A conferência que iniciou o dia 16/07/2015, no 28º Congresso Internacional da SOTER, ofereceu reflexões de fronteira. O tema trabalhado pelo sociólogo da religião italiano Enzo Pace despertou a curiosidade dos participantes desde o título: “Deus não precisa de passaporte. Religião e globalização do mundo contemporâneo”. Apresentaremos, a seguir, breve síntese da primeira parte  da conferência.

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Sociólogo da Religião, Prof. Dr. Enzo Pace

As religiões se movem e, de alguma forma, fazem o mundo se mover

O prof. Enzo iniciou, a primeira parte de sua conferência, com uma provocação: perguntou sobre a atualidade da tese do filósofo Walter Benjamin (1892-1940), segundo a qual o capitalismo tem pretensões de verdadeira religião: “ele mesmo é uma religião, um culto incessante sem trégua nem piedade que conduz o planeta humano à casa do desesperoO capitalismo é uma religião que não permite a expiação, mas produz culpa e dívida” (W. Benjamin, Kapitalismus as Religion, 1921). Questionou, em seguida, se a globalização não seria, de fato, a revelação do capitalismo como religião mundial tendo o mercado ocupado o lugar da divindade.

O prof. Enzo instigou os participantes a pensarem o quanto o mundo, com as novas tecnologias (internet, telefonia móvel, meios de transporte…), se tornou menor em termos de mobilidade: viagens, intercâmbios, comércio e, sobretudo, migrações… Procurou, então, mostrar fortes impactos que o contexto de “aldeia global” tem provocado na dinâmica das religiões. Não há religião parada. Elas se tornam cada vez mais móveis e transportáveis, para serem levadas na bagagem dos migrantes, dos missionários ou, mesmo virtualmente, através das novas mídias. Atualmente qualquer pessoa, em qualquer lugar do mundo, pode acessar ou postar a história, o conteúdo doutrinal, os ritos, os símbolos e encantar-se com a estética de qualquer religião, como também destacar, extrair de uma tradição o que desejar e criar uma dinâmica própria de vivenciá-la, e de certa forma, sem qualquer controle institucional.

Descreveu, a título de exemplo, a atual situação italiana. Antes praticamente plasmada e monopolizada pelo cristianismo católico, agora, com cerca de 6 milhões de imigrantes e uma diversidade de comunidades religiosas estranhas e, até pouco tempo, inexistentes neste país. Esse processo de diversificação religiosa provoca configurações e dinâmicas religiosas inéditas. Deu como exemplo, o Papa Francisco que em Lampeduza celebrou uma missa católica sobre um barco com inscrições em árabe do lema Islâmico “Deus é grande” ou na viagem que fez a Jerusalém quando rezou no muro das lamentações!

As grandes religiões tornaram-se assim porque foram capazes de globalizarem-se culturalmente, afirmou. Acontece que elas tinham como força motriz a memória da Palavra, encarnada e situada, de seus fundadores: Buda, Moisés, Jesus, Maomé…, e agora, não obstante reconhecermos, novamente, a tendência de construção de mega templos, nesse mundo globalizado, “as religiões tendem a não ter mais confins”, ou seja, “terras fixas sobre as quais plantar as respectivas tendas”. E disse que elas são, praticamente, “forçadas a desterritorializar-se”. Ou seja, assim como acontece com a circulação do capital, das mercadorias e das tecnologias, as religiões também não têm raízes, pátrias, limites ou fronteiras. Nesse contexto, encontra sentido a afirmação contida no título da conferência: “Deus não precisa de passaporte”.

Nesse mundo globalizado em que as religiões estão em contínuo movimento. Os limites frágeis de uma religião poder ser, segundo ele, comparados com os papéis de parede, para utilizar uma imagem querida de David Martin, que revestem as paredes dos cômodos de nossa casa, tornando o ambiente familiar para nós, mesmo quando apresentam os sinais do tempo, dilaceradas aqui e ali, desbotadas nas cores, fora de moda, talvez. Saindo da metáfora, as religiões, para ele, mostram-se eficazes meios de comunicação que permitem imaginar, em nível macro, um mundo afetuoso e unido e que, de outro modo, seria frio, dividido e indiferenciado. As religiões permitem pensar e esperançar que um outro mundo de significados seja possível além do domínio do útil, do lucro e da primazia dos interesses individuais. Elas por isso podem se tornar, de modo especial para o migrante em situação desterritorializada, um léxico familiar, um hábito do coração que os acompanha nas relações quotidianas da vida.

Disse ainda que se o fenômeno das migrações não é novo, nas sociedades contemporâneas, ele assumiu dimensões notáveis e tem produzido efeitos sociais inesperados: para os indivíduos, para as relações entre pessoas de diferentes culturas e crenças e também para as próprias religiões, que são desafiadas a adaptar-se às novas situações. Desse modo, os confins simbólicos das religiões com o seu conteúdo doutrinal tornam-se, de certa forma, mais maleáveis, adaptáveis e de difícil controle institucional. Deus, deste ponto de vista, e mais do que nunca em um mundo globalizado, não tem necessidade de passaporte, disse retomando o título do livro de Peggy Leavitt. Milhões de pessoas se movem e se deslocam de um continente para o outro, à procura de uma situação de vida melhor. Quando encontram o que procuram e decidem estabelecer-se na terra que as acolheu. As vivências e crenças religiosas desempenham, na nova pátria, no novo lar, um papel fundamental.

Atenção: Aguardem a publicação da segunda e terceira parte da síntese da conferência do prof. Enzo Pace no Congresso Internacional da SOTER, na Puc Minas.

Prof. Edward Guimarães

Pela Equipe executiva do Observatório da Evangelização

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