A conferência que iniciou o dia 16/07/2015, no 28º Congresso Internacional da SOTER, ofereceu reflexões de fronteira. O tema trabalhado pelo sociólogo da religião italiano Enzo Pace despertou a curiosidade dos participantes desde o título: “Deus não precisa de passaporte. Religião e globalização do mundo contemporâneo”. Apresentaremos, a seguir, breve síntese da segunda parte  da conferência.

Sociólogo da religião, prof Dr. Eszon Pa
Sociólogo da religião, prof Dr. Enzo Pace.

Os confins móveis do crer

Na segunda parte de sua conferência, mostrou que o contexto de globalização tende a criar mega diversidades religiosas e cada forma de crer com confins e limites móveis. A diversidade religiosa, graças ao movimento planetário das migrações, acontece em continentes que pareciam, até algumas décadas atrás, imunes ao processo que, de tão profundo, transforma a geografia e a demografia socioreligiosa.

Enfatizou que diante dos novos conflitos, somos chamados a acreditar e, de fato, promover mecanismos sociais de educação para o pluralismo e para um relacionamento no qual pessoas de religiões diferentes se reconheçam enquanto cidadãos portadores de igual dignidade. Ele mostrou que, em muitos lugares, as vivências religiosas promovem encontros culturais e dialógicos, criando-se nova mentalidade religiosa. Deu como exemplo, a boa convivência, sobretudo, na escola entre os filhos de migrantes “sikhs e hindus”, já nascidos na Itália, mas oriundos de um mesmo contexto na Índia marcado pela forte separação. Há a tendência neo-identitária de recorrer à religião para estreitar laços entre quem se sente estranho nas sociedades que os acolhem, com distanciamento dos antigos vínculos de pertença ou de abertura ao diálogo com outros sujeitos de fé religiosa diferentes.

Reconheceu, entretanto, que nesse mundo novo, onde os confins e os limites entre as religiões em movimento não estão mais distantes e, tantas vezes se encontram, voltam a tentação da criação de cercas e muros entre vizinhos. A mobilidade religiosa dos indivíduos tende a aumentar, por causa da violência, diante do recrudescimento das posturas extremistas separatistas. Deu como exemplo, o caso do líder budista fundamentalista do Sri Lanka, Bodu Bala Sena, que defende o lema “Fundamentalistas de todo o mundo, uni-vos!”.

Pode-se dizer que há, atualmente, religiões sem fronteiras. Por exemplo, no Japão encontramos pessoas que se casam utilizando a cerimônia xintoísta, o funeral budista e, no tempo do Natal, adquirem a tradicional árvore popularizada no horizonte da fé cristã. Como se pode notar, o indivíduo torna-se uma complexidade religiosa ampliada. Para o indivíduo moderno que vive em sociedade com uma complexidade religiosa ampliada – com uma diversidade visível – os confins que dividem os territórios dos diferentes sistemas de crença religiosa, podem não aparecer mais nem distantes, nem intransponíveis. Por exemplo, a Europa já não é mais só cristã, mas também muçulmana, budista, hindu, sikh, neo-pentecostal afro, latino, asiático e assim por diante. Até mesmo países de maioria muçulmana percebem a presença de outras identidades religiosas, como acontece nos países ricos do Golfo Pérsico. A China, onde está acontecendo um considerável despertar religioso, está se tornando, visivelmente, uma sociedade multi-religiosa.

Uma religião migrante, que se transplanta, portanto, surgem duas tendências opostas, resumiu o professor Enzo. No novo ambiente sociocultural, ou se formam comunidades de crentes que tendem a reproduzir o modelo vivido na pátria de origem, anteriormente, com visível separação ou comunidades dialogantes com a nova cultura, com diversos sistemas de crenças, que encontram nas sociedades que as acolhem.

Outro tema desenvolvido, embora sem grandes aprofundamentos, foi o de capital simbólico, bonding, bridging que a religião oferece. Mostrou, a título de exemplo, que muitos missionários, leigos ou consagrados, depois de uma experiência internacional, voltam para seus países de origem com grande reconhecimento na bagagem por seus familiares, comunidades religiosas, no trabalho ou na política.

Para concluir a segunda parte da conferência, afirmou que nem todos os caminhos do cristianismo levam a Roma. Há, cada vez mais reconhecido, um cristianismo que vem das “periferias do mundo”. O cristianismo europeu de exportação, dividido historicamente entre católicos, protestantes e ortodoxos, sente-se desafiado pela presença de um neo-cristianismo que sai das “periferias do mundo” e que, movendo-se de um continente a outro, tem pretensões de ser ouvido e fazer história. Partilhou, como exemplo, o caso da Nigéria e de Gana, de onde provém a maior parte dos imigrantes de fé cristã que chegam à Itália desde o início da década de 80. Estes levam consigo uma pluralidade de igrejas impensáveis para um país como a Itália, habituado preguiçosamente a imaginar que a igreja seja uma e só uma, a católica, visivelmente onipresente em Roma e na mídia. Agora, quotidianamente, eles se fazem portadores de uma leitura do cristianismo, aparentemente, inédita para uma sociedade, como a católico-italiana. Um cristianismo com menos teologia e mais ritualismo; com menos clérigos e mais líderes carismáticos; com menos Bíblia e mais exercício de poderes de cura (espiritual e física); com menos institucionalização centralizada e mais igrejas livres e em competição entre elas, capazes de usar de modo moderno as novas mídias.

Atenção: Aguardem a publicação da última parte da síntese da conferência do prof. Enzo Pace.

Prof. Edward Guimarães

Pela Equipe executiva do Observatório da Evangelização

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