O anúncio do Evangelho: Papa Francisco exorta sobre a homilia

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Em sua primeira exortação apostólica, a “Evangelii Gaudium“, verdadeira carta programática de seu pontificado, papa Francisco dedica todo o capítulo III ao importante tema do anúncio do Evangelho. E, logo no início enfatiza que todo o povo de Deus anuncia, com palavras, posturas e atitudes, o Evangelho. Neste capítulo, ocupa significativo espaço as suas preocupações com a homilia na Liturgia da Igreja.

Como recebemos inúmeras reclamações de leigos e leigas da baixa qualidade das  atuais homilias, sobretudo, as proclamadas em nossas celebrações eucarísticas, resolvemos disponibilizar aqui algumas das provocantes exortações do papa Francisco dirigida a todos os fieis da Igreja Católica. Entre as tantas queixas que nos chegam merecem destaque: elas não prendem a atenção; são quase sempre longas demais; pecam pela clareza e objetividade; parecem que não foram preparadas; não aquecem o coração; desligadas da nossa vida; são muito moralistas; não despertam a reflexão; subestimam a nossa inteligência.

Passemos, então, às provocações do papa Francisco na “Evangelii Gaudium”. Os números  de 135 a 144 discorrem sobre a homilia:

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Ele abre a sua reflexão enfatizando que, diante de tantas reclamações, é urgente uma séria avaliação por parte dos Pastores. Ele afirma que “a homilia é o ponto de comparação para avaliar a proximidade e a capacidade de encontro de um Pastor com o seu povo. De fato, sabemos que os fiéis lhe dão muita importância; e, muitas vezes, tanto eles como os próprios ministros ordenados sofrem: uns a ouvir e os outros a pregar. É triste que assim seja. A homilia pode ser, realmente, uma experiência intensa e feliz do Espírito, um consolador encontro com a Palavra, uma fonte constante de renovação e crescimento” (nº 135).

E ele nos recorda que a pregação “se funda na convicção de que é Deus que deseja alcançar os outros por meio do pregador e de que ele mostra o seu  poder pela palavra humana” (cf. Rm 10, 14-17). E lembra que Jesus pela palavra conquistou o coração das pessoas e, de todas as partes, vinham para ouvi-Lo (cf. Mc 1, 45) e ficavam maravilhados (cf. Mc 6, 2), experiência que os discípulos deram continuidade (Mc 16, 15.20). (nº 136)

Depois de colocar como exemplo a pregação de São Paulo, o Papa, recorda João Paulo II, quando este assinalou que “a proclamação litúrgica da Palavra de Deus, principalmente no contexto da assembleia eucarística, não é tanto um momento de meditação e de catequese, como sobretudo o diálogo de Deus com o seu povo, no qual se proclamam as maravilhas da salvação e se propõem continuamente as exigências da Aliança“. E mostra que por isso “reveste-se de um valor especial a homilia, derivado do seu contexto eucarístico, que supera toda a catequese por ser o momento mais alto do diálogo entre Deus e o seu povo, antes da comunhão sacramental. A homilia é um retomar este diálogo que já está estabelecido entre o Senhor e o seu povo” e destaca que “aquele que prega deve conhecer o coração da sua comunidade para identificar onde está vivo e ardente o desejo de Deus e também onde é que este diálogo de amor foi sufocado ou não pôde dar fruto“.(nº 137).

Por isso, em número paradigmático, continua Francisco, “a homilia não pode ser um espetáculo de divertimento, não corresponde à lógica dos recursos mediáticos, mas deve dar fervor e significado à celebração“. E mostra que se trata de “um gênero peculiar, já que se trata de uma pregação no quadro duma celebração litúrgica; por conseguinte, deve ser breve e evitar que se pareça com uma conferência ou uma lição. O pregador pode até ser capaz de manter vivo o interesse das pessoas por uma hora, mas assim a sua palavra torna-se mais importante que a celebração da fé. Se a homilia se prolonga demasiado, lesa duas características da celebração litúrgica: a harmonia entre as suas partes e o seu ritmo“. E, como se não bastasse, ao continuar afirma, claramente, que “quando a pregação se realiza no contexto da Liturgia, incorpora-se como parte da oferenda que se entrega ao Pai e como mediação da graça que Cristo derrama na celebração. Este mesmo contexto exige que a pregação oriente a assembleia, e também o pregador, para uma comunhão com Cristo na Eucaristia, que transforme a vida. Isto requer que a palavra do pregador não ocupe um lugar excessivo, para que o Senhor brilhe mais que o ministro“. (nº 138)

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Em seguida, ele, com grande ternura, recorda que “a igreja é mãe e prega ao povo como uma mãe fala ao seu filho, sabendo que o filho tem confiança de que tudo o que se lhe ensina é para seu bem, porque se sente amado… assim deve acontecer também na homilia“, pois, o “idioma materno” é uma linguagem que “transmite coragem, inspiração, força, impulso”. (nº 139)

Enfatiza, em seguida, que o “âmbito materno-eclesial”, para se tornar fecundo e dar fruto no coração, deve ser “cultivado por meio da proximidade cordial do pregador, do tom caloroso da sua voz, da mansidão do estilo das suas frases, da alegria de seus gestos“.(nº 140)

E corajosamente afirma: “Creio que o segredo de Jesus esteja escondido em sua maneira de olhar o povo além das suas fraquezas e quedas… O Senhor compraz-Se verdadeiramente em dialogar com o seu povo, e compete ao pregador fazer sentir este gosto do Senhor ao seu povo“. (nº 141)

E sem meias palavras afirma que “a pregação puramente moralista ou doutrinadora e também a que se transforma numa lição de exegese reduzem esta comunicação entre os corações que se verifica na homilia e que deve ter um caráter quase sacramental: ‘A fé surge da pregação, e a pregação surge pela palavra de Cristo’ (cf Rm 10, 17)”. E diz que “na homilia, a verdade anda de mãos dadas com a beleza e o bem. Não se trata de verdades abstratas ou de silogismos frios, porque se comunica também a beleza das imagens que o Senhor utilizava para incentivar a prática do bem. A memória do povo fiel, como a de Maria, deve ficar transbordante das maravilhas de Deus. O seu coração, esperançado na prática alegre e possível do amor que lhe foi anunciado, sente que toda a palavra na Escritura, antes de ser exigência, é dom“. (nº 142)

Para o Papa, “o pregador tem a belíssima e difícil missão de unir os corações que se amam: o do Senhor e os do seu povo“. (nº 143)

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E termina dizendo que “falar com o coração implica mantê-lo não só ardente, mas também iluminado pela integridade da Revelação e pelo caminho que essa Palavra percorreu no coração da Igreja e do nosso povo fiel ao longo da sua história“. E, de modo preciso, Francisco declara que “a identidade cristã que é aquele abraço batismal que o Pai nos deu em pequeninos, faz-nos anelar, como filhos pródigos – e prediletos em Maria –, pelo outro abraço, o do Pai misericordioso que nos espera na glória. Fazer com que o nosso povo se sinta, de certo modo, no meio destes dois abraços é a tarefa difícil, mas bela, de quem prega o Evangelho“. (nº 144)

Que essa memória, quase literal, das palavras de Francisco provoque em cada Pastor o desejo de sincera conversão pastoral e o desejo, urgente, de dedicar-se ao cultivo de outra prática homilética.

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