Quando refletimos sobre o significado de evangelizar diante dos desafios e urgências que emergem do contexto em que vivemos, percebemos, imediatamente, com intensa lucidez não se tratar de tarefa simples. Implica árdua preparação, contínuo exercício de reflexão e estudo, e, sobretudo, cultivo da mística de Jesus e da espiritualidade dos profetas e profetisas do Reino.

Crianças brincam sua inocência mergulhadas na triste realidade em um dos milhares de lixões do Brasil.

Tristeza

Paulo Gabriel

Pode ser hoje um desses dias férteis

Em que a tristeza toma conta do mundo

E a alma expande olhando o infinito.

[O sentimento de tristeza é fundamental, sobretudo quando tomamos conhecimento ou, o que é ainda pior, quando estamos diante de determinadas circunstâncias sociais que violentam a dignidade humana e agridem a vida. Não entristecer-se em situações assim equivaleria a deixar-se levar pela indiferença ou pela omissão. A tristeza, para não ser doentia ou insossa, precisa provocar reflexão ética, mobilização social, vontade coletiva de transformação, comprometimento corajoso e profético em busca de outro mundo possível…]

Vazio, estou triste

Como estão tristes as árvores sozinhas

E nada faz sentido.

[Como poderíamos não ficar tristes diante do que não faz qualquer sentido humano, ético, cristão… Por exemplo, como aceitar passivamente ou nos calar diante da fome de um irmão, da violência que agride uma criança ou um idoso, da expropriação gananciosa do sangue dos povos indígenas, das armas que destroem a beleza da vida, da exclusão social, do trabalho escravo, do pornoturismo infantil, da discriminação étnica e sexual, da corrupção política. Ai de quem não se sentir vazio, indignado e não se fizer solidário às vítimas.]

Sem o sol a tarde está deserta

E eu estou como a tarde.

Ah! Se a chuva viesse!

[Experimentar a falta de lucidez, de luz no fundo do túnel ou ser engolido pela solidão desértica e árida… desejar ardentemente recuperar o horizonte da esperança, vencer a tentação do não acreditar mais nos sonhos e nas utopias: Urge dar as mãos, irmanar-se nas lutas e pelejas teimosas, fazendo memória dos profetas e profetisas que atravessaram mares e rios de dificuldades, transpuseram montanhas e abismos de impedimentos ou tornaram fecundos o que antes era deserto. Importa não claudicarmos diante da sede de sentido, da fome de transcendência e do desejo infinito de amar e ser amado com cada vez maior profundidade.]

Estou triste e desejaria chorar,

Mas não há lágrimas nos olhos:

Só um nó na garganta 

E um “não sei por quê”.

[Sentir tristeza pode ser, de fato, somente um primeiro passo na realização de nossa vocação maior: aprendermos a amar uns com os outros! Ainda que experimentemos, a fragilidade da falta de lágrimas e a força paralisante da nossa impotência, da descrença em nossas ambivalentes organizações e religiões, com a clara consciência da própria imperfeição e tibieza… é necessário que aquele nó na garganta se transforme em processo mobilizador e criativo que faz da indignação intrépida bandeira, e do “não sei por quê”, uma caminhada teimosa deixando-se mover pela fé contagiante no Deus da Vida.]

Criança brinca, talvez sonhando, com o fim de sua exclusão digital e social.
Criança brinca, talvez sonhando com o fim de sua exclusão digital e social.

Poema de Paulo Gabriel, comentários de Edward Guimarães.

Fonte:

GABRIEL, P., Nesta noite eu conspiro, Belo Horizonte: Maza Edições, 2004, p. 39.

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