11722075_869093126506575_5758201298626845599_o

Na segunda parte da manhã do dia 15/07/15, o 28º Congresso Internacional da SOTER ofereceu aos participantes uma mesa redonda sobre o tema “Religião e Secularização”. Contou com duas reflexões, uma do prof. Dr. José Paulo Giovanetti, da Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia – FAJE, e outra do prof. Dr. Pedro Trigo, da Venezuela, conferencista da noite de abertura, seguida de resposta às perguntas levantadas pelos participantes.

O prof. Giovanetti apresentou o tema “A religião como força organizadora da subjetividade na contemporaneidade”. Recordou as transformações da civilização ocidental, sobretudo, na forma de organizar a vida pessoal, social e política e na geração de valores. Apontou, em seguida, o maior impacto que o processo de secularização provocou na religião, a partir do século XVII: a perda da centralidade ou do lugar privilegiado que ocupava nas sociedades antigas (enquanto força organizadora decisiva da sociedade) para o sujeito pensante tornado, a partir de então, a maior instância de determinação em todos os níveis da vida. A partir dessa constatação introdutória, sua apresentação voltou-se, primeiro, para a busca de caracterização da sociedade atual e, segundo, para a busca do novo lugar ou papel da religião. Destacou a centralidade da subjtividade, a tendência ao autocentramento dos indivíduos e da busca da felicidade light situada no prazer e no hiperconsumo. Em seguida, enfatizou que a religião, relegada ao espaço privado, é chamada a transformar-se numa nova força organizadora, mas, não mais da sociedade, e sim da existência humana. Trata-se de oferecer aos indivíduos um caminho para o descentramento narcisista das subjetividades a partir de experiências de sentido, de relação com a transcendência ou sobrenatural e do cultivo do amor mútuo.

O prof. Pedro Trigo situou a sua contribuição como o olhar de teólogo cristão do terceiro mundo. Voltou a enfatizar as premissas desenvolvidas na conferência de abertura do Congresso. Frisou a necessidade do rigor do conceito e da explicitação das exigências políticas e teológicas para alcançarmos a concretização de autêntica secularidade. Esta precisa se equilibrar com a pós-secularidade, pois o que garante a sacralidade de cada ser humano como pessoa vem do que ele chama de pré-político, algo que exige transcendência. Enfatizou que, mesmo conectados, ainda não vivemos uma globalização de fato, pois, quase todos somos expectadores do que é, assimetricamente, decidido e que nos é mostrado e interpretado pelos olhos dos grupos mais poderosos do primeiro mundo. Muitos não são sujeitos ativos da história numa democracia liberal. Há grandes dificuldades de conviver democraticamente com os culturalmente diferentes e socioeconomicamente marginalizados. Os capitais e as mercadorias, sim, não têm fronteiras e circulam por todo o mundo, mas os seres humanos do terceiro mundo, reduzidos a meros consumidores, têm cada vez mais restrições para mover-se com liberdade. Colocou como condição básica a necessidade de desconstruir toda lógica idolátrica de sacralização das instituições religiosas, do mercado e as instituições políticas que estão a serviço do status quo. E defendeu que só as pessoas são sagradas e que, por isso, tudo deve estar a serviço da universalização do acesso à cidadania, em última instância, devido a igual dignidade de cada ser humano como pessoa, filho ou filha de Deus. Defendeu uma configuração da vida cristã que seja sacramento da fraternidade universal, sem ceder a qualquer privilégio ou tentação autosacralizadora ou de viés, politicamente, messiânico. Terminou defendendo a necessidade de uma educação para a cidadania e não apenas de capacitação técnica. O Estado e a Religião devem apoiar e cultivar tudo o que nos humaniza e o que garanta, a todos, o acesso a cidadania enquanto membros do conjunto da humanidade.

Prof. Edward Guimarães

Pela Equipe Executiva do Observatório

Anúncios