Papa Francisco envia mensagem para o 13º Encontro Intereclesial das CEBs.
Papa Francisco envia mensagem para o 13º Encontro Intereclesial das CEBs.

Luis Miguel Modino*

A chegada do papa Francisco levou a um impulso às Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). A partir desta nova situação eclesial, o Iser Assessoria e o Setor CEBs da Comissão Episcopal para o Laicato da CNBB organizaram um encontro de assessores e assessoras das CEBs do Brasil de 30 de julho a 1 de agosto de 2015. Estiveram presentes mais de 50 pessoas, procedentes das diferentes regiões do país, para refletir juntos a partir do tema “Perspectivas para as CEBs no Pontificado do papa Francisco”, sem deixar de lado os desafios que se apresentam na evangelização do mundo urbano, aspecto que constitui o tema central do próximo Intereclesial, a ser celebrado em Londrina, em janeiro de 2018.

Os desafios do mundo urbano são grandes e complexos, assim como os da própria realidade eclesial. Dentro deste panorama socioeclesial, as CEBs se movem em uma perspectiva de esperança, que surge da proposta do Reino e a retomada de Francisco da visão eclesiológica do Vaticano II.

As CEBs se posicionam como instrumento necessário e eficaz na realização da missão, de que são destinatários principais a juventude, os empobrecidos e excluídos, as mulheres, e também na que se fazem participantes os movimentos populares, as pastorais sociais e outras igrejas, com quem querem assumir conjuntamente as causas dos pobres. Foram compartilhadas diversas experiências de trabalho na periferia de algumas cidades brasileiras e com aqueles que vivem nas periferias existenciais. Tudo isso sem esquecer que vivemos em uma sociedade e participamos de uma linguagem onde o virtual exige cada vez mais protagonismo.

Neste sentido, Raquel Rolnik, professora da Universidade de São Paulo e ex-relatora da ONU em questões referentes ao direito à moradia digna, depois de analisar a realidade do mundo urbano, assinalava que as CEBs devem assumir o papel, a partir de seu compromisso com a libertação, de oferecer uma leitura alternativa do que se passa, que seja fonte de esperança e de utopia. E não só isso, devem também mostrar aos movimentos populares que não estão loucos nem sozinhos e que suas reivindicações são legítimas.

Da reflexão coletiva surge a necessidade de revitalizar as CEBs:

  • rever seus princípios orientadores e metodológicos;
  • concretizar o necessário diálogo com a complexa realidade do mundo urbano a partir de uma perspectiva bíblica;
  • consolidar experiências de fé transformadoras, libertadoras e proféticas, a partir de um encontro pessoal e comunitário com Jesus de Nazaré;
  • valorizar as expressões religiosas populares;
  • elaborar um discurso contrário ao do mercado, que coloque o foco na solidariedade, na vida fraterna, na reconstrução das relações comunitárias, no macroecumenismo, na ecologia, na misericórdia e na escuta do clamor dos sofredores;
  • assumir o compromisso de lutar por direitos, que leve a reafirmar a centralidade dos pobres e a prática da justiça;
  • articular mística, presença, testemunho e profecia.

As CEBs são conscientes que o presente é um tempo de busca, em um ambiente em que o clericalismo e a autorreferencialidade eclesial levam a um sentimento de estar como ovelhas sem pastor. A isso se referia Francisco de Aquino Junior, sacerdote e professor de Teologia, que fez uma leitura histórico-teológica da vida da igreja nos últimos 50 anos. Elencou as consequências do modelo eclesial assumido desde a década de 80 e o empenho do papa Francisco para mudar esta dinâmica. Nestes aspectos, também insistiu o professor Sérgio Coutinho. Daí, o ser igreja em saída, que tanto incentiva o bispo de Roma, tem que partir de algumas perguntas: Para onde? Com quem? A favor de quem?

As CEBs assumem que hoje são uma minoria teológica e eclesiológica, que não são a única expressão profética do Reino, que devem buscar o consenso, que não devem diluir o espírito, carisma e identidade dentro da realidade contemporânea e que são igreja pobre e dos pobres, colocando os excluídos, as minorias e o seguimento de Jesus de Nazaré como elementos centrais.

O caminho a seguir deve partir de um processo de formação de leigos e de leigas que animam a vida das comunidades, numa perspectiva bíblica e teológica que coloque a Palavra de Deus no centro da experiência comunitária, impulsionando os grupos de reflexão bíblica. Um desafio urgente é fazer-se presente nas bases com novas metodologias, levando em conta as experiências bem sucedidas de vida comunitária e aproveitando os ventos favoráveis chegados com Francisco e que têm permitido que voltem adquirir protagonismo as intuições eclesiológicas formuladas no Vaticano II e em Medellín.

As CEBs creem em uma eclesiologia participativa onde os conselhos pastorais sejam mais valorizados, comunitária, ministerial, laical, ecumênica, aspectos defendidos no Vaticano II. Insistem na necessária incorporação dos jovens e outros atores sociais, e no imperativo de abraçar o cuidado da Casa Comum e dos frágeis do mundo.

A partir destas idéias surgem algumas perguntas, como as formuladas pelo sociólogo Pedro Ribeiro de Oliveira em sua intervenção: se as CEBs são ainda comunidades eclesiais de base, se não deixaram de ser aquilo que Pedro Casaldáliga destacava em 1989, as definindo como “a nova forma de toda a igreja ser”, para converter-se em um movimento espiritual a partir dos círculos bíblicos e da Teologia da Libertação. A socióloga Solange Rodrigues que, como Pedro faz parte da equipe de Iser Assessoria, se interrogava se tem sentido falar de CEBs em uma sociedade urbana, complexa e plural.

Na verdade, são muitos os elementos a serem refletidos e, ao mesmo tempo, são muitas as perguntas que surgem ao levar adiante um processo evangelizador baseado na centralidade dos pobres e na luta pela justiça. A isso buscam responder as CEBs do Brasil e de tantos lugares do mundo, especialmente da América Latina. Tudo isso sem esquecer da letra da canção com que o encontro foi encerrado: “Nossa alegria é saber que um dia todo este povo se libertará, pois Jesus Cristo é o Senhor do mundo, nossa esperança realizará”.

*Sacerdote diocesano de Madri desde 1998 e missionário na Diocese de Ruy Barbosa, Bahia, Brasil desde 2006.

CEBs_cartaz

Fonte:

periodistadigital.com

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