Jorge Mario Bergoglio no metro em Buenos Aires.
Jorge Mario Bergoglio, antes de tornar-se papa Francisco, no metro em Buenos Aires.

No final do Evangelho, Jesus diz aos seus discípulos: “Ide, pois; de todas as nações fazei discípulos, batizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-as a guardar tudo o que vos ordenei.” (Mt 28, 19-20a). Isso expressa o desejo de que a sua palavra e mensagem de salvação, ou seja, a experiência transformadora do amor gratuito de Deus por cada um de nós, chegue até os confins da terra (At 1,8; 13,47). Nesses quase dois mil anos de Cristianismo, podemos dizer que a Igreja Católica, como também outras Igrejas cristãs, tem procurado desempenhar essa missão, que lhe é constitutiva, de anunciar o Reino de Deus, anunciado e vivido por Jesus Cristo, a todos os povos da terra. Por meio de incontáveis missionários/as e testemunhas proféticas da vida cristã, reconhecemos que o anúncio já chegou até o “fim do mundo”. Não é assim que nossa América Latina é conhecida por muitos, sobretudo pelos europeus? Por causa da temática desse artigo, queremos destacar aqui o papel desempenhado pelos jesuítas para a realização daquilo que Paulo disse aos Romanos “pela terra inteira correu a voz deles e suas palavras foram até os confins do mundo” (Rm 10, 18). De fato, os jesuítas tiveram, juntamente com outros grupos de cristãos, um papel relevante na evangelização e na educação dos povos da América Latina. Podemos verificar, concretamente, o quanto eles ajudaram, e de forma decisiva, na formação da mentalidade cultural dos habitantes do “Novo Mundo”.

Mas será que o dinamismo do mundo mudou? Foram buscar, recentemente, alguém do “fim do mundo”, um jesuíta latino-americano, para conduzir e ajudar a Igreja a continuar, nesse contexto atual de aldeia global, a sua missão de anunciar a boa nova de Jesus Cristo para o mundo: o argentino Jorge Mario Bergoglio, agora mundialmente conhecido como o papa Francisco. Ele, desde o início de seu ministério, tem lançado a todos os cristãos o incontornável convite de voltarmos às fontes, ao berço do cristianismo para recuperar seu vigor e encanto.

A proximidade afetiva do papa Francisco junto às crianças.
A proximidade afetiva do papa Francisco junto às crianças.

Muito tem se especulado e refletido, ultimamente, sobre o quanto, nesses últimos dois anos, a forma singular de Francisco exercer o ministério petrino tem representado para o presente e o futuro da Igreja Católica. Seus gestos simples e proféticos, pronunciamentos cheios de entusiasmo e contagiantes documentos publicados estão incomodando tanto cristãos, comprometidos ou não, quanto não-cristãos. Alguns chegam a apontá-lo como uma das principais lideranças sociopolíticas e religiosas da atualidade. Para se ter uma ideia do impacto Francisco, dois documentos por ele lançados, a Exortação Evangelii Gaudium[i] (Alegria do Evangelho), que tece profundas considerações sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual; e, recentemente, a Laudato Si[ii] (Louvado sejas), que discorre sobre o cuidado com a casa comum, a criação, estão provocando inúmeras e as mais diversas reações. Claro que nem todas favoráveis a sua proposta. Por exemplo, entre aqueles que se dizem católicos de direita (expressão muito estranha para duas definições mutuamente excludentes), levanta-se a tese do mergulho da Igreja em grave instabilidade institucional suscitada pelo jeito de ser do novo Papa. Ainda é cedo para estipularmos se as grandes mudanças que seu pontificado está suscitando como necessárias, de fato, historicamente, se concretizarão. Algo inusitado e trágico tem circulado pelas redes sociais, veiculados por grupos católicos reacionários e ultraconservadores. Trata-se de uma profecia, segundo a qual o último papa, antes da chegada do “fim do mundo”, seria um jesuíta. Bom, o que podemos afirmar de concreto é que desde a eleição de Francisco, este tem sido de fator determinante que impulsiona desejos de mudanças decisivas e significativas no seio da Igreja Católica.

A principal intuição que temos para compreender o significado desse pontificado é que Francisco pode ser caracterizado como um Papa fiel ao espírito do Concílio Vaticano II, mesmo ele não tendo dele participado. O Papa vem recuperando, com originalidade, aquilo que, desde a sua convocação, o Concílio preconizava: a necessidade de um profundo aggiornamento (atualização) na Igreja para que esta seja fiel a sua missão e ao seu tempo atual. Isso significa, concretamente, repensar, dentre outros, métodos, linguagens, costumes, mentalidades e formas de estruturação enquanto instituição. Francisco não promulgou novos dogmas, nem propôs inovações teológicas. Seu diferencial está na forma como propõe as mudanças. Ele encarna, de forma coerente, em suas atitudes, gestos e palavras, o que indica como necessário se transformar na Igreja. Vemos nele encarnada a mudança que deseja para a Igreja. Por meio de gestos, pronunciamentos e escritos, Francisco tem conseguido penetrar nas vivências cotidianas dos fieis e suscitar o desejo de maior conversão. Tem atingido cristãos católicos afastados, suscitando em muitos o desejo de novo começo; tem interpelado ao diálogo membros de outras igrejas cristãs e de outras religiões e, inclusive, os sem religião.

Papa Francisco na significativa liturgia do lava-pés!
Papa Francisco na significativa liturgia do lava-pés!

Visivelmente, Francisco está renovando a esperança na Igreja e de um mundo melhor para todos. Assim, a cada dia que passa, vai deixando de ser um Papa do “fim do mundo” para ser um Papa do “novo mundo”. Podemos terminar, este artigo, fazendo uma referência ao início do pontificado de Bergoglio. Assim como ele pediu para que rezássemos por ele, logo no anúncio de sua eleição, que continuemos a rezar para que ele continue a ser um bom pastor fiel para a Igreja e para o mundo.

IMG_3552Paulo Vinícius Faria Pereira

Estudante de Ciências Sociais e Teologia (PUC Minas)

Participou da última Jornada Mundial de Juventude.

[i]

https://w2.vatican.va/content/francescomobile/pt/apost_exhortations/documents/papa-francesco_esortazione-ap_20131124_evangelii-gaudium.html

[ii]

http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si.html

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