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Não sei o nome de vocês. Tampouco sei os detalhes de suas vidas. Só sei que vocês foram brutalmente baleados na tarde de 1° de agosto de 2015 na cidade de São Paulo. Dois na Rua do Glicério e outros quatro na escadaria da Igreja Nossa Senhora da Paz, que tão gentilmente acolhe aqueles que, escapando da guerra ou da pobreza, buscam refúgio no Brasil.
O que sei sobre vocês é que descendem de africanos que foram trazidos para esse continente em caixas de quatro metros quadrados. Ao chegaram aqui, esses seres humanos foram marcados a ferro quente como gado, suas crenças foram ridicularizadas e eles foram obrigados a se converter ao catolicismo. Vendidos como animais de estimação, foram obrigados a trabalhar em canaviais de açúcar.
Eles aprenderam a falar o francês e a rezar para a Virgem Maria, mas mantiveram suas tradições de alguma forma intactas. O dialeto característico de vocês – o creole­ –, assim como sua religião sincrética – o vodu – surgiram como marcas da resistência de seus ascendentes à assimilação cultural imposta pelos franceses.
Em 1791, cansados de verem seus filhos morrerem para produzir um punhado de açúcar, seus ascendentes se revoltaram e proclamaram a independência do Haiti, que se tornou o primeiro país do continente livre do tráfico negreiro e da escravidão. Mas é claro que o povo que outrora os dominara não deixaria isso passar batido. Desde então, o país de vocês vem sido governado por líderes corruptos que representam os interesses das potências estrangeiras. Em 1993, veio a esperança da mudança na forma da eleição do padre Jean-Bertrand Aristide, ligado à teologia da libertação. No entanto, ele foi deposto não uma, mas três vezes para garantir os interesses das grandes potências econômicas na minúscula ilha.
O último golpe sofrido por Aristide teve a participação fundamental de meu país e, por isso, eu peço desculpas ao povo haitiano. Em 2010 um terremoto de 7 graus na escala Richter matou cerca de 200 mil concidadãos de vocês e destruiu a já frágil economia de sua nação. Desamparados, muitos de vocês vieram ao Brasil cujo governo, por sua participação no último golpe de Estado haitiano, se sentiu na responsabilidade e no dever de acolhê-los.
No entanto, nosso povo, nutrido por uma mídia fascista, acredita que vocês “roubam” os trabalhos dos brasileiros. Atualmente passamos por uma crise econômica de escala global e, em momentos de crise, é comum as camadas iletradas da população achar um “bode expiatório” para culpar que não sejam os banqueiros, uma vez que são convencidos de maneira entorpecente pelos donos do poder de que a altíssima concentração de renda em nosso mundo é benéfica a todos e o problema são aqueles que não tiveram a oportunidade de se desenvolverem.
Foi nesse contexto em que vocês foram baleados na cidade de São Paulo. Embora sou apenas um cidadão brasileiro, gostaria que vocês soubessem que não faço parte dessa onda fascista que assola nossa sociedade e vitimiza aqueles já tão vitimizados por um sistema social injusto. Quero que saibam que sou solidário a sua dor, causada para manter as coisas como elas estão e desviar a atenção dos problemas socioeconômicos para a questão da imigração. Peço perdão em nome de todos os brasileiros que repudiam o que aconteceu com vocês e espero ser perdoado.
Sem mais delongas, gostaria de fazer um ode a todos os imigrantes haitianos. Que vocês tenham a coragem de enfrentar a vida que aqueles que atacaram vocês – e não os verdadeiros responsáveis pela atual crise econômica – não tiveram. Desejo-lhes muita sorte e felicidade na construção de uma vida nova em nosso país. Que o Brasil ofereça-lhes as oportunidades que lhes foram negadas no Haiti. Depois de tudo que vocês e seus ascendentes tiveram que enfrentar, vocês merecem!
Rodrigo Gomes da Paixão é jornalista e anglicano da IEAB.
Foto: Diorgenes Pandini / Agência RBS
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