Francisco organizando a esperança

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Thomaz Ferreira Jensen

Em pouco mais de dois anos, papa Francisco já deixou uma marca profunda na história de lutas e de organização popular mundial. E o fez em sintonia profunda com seu tempo – especialmente com os jovens de seu tempo. Nisto consiste, talvez, sua grande lição.

Em sua recente peregrinação pela América do Sul, no mês de julho, Francisco esteve no Equador, no Paraguai e, de forma especial, na Bolívia, etapa em que se reuniu, pela segunda vez em menos de um ano, com 1.500 lideranças populares e sindicais de 400 organizações sociais de 40 países do mundo.

Do Brasil, participaram 250 pessoas, como João Pedro Stédile (Via Campesina e MST), Beatriz Cerqueira, presidenta da Central Única dos Trabalhadores de Minas Gerais (CUT/MG), lideranças do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), da Consulta Popular e do Levante Popular da Juventude, entre outros.

Este encontro na Bolívia é fruto de outro, realizado entre 27 e 29 de outubro de 2014, em que o Papa recebeu no Vaticano cerca de cem dirigentes sociais dos cinco continentes, que representaram organizações de base principalmente de três frentes de luta – trabalhadores precarizados, camponeses sem terra e pessoas que vivem em moradias precárias – mas também sindicalistas, ativistas de direitos humanos e de pastorais sociais.

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Os três dias do encontro na Bolívia se basearam em discussões em torno dos eixos “terra”, “trabalho” e “teto”. Esses eixos foram inspirados na exposição de Francisco no primeiro encontro, em que destacou que é preciso lutar para que não haja mais “nenhum camponês sem terra, nenhum trabalhador sem trabalho digno e nenhuma família sem moradia digna”. Francisco fala a partir do ponto de vista dos excluídos.

Já no início de seu histórico discurso durante este encontro, afirmou Francisco:

Digamos sem medo: queremos uma mudança, uma mudança real, uma mudança de estruturas. Este sistema é insuportável: não o suportam os camponeses, não o suportam os trabalhadores, não o suportam as comunidades, não o suportam os povos… E nem sequer o suporta a Terra, a irmã Mãe Terra, como dizia São Francisco.

O discurso completo de papa Francisco no dia 9 de julho pode ser acessado em: http://pt.radiovaticana.va/news/2015/07/10/discurso_do_papa_aos_movimentos_populares_(texto_integral)/1157336

Papa Francisco no Equador

Como bem frisou o sociólogo argentino Atílio Borón:

com suas palavras foi aberto, pela primeira vez em muito tempo, um espaço enorme para avançar na construção de um discurso anticapitalista arraigado nas massas, algo que até agora havia sido uma empreitada destinada a ser neutralizada pela ideologia dominante, que difundia a crença de que o capitalismo era a única forma sensata – e possível – de organização econômica e social. Já não é mais. O histórico discurso de Francisco na Bolívia instalou no imaginário público a idéia de que o capitalismo é um sistema desumano, injusto, predatório, que deve ser superado mediante uma mudança estrutural e, por isso, não há que temer a palavra ‘revolução’. O importante, o decisivo, é que graças às suas palavras estamos em melhores condições para vencer a batalha de idéias de forma a convencer todas as classes e camadas oprimidas, as principais vítimas do sistema, de que é preciso acabar com o capitalismo antes que esse infame sistema acabe com a humanidade e com o planeta”.

Para Alfredo Bosi, professor titular de Literatura Brasileira na Universidade de São Paulo e membro da Academia Brasileira de Letras:

as expressões do papa Francisco não deixam margem a dúvidas. Trata-se de uma condenação formal a todo tipo de economia centrada exclusivamente no lucro e não na pessoa humana. Essa economia ‘mata’ – é o verbo usado pelo papa – e tem um nome conhecido. Chama-se capitalismo, hoje globalizado. O papa não está, a rigor, inovando: apenas retoma a frase incisiva de Cristo: ‘Não se pode servir a dois senhores: ou servir a Deus ou servir às riquezas’ (Mateus 6, 24). (…) Sua doutrina social retoma os princípios básicos da Teologia da Libertação, que agora pode reviver sem receio de trancas institucionais. (…) Quanto à ênfase nos movimentos sociais e populares, evidente no discurso do papa, significa uma saudável desconfiança em relação à grande maioria dos partidos políticos que se converteram em toda parte em entidades burocráticas voltadas, sobretudo, para se manterem no poder ou para alcançar o mesmo poder a todo e qualquer custo. Os movimentos sociais populares oxigenam a democracia e a tornam mais participativa.

Encontro com Papa

Fábio Konder Comparato, professor emérito da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, é direto:

Francisco é um revolucionário! (…) Francisco representa uma abertura extraordinária que antes só havia sido feita por João XXIII, quando convocou o Concílio e disse que a Igreja precisava se abrir para o mundo, pois estava fechada sobre si mesma.

E Mino Carta, jornalista diretor de redação da revista Carta Capital, afirmou recentemente:

papa Francisco é hoje em dia o único, grande estadista de dimensões mundiais, reformador determinado, corajoso, inspirado. (…) É ele quem se ergue contra o que define como a ‘ditadura sutil’ imposta à Humanidade pelo poder do dinheiro, para aprofundar vertiginosamente o abismo entre ricos e pobres”.

De forma profética, evangélica e talvez inédita na História da Igreja Católica, “Francisco está organizando a esperança”, na sábia formulação de Frei Betto. Reunindo movimentos populares, sindicais, do campo e da cidade, especialmente das periferias do mundo. Felizes aqueles que vivem estes tempos de esperança – e se colocam ao lado dos que lutam pela libertação, em todo o planeta!

Fonte:

Artigo escrito por Thomaz Ferreira Jensen, em diálogo com colegas do Grupo de Análise do Contexto Internacional publicado no Boletim da Rede, editado pelo Centro Alceu Amoroso Lima, de Petrópolis.

Texto para os artigos publicados

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