Lemos o artigo da jovem universitária Stephanie Ribeiro no portal Geledés. Cremos que essa jovem autora consegue trazer elementos importantes para a necessária reflexão ética sobre o valor e a dignidade da família e da pessoa humana no contexto contemporâneo.

Sem a pecha de falsos moralismos, ingênuos e estéreis, a jovem escritora questiona a hipocrisia de nossa sociedade, travestida de passividade e permissivismo amoral,  tantas vezes caracterizada como cristã e guardiã de bons costumes. Ela acusa a nossa sociedade de assistir à trama da novela Verdades Secretas, mesmo apresentando temas bastante polêmicos, sem grandes grilos ou debates morais.

A Igreja Católica se prepara para a segunda etapa do Sínodo sobre a família em outubro, então, nos interrogamos: que conceitos de família e de dignidade humana professamos? procuramos iluminar a diversidade de situações concretas vividas pelas pessoas com os valores do Evangelho? cultivamos abertura dialógica para perceber as nossas miopias culturais (posturas preconceituosas, atitudes discriminatórias) e hipocrisias sociais tão criticadas por Jesus de Nazaré?

Leia o artigo da jovem escritora e envie-nos seus comentários.

A Verdade Secreta é que a família brasileira não liga para abuso

verdades secretas

Faz tempo quero escrever sobre essa nova novela, porque vem me intrigando a falta de críticas a ela. Tive meu primeiro choque antes dela começar, quando li uma notícia que dizia “Globo procura nova ninfeta” (acho o termo ninfeta super problemático e quem já leu Lolita ou sabe do contexto, imagino que também ache), para o que seria o enredo dessa estória. Por sinal a matéria trazia também uma breve descrição sobre a trama: mãe e filha disputarão mesmo homem. Acho já super complicado essas disputas entre mulheres em telenovelas e filmes por um homem, imagina então quando são mãe e filha.

Essa matéria e a frase bizarra eram sobre Verdades Secretas, a novela das 23 da Rede Globo que estreou faz mais de um mês e vem com esse enredo: jovem que quer ser modelo e parte para a prostituição, então acaba se envolvendo com um homem bem mais velho, que casa com sua mãe. No caso esse homem é Alex (Rodrigo Lombardi), que se “apaixona” por uma mulher mais nova Arlete (Angel – Camila Queiroz) só que nessa novela ela literalmente é nova, afinal é menor de idade (16-17 anos) com quem se envolve pagando por sexo com ela, já que a moça foi aliciada pela dona da agência de modelos que participava, e o grande detalhe criminoso é que ele sabia que estava pagando para transar com uma menor!

Um ponto chocante é que os vários comentários sobre a primeira cena deles transando diziam: até eu transaria com Rodrigo Lombardi e nem cobraria. Outros só diziam que fariam de tudo por esse homem e pelos 5 mil reais que ele pagava a cada noite deles.

O fato é que por questões que vou explicar a seguir, Arlete passa a disputar com a própria mãe o “amor” desse homem. E tudo isso virou um triângulo amoroso abusivo e doentio que o público acha bonito. Me arrepia  o contexto de por duas mulheres de idades distintas “apaixonadas” pelo o mesmo homem e a mais velha sendo a preterida, e isso acontece duas vezes. Primeiro Arlete versus Carolina (Drica Moraes) sua mãe, e o caso mais sério onde isso fica mais evidente. Uma situação de etarismo é com as personagens da Giovanna (Agatha Moreira) a moça de 16 anos, rebelde filha do Alex, que passa a ideia que concorda com o abuso a qual está exposta (mais uma falácia misógina pra relativizar os fatos) e a Fanny (Marieta Severa), que sustenta o Anthony (Reynaldo Gianecchini) e é a cafetina da novela dona da agência de modelos.

Dois pontos sobre isso:

1- Sexo com menores e homens maiores de idade e que estão pagando a uma cafetina por isso é crime. O enredo da menina, no caso Arlete, que quer ser modelo, mas precisa de dinheiro para ajudar a família. Então, resolve fazer Book Rosa, que é o mesmo que Prostituição de Luxo feita por modelos. É sério. É grave! E acontece na vida real e repito: é crime! Não achem isso “lindo”!

Além de estar rolando uma grande relativização sobre o tema da prostituição de menores, estão naturalizando a todo momento a relação abusiva que vem sendo criada após esse ato criminoso. Criou-se um clima de romance numa relação totalmente desigual: o homem, rico, de 40 anos, se “apaixonando” pela moça do interior de 16 anos, pobre, que quer ajudar a família. Tanto que boa parte do público está amando tanto o roteiro, que até estão criando videoclipes para o casal em sites como o youtube ou “shippando” eles em fotos. Repitam comigo: Não é amor. Isso é relacionamento abusivo. Não romantizem essa ideia mesmo que o enredo te leve a isso!

2- A relação abusiva tem muito a ver com o fato delas serem menores de idade e dependentes. No caso do Anthony, ele explora as duas mulheres de forma distinta, a mais velha é explorada economicamente e sofre chantagens. Inclusive ele chega a dizer que a ama, mas é do jeito dele e ela deve aceitar isso, pois, está velha e não conseguiria nada melhor, humilhando constantemente a parceira por sua idade. E a outra, a Giovanna, que é menor de idade, ele abusa dela sexualmente e também com intuito fincanceiro, já que ela é filha do rico Alex. (Isso mesmo, as duas meninas estudam no mesmo colégio, são amigas e o pai de uma delas transa com a amiga da filha, acho bizarro imaginar isso).

Esses pontos já me incomodam muito. Afinal, vejo pouca repercussão negativa quanto a isso. Parece que a família brasileira e a mídia relacionada a novelas estão achando lindo tudo isso, mesmo sendo um show de misoginia.

O que me deixa mais enfurecida é como o estupro é também apresentado como algo relativizado e romantizado nessa novela. Angel foi estuprada por um moço, o tal do Gui (Gabriel Leone), numa das primeiras cenas da novela. Ele a drogou e, ela inclusive era virgem, a estuprou. Esse fato foi novamente romantizado e a menina se “apaixonou” pelo moço que não correspondeu porque tinha namorada e, segundo ele, essa era do mesmo nível social dele, coisa que Angel não.

Então, ela sofreu aquela transformação no seu estilo, clássica mudança copiada do filme “Uma Linda Mulher”, ascendeu socialmente, pois sua mãe casou e ele se interessou por ela! E agora eles tem uma trilha sonora que é “Céu cantando Tim Maia – Eu Amo Você” e ele é o amor “jovem” que ela está tendo depois de sofrer desilusão com o quarentão que paga menores para sexo.

Eu não gosto de falar o obvio, mas alguém que te estupra não te ama! Isso não é amor. Se começou com abuso sexual, começou com desrespeito, sem empatia, com machismo. Então não ‘vira’ amor, quando a menina compra roupas novas!

Enfim… não contente com exploração sexual de menores, abuso de menores, estupro, etarismo, resolveram fazer uma releitura da Lolita. Assim, o Alex que, quando a Angel disse que estava apaixonada, deu um choque de realidade nela, ao estilo “estou pagando por você, não te amo”, se apaixona. Por isso resolveu que quer Arlete ou Angel de qualquer forma para ele. E, para isso (retornamos ao começo deste texto) ele seduz e se Casa com a mãe dela, a Carolina, para ficar perto/abusando da moça. Para mim, tudo isso é doentio. E mais doentio é o público adorando… Ou seja, não são só duas mulheres disputando um homem, são mãe e filha.

Agora, essa novela ela está sendo retratada com qual intuito? E cadê a família brasileira cristã que sempre se manifesta em prol da ordem e dos bons costumes que não se importa em ver uma menina de 16 anos, sendo estuprada, assediada, manipulada, prostituída e perseguida?

Como sempre a proposta é um final “passional” e nenhuma problematização. “Os dois terão duas transas na casa em que vivem com Carolina (Drica Moraes). Em ambas, a ninfeta se arrependerá. Só que, na segunda vez, Alex vai ameaçar se separar de Carolina e dizer que é por causa Angel. ´Não! A minha mãe te ama demais´, vai implorar a garota. A partir daí, os dois vão virar amantes e passarão a se encontrar com frequência em uma suíte de hotel.”

Eu não sei se fico mais assustada ao saber que alguém escreveu isso tudo, ou seja, pensou nisso e achou “normal” ou com as pessoas que assistem e não estão vendo problema nenhum.

Observações:

1- A novela tem várias cenas de nudez principalmente de mulheres;

2- Alex foi acusado de estupro, mas era uma falsa acusação sendo assim o autor teve uma grande chance de problematizar estupros cometidos entre homens poderosos para com mulheres numa posição subalterna (no caso a moça era modelo e negra), só que isso não aconteceu. Afinal, Alex é visto como galã e esse fato “estragaria” tudo;

3- As personagens femininas tem um caráter mais duvidoso e são colocadas mais no papel de vilãs, que os homens abusadores;

4- O público culpa Angel por “trair” a mãe e não conseguem ver o quão Alex é abusivo e o verdadeiro culpado por essa situação.

Fonte:

http://www.geledes.org.br/a-verdade-secreta-e-que-a-familia-brasileira-nao-liga-para-abuso/?utm_source=Atualiza%C3%A7%C3%B5es+Portal+Geled%C3%A9s&utm_medium=email&utm_campaign=f272d2ac8c-RSS-NEWS-Portal-Geledes&utm_term=0_449908e143-f272d2ac8c-350769953#gs.1b4f93e4357541bf8314fce155339f4a

Texto para os artigos publicados

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