Prof Dr. Frei Luiz Carlos Susin
Prof Dr. Frei Luiz Carlos Susin

Encerrando o 28º Congresso Internacional com “chave de ouro” – nos dizeres do Pe. Jaldemir Vitório, presidente da Soter -, o frei capuchino, doutor em Teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma e professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Luiz Carlos Susin, discorreu sobre o tema “A religião no espaço público: a busca de sanidade entre fanatismo e esquizofrenia”.

Susin iniciou sua conferência recordando a passagem bíblica na qual Jesus afirma que a “fé remove montanhas” (Marcos 11, 23; Mateus 17, 20; 21,21; 1 Coríntios 13,2). Neste sentido, disse o palestrante, a fé é uma potência, capaz de construir e destruir; criar pontes ou muros.

O teólogo alemão E. Drewermann pontua que a boa religião fortalece a confiança, a generosidade, a flexibilidade e a liberdade do crente. Ao contrário, há também uma fé que atemoriza, enrijece e angustia as pessoas.

Os sinais de uma fé madura são expressos na liberdade, autonomia, auto-entrega e fervor do crente. Essas atitudes demandam constante disposição para uma conversão, renascimento e vida nova: “Quando eu era criança, falava como criança, pensava como criança, raciocinava como criança. Desde que me tornei homem, eliminei as coisas de criança” (1 Cor 13,11).

Convicção, certeza e fanatismo

A convicção apela à razão, ao conhecimento, à consciência e não à emoção. Trata-se de uma certeza existencial em movimento que nunca é absoluta; não é uma certeza científica de pretensões imutáveis.

Numa sociedade democrática e plural há sempre espaço para a vocalização de convicções divergentes e opostas.

As convicções inegociáveis na esfera religiosa geraram guerras religiosas em nome de Deus. Ao contrário, as convicções de ordem religiosa devem equilibrar delicadeza e força; ou seja, não se pode anular o outro ou transformar convicções pessoais em certezas divinas. As atitudes dos fanáticos religiosos não admitem a alteridade. Assim, há uma patologia das convicções religiosas daqueles que estão a realizar a vontade de Deus.

É preciso um esforço pessoal e comunitário para um discernimento acerca das convicções. Trabalhar para amadurecer uma consciência crítica, oposta a todo pré-conceito preguiçoso. Afinal, convicções preconceituosas são aquelas cujas certezas pré-fabricadas dispensam as pessoas de pensarem autonomamente. Assim, uma educação religiosa numa sociedade democrática, complexa e plural deve considerar e valorizar o embate do contraditório, um diálogo inter-conviccional. Compartilhar convicções significa enriquecer-se com o conhecimento do outro para evitar mal-entendidos.

Pluralismo, laicidade e hospitalidade

O conferencista lembrou que é incompreensível, por exemplo, a imposição de um texto sagrado numa sociedade plural. E tudo aquilo que destrói o pluralismo favorece o fanatismo. Neste sentido, há expressões patológicas de fanatismo no Congresso Nacional, na atualidade. É inconcebível que autoridades públicas imponham, num estado laico, com um povo marcadamente religioso, um determinado modo de vivência da fé, em detrimento dos demais. Num contexto de pluralismo social, qualquer imposição religiosa, travestida de manifestação da fé e impeditiva do diálogo, corrobora o adoecimento da sociedade.

Como a fé e as religiões poderiam, então, ajudar na construção saudável do espaço público numa perspectiva democrática e plural? Para Susin, há que se apostar numa relação saudável, hospitaleira e fecunda da religião no espaço público. Um bom teste para se provar a maturidade da fé é a hospitalidade em relação às convicções do outro.

A hospitalidade é como uma fronteira (e não o centro); um lócus de construção de pontes e não de muros, bem ao estilo do Papa Francisco.

Para tanto, é preciso valorizar uma hermenêutica das memórias construtivas e positivas: hospitalidade ao invés de hostilidade; evangelização ao invés de cruzadas; diálogo ao invés de imposições.

Assim como a religião é a alma das culturas, para Luiz Carlos Susin “a hospitalidade é a alma das religiões”. Portanto, as religiões e as manifestações da fé devem abrir caminhos para o diálogo entre as pessoas e não para o radicalismo ou os muitos fanatismos.

Prof. Robson Sávio Reis Souza

Pela equipe executiva

do Observatório da Evangelização

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