A conferência que iniciou o dia 16/07/2015, no 28º Congresso Internacional da SOTER, ofereceu reflexões de fronteira. O tema trabalhado pelo sociólogo da religião italiano Enzo Pace despertou a curiosidade dos participantes desde o título: “Deus não precisa de passaporte. Religião e globalização do mundo contemporâneo”. Apresentaremos, a seguir, síntese da última parte da conferência.

Sociólogo da religião, prof. Enzo Pace.
Sociólogo da religião, prof. Enzo Pace.

Necessidade de repensar os conceitos e os métodos de análise

Na terceira e última parte,  Enzo Pace destacou a necessidade crucial de repensar os conceitos e os métodos de análise para sermos capazes de melhor compreender os efeitos inesperados que a globalização vem produzindo no campo religioso.

Por exemplo, o novo despertar da ideia de que “não podemos viver se somos muitos e muito diferentes entre nós”. Trata-se de uma das contradições mais visíveis que a globalização produziu no contexto contemporâneo: do Sri Lanka aos USA, da Nigéria aos territórios do assim chamado califado islâmico, das guerras balcânicas à Ucrânia, da Turquia que não consegue aceitar ainda a ideia do genocídio armênio aos movimentos ultra-ortodoxos hebraicos que acham que é iminente a chegada do Messias em Eretz Israel, a terra prometida finalmente recomposta depois da guerra de 1967 e que, por isso, eles  não podem ceder uma mínima parte aos palestinos.

Ainda que não se pode falar de guerras de religiões, estas estão arrastando muitas pessoas para conflitos e guerras, de formas inéditas e inesperadas desde o século da grande desilusão, que se abre logo depois da queda do Muro de Berlim em 1989. Nos anos seguintes, mostrou que, de fato, assistimos a conflitos violentos em vários pontos do globo nos quais se enfrentam não mais a razão do capitalismo contra a do socialismo ou do comunismo, mas as razões dos povos que afirmam a identidade deles recorrendo furiosamente a símbolos religiosos. Percebe-se a utilização de políticas de identidade elaboradas como verdadeiras políticas de conquista do “paraíso”.

Acontece, desse modo, verdadeiro retorno da teologia política com seu conhecido circulo hermenêutico: primeiro, apresenta-se o ideal de uma religião pura, exclusiva e absoluta, em seguida, o ideal da conquista de uma terra sagrada dada por Deus e, por fim, a importância de uma lingua pura e de costumes morais que garantam a pureza dos eleitos. Surge, inclusive, a ideia de monges-guerreiros ou de ascetas com armas que defendem a ideia segundo a qual “não podemos viver se somos muitos e muito diferentes entre nós”.

A globalização, segundo ele, em suas contradições criou, simultaneamente, pontes e muros. Deu condições para a mobilidade das pessoas em busca de uma vida melhor com suas crenças, mas também novas formas de vulnerabilidade e construção da identidade em contexto plural; possibilitou a circulação de capitais, mercadorias e tecnologias, mas novas formas de exploração, exclusão, separação e violência.

A noção de religião, em uma época de globalização, não é mais só a de uma força para imaginar um outro mundo possível, para libertar os oprimidos das injustiças sociais, mas se torna, também, uma máquina social para a conquista do poder. Aqui, entende-se a grande atração entre religião e política, nesta fase histórica mundial, para impor regimes com pretensão de encarnar a felicidade futura e a verdade.

Destacou, em seguida, o processo de descentralização no campo religioso e teológico. O cristianismo, por exemplo, espalhando-se para fora da Europa ao longo dos séculos procurou, tendencialmente, erradicar toda forma de crença e espiritualidade pré-existente que encontrava ao longo do seu percurso de mundialização. Hoje, ao contrário, trata-se de compreender e recuperar os sinais ainda vivos e vitais das religiões pré-cristãs, restituir a dignidade cultural delas e fazê-las ter vez e voz através inclusive da mensagem cristã.

A globalização obriga a sair não só do eurocentrismo, mas de todo e qualquer religiocentrismo, no caso, ele referia-se ao cristianocentrismo. Ela nos leva a experimentar que ao lado da nossa casa, às vezes na porta ao lado, há pessoas que não são cristãs. Graças à mobilidade migratória e ao crescente e hegemônico processo de urbanização, de modo totalmente novo, a globalização nos obriga a viver a diversidade religiosa de maneira nova. Com tal diversidade, somos chamados cotidianamente a aprender e a entender, que ela não diz respeito apenas às diferenças em matéria de crença; ela diz respeito à própria coesão social, um desafio inédito que impõe, muitas vezes, uma redefinição das regras sociais dadas como óbvias e a criar novas formas de reconhecimento e inclusão de todos em vista da cultura da paz.

O desafio de aprender a arte do diálogo inter-religioso está provocando, mais do que em qualquer outra época, novas práticas. Para nós que lidamos com a reflexão sobre as religiões, disse, percebemos a necessidade viceral de que o diálogo saia das assembleias teológicas e se torne, de fato, um ponto sensível das agendas políticas e das lideranças de cada tradição religiosa. Dialogar passa, então, a significar, concretamente, a necessidade urgente de aprender a se sentir igual em meio à diversidade.

Prof. Edward Guimarães

Pela Equipe executiva do Observatório da Evangelização

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