a serviço uns dos outros, só se considerarmos o ser humano sagrado é que relativizaremos qualquer dimensão identitária e econômica. É imprescindível, para isso, o fomento do pessoal nos seres humanos, do transcendente. Cidadãos religiosos e não-religiosos necessitam empreender um processo de aprendizagem mútua. Nenhum problema será resolvido enquanto as pessoas não tiverem mais densidade que as corporações e, sobretudo, que os grandes investidores.

Prof. Tânia Jordão

Pela Equipe Executiva do Observatório

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