Segundo o Concílio Ecumênico Vaticano II, do qual nos preparamos para celebrar, no final de 2015, 50 anos de seu término, na Constituição Dogmática Lumen Gentium afirma que todos os cristãos juntos, fraternalmente, formam, em Jesus Cristo, novo e único Povo de Deus (LG 9-17). Nesse sentido, todos celebram, no batismo, a igual dignidade de filhos/as de Deus e recebem vocação especial para a missão de colocar-se, qual Jesus, a serviço do projeto salvífico universal de Deus, na Igreja e na sociedade.

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Na caminhada da Igreja, durante muito tempo, leigos/as, de certa forma, não estavam incluídos nessa vocação e, consequentemente, não foram formados e nem desenvolveram, em plenitude, seja a consciência de sua plena cidadania eclesial em Jesus Cristo, seja o senso da corresponsabilidade pela vida da Igreja. E se hoje já há alguns ministérios leigos, serviços e agentes de pastoral, essa realidade participativa e envolvente ainda se concretiza de forma muito aquém do que pode e deveria ser. Isso significa que muitos passos precisam ser dados para a verdadeira inclusão eclesial dos/as leigos/as:

  • criação e/ou reconhecimento de novos ministérios e serviços;
  • descentralização clerical, com consequente delegação de responsabilidades eclesiais concretas;
  • formação bíblico-teológica, litúrgica e pastoral de forma processual e continuada;
  • reconhecimento e valorização da igual dignidade eclesial;
  • investimento na capacitação e no desenvolvimento espiritual com crescimento na mística cristã;
  • acompanhamento do crescimento e aconselhamento espiritual;
  • dentre outros.

Muitos esforços vêm sendo feitos, sobretudo a partir do Concílio, para corrigir e criar outra mentalidade e práticas eclesiais. Estes estão produzindo muitos frutos e avanços, mas, importa reconhecer, que são ainda bastante insuficientes para, de fato, mudar a predominância dessa “mentalidade e práticas clericalizadas” na vida atual da Igreja. E isso em dois âmbitos. Primeiro, na cabeça de inúmeros ministros ordenados – bispos, padres e diáconos – que continuam a exercer, de cima, o poder eclesial, e de forma concentrada, centralizadora em suas mãos e infantilizadora dos não-clérigos. Segundo, na mentalidade religiosa, infelizmente, da maioria dos/as leigos/as – que continua a legitimar, alimentar e veicular a mentalidade clerical, bem como, comodamente, reconhecer-se inferior e nunca preparada o suficiente para assumir a sua vocação e corresponsabilidade batismal na vida da Igreja. Importa insistir que o sacramento da ordem não confere superioridade, mas responsabilidade de colocar-se a serviço do Povo de Deus e do projeto do Reino. Todos os cristãos, ministros ordenados ou não, são chamados a ser discípulos e discípulas de Jesus.

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A Conferência de Aparecida assumiu a urgência incontornável de, juntos, concretizarmos mudanças profundas na mentalidade e na estruturação da vida da Igreja:

  • promovermos um profundo processo de conversão pastoral do atual modelo de paróquias tradicionais em rede de comunidades;
  • investir na formação integral e capacitação dos/as leigos/as;
  • suscitar outra mentalidade cristã, segundo a qual todos os batizados experimentem, de fato, o chamado e se tornem discípulos-missionários, conscientes e comprometidos com a construção de uma Igreja toda ministerial, em estado permanente de missão e da sociedade justa, inclusiva e sustentável.

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Na mesma direção, as Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da CNBB, tanto as do quadriênio 2011-2015 quanto as novas, de 2015-2019, definem como prioridade recuperar a centralidade de Jesus Cristo e, diante do discernimento de urgências pastorais, investir na busca de concretização das necessárias mudanças. Nas últimas Diretrizes, além de confirmar as urgências propostas pelo Documento de Aparecida, incluem-se as contribuições suscitadas, profeticamente, pelo papa Francisco. Nesses dois anos de exercício do ministério petrino, de modo especial, por meio de seus gestos, pronunciamentos e do provocante conteúdo da Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, muitas  interpelações se tornaram verdadeiras urgências. Merecem destaque, dentre outras:

  • recuperar a alegria da vida cristã;
  • a transformação missionária da Igreja (hospital de campanha, casa da misericórdia, Igreja em saída e não autorreferencial);
  • a superação da crise do compromisso comunitário por meio da construção de redes de comunidades;
  • a coerência entre o anúncio e o testemunho do Evangelho;
  • revisão do processo de iniciação à vida cristã;
  • equilíbrio entre a mesa da Eucaristia e a mesa da Palavra;
  • o reconhecimento da dimensão sociotransformadora da evangelização;
  • o investimento na formação de evangelizadores com outra mentalidade religiosa.

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As Diretrizes da Igreja particular Arquidiocese de Belo Horizonte, definidas na IV Assembleia do Povo de Deus, como não poderia deixar de ser, estão em forte sintonia com todo esse esforço eclesial de transformação profunda de mentalidades, estruturas e práticas pastorais propostas no Concílio Vaticano II e Conferências Episcopais. Esta Igreja escolheu, por exemplo, como prioridade para a renovação da vida comunitária:

  • organizar-se em forma de conselhos participativos, consultivos e deliberativos, em todos os níveis: comunitários, paroquiais, forâneos, regionais e arquidiocesano;
  • incentivar a formação integral e específica para leigos/as;
  • estimular e criar novos ministérios leigos, com ênfase na participação das mulheres e jovens;
  • suscitar processos de revisão do uso dos meios de comunicação e da ênfase evangélica de inserção social dos/as marginalizados/as.

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Houve, nos últimos tempos, na Igreja, fértil produção de exortações, reflexões e documentos, com explicitação e formalização de compromissos assumidos diante da percepção dos sinais dos tempos e da consequente necessidade de renovação e mudança… Urge, de fato, que saiam do papel e penetrem o coração e a prática de cada cristão.

Desejamos, então, que as reflexões do mês de agosto despertem e provoquem interpelações e um renovado desejo de vida nova em todos os níveis de nosso compromisso/testemunho de vida cristã: no seguimento de Jesus, no cotidiano da vida eclesial e na participação da construção da sociedade justa, inclusiva, fraterna e sustentável.

EdwardProf. Edward Guimarães

Téologo leigo, professor do Departamento de Ciências da Religião da PUC Minas

Membro do Conselho Arquidiocesano de Pastoral e da equipe executiva do Observatório da Evangelização.

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