Sandra Duarte de Souza
Prof. Sandra Duarte de Souza

A primeira conferência da manhã desta quarta-feira (15/07/15), no 28º Congresso Internacional da Sociedade de Teologia e Ciências da Religião – Soter, que ocorre na PUC Minas, foi a palestra da professora Sandra Duarte de Souza, da Universidade Metodista de São Paulo.

Intitulada “Secularização e espaço público: uma conversa sobre religião e política no Brasil contemporâneo”, a conferencista iniciou sua intervenção convidando os ouvintes para um passeio etnográfico à Favela de Heliópolis, em São Paulo. Numa sexta-feira da paixão (dia tradicionalmente dedicado ao jejum e à abstinência de carne, pela Igreja Católica), duas cenas simbólicas são apresentadas: a primeira, homens fazendo um churrasquinho, regado à funk, axê, rock em plena rua e, noutra, as mulheres nos cultos dos templos evangélicos.

As cenas nos remetem ao tema da secularização. Mas, também, a questão dos espaços de poder definidos política e socialmente para o lugar dos homens (público) e o das mulheres (espaço privado; no caso, os templos).

Há uma extensa discussão sobre as questões que envolvem a secularização: para alguns, trata-se da periferização da religião nas sociedades contemporâneas; ou seja, há uma gradual perda de espaço da religião como matriz significante ou como poder estruturante da sociedade. Para outros, há, ao contrário, uma revitalização do sagrado. Nos dizeres de Peter Berger, sociólogo e teólogo luterano austro-americano, “o mundo atual é tão ferozmente religioso quanto antes”. Se por um lado há uma significativa perda de poder da influência das Igrejas nas sociedades contemporâneas, por outro, o lugar das religiões continua como disputa central nas negociações entre vários segmentos que vocalizam suas preferências nas arenas públicas.

Para demonstrar a centralidade das disputas religiosas no espaço público contemporâneo, Sandra Duarte fez referência ao incremento da presença de bancadas religiosas nos Parlamentos (Câmaras, Assembleias Legislativas e no Congresso). Lembrou, também, que em campanhas eleitorais majoritárias, como a disputa para a presidência da República, por exemplo, a “peregrinação” de candidatos a templos católicos e evangélicos tem se destacado cada vez mais, apesar de tais visitas sinalizarem a centralidade da Igreja Católica e de grandes denominações religiosas em detrimento, por exemplo, de religiões com contingentes minoritários, como as religiões de matriz africana, dentre outras.

 

Secularização, poder religioso e o debate sobre ideologia de gênero

            Parte significativa da exposição foi dedicada à apresentação do debate que se travou, recentemente, sobre a chamada “ideologia de gênero”. Segundo a expositora, desde o início da discussão do Plano Nacional de Educação (PNE), em 2010, cuja diretriz – definida pela Conferência Nacional de Educação – deveria priorizar um modelo educacional pautado na justiça social, com respeito à diversidade, recrudesceu um embate entre vários segmentos sociais em torno de disputas políticas e simbólicas sobre temas como as desigualdades de gênero, raça-etnia, orientação sexual e desigualdades regionais.

            Ainda segundo a palestrante, com a entrada de grupos religiosos no debate, notadamente “grupos conservadores”, toda a discussão acerca das desigualdades (que, historicamente, definem os espaços de poder dos vários grupos sociais) foi reduzida a uma disputa sobre entendimentos acerca de gênero, identidade de gênero, orientação sexual. Portanto, a pauta política do debate tomou contornos marcadamente religiosos, com viés moralista, em detrimento das reais disputas sobre o papel das mulheres e de outros grupos minoritários, como os segmentos de gays, lésbicas, homossexuais, transexuais e transgêneros na sociedade brasileira contemporânea.

            Sob o argumento de que a ideologia de gênero é uma ameaça real à família, os grupos religiosos utilizaram diversos canais, principalmente as mídias digitais, para divulgar a ideia de que o Governo brasileiro, ao incluir no PNE as desigualdades (de gênero, raça-etnia, orientação sexual etc.), escamoteava a verdadeira intenção do plano que seria a de “destruir a família”.

Outro segmento fortemente confrontado pelos setores religiosos, criando um “pânico moral” na sociedade, foi o movimento feminista. Classificadas por alguns religiosos de distintas confissões cristãs como “verdadeiras meretrizes”, as feministas estariam vendendo-se a interesses ocultos de órgãos internacionais, como a ONU, que financiariam as campanhas para a destruição das famílias em nível global.

Segundo a expositora, por detrás da guerra contra os movimentos feministas estaria uma histórica disputa entre os grupos hegemônicos da sociedade contra a presença das mulheres no espaço público. Alguns segmentos religiosos sempre lutaram pela limitação da mulher ao espaço privado. O discurso da incompatibilidade da ação da mulher no espaço público, para garantir a “realização de sua maternidade”, encobriria a verdadeira disputa pela divisão política do poder na sociedade, onde sempre houve a predominância do homem.

Concluindo sua explanação, Sandra de Souza lembrou que o lugar e o papel da religião na sociedade ainda são pouco discutidos. Menos discutida ainda é a ação política de grupos religiosos hegemônicos na definição de poder no espaço público; principalmente quando, propositadamente, grupos sociais minoritários são excluídos da participação efetiva na sociedade, através de forte lobby e pressão baseados no discurso religioso conservador.

Prof. Robson Sávio Reis Souza

Pela equipe executiva do Observatório

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