Releitura crítica dos entraves bíblicos sobre os católicos divorciados e em segunda união não poderem receber a comunhão, feita por teólogos e biblistas:

00

Carta ao Bispo de Roma

Irmão Francisco, “Pedro entrevisto”,

estas linhas gostariam de completar, em outra perspectiva, o escrito de quase meio milhão de fiéis, no qual lhe pedem, com afinco, que “reafirme categoricamente o ensinamento da Igreja de que os católicos divorciados e em segunda união não podem receber a sagrada comunhão”. Por amor a Jesus, gostaríamos de lhe pedir, com igual desejo, para que todos nós sejamos fiéis ao Espírito do Evangelho, para além de supostas fidelidades à letra de alguns determinados ensinamentos da Igreja.

Falamos de suposta fidelidade não para julgar a intenção daqueles que lhe escreveram, mas porque, na realidade, o ensinamento da Igreja não é que esses divorciados em segunda união “não possam receber a sagrada comunhão”, mas que, segundo o Concílio de Trento, “a Igreja não erra quando lhes nega a comunhão”. Essa formulação, cuidadosamente escolhida naquele concílio, deixava aberta a possibilidade de que também não haja erro, nem infidelidade, na postura contrária, e que se trata mais de uma questão pastoral do que de uma questão dogmática.

Em nossa opinião, a prudência pastoral não apenas permite, como também, hoje, reivindica uma mudança de postura. Pelas seguintes razões:

1. Na Palestina do século I, as palavras de Jesus afetavam diretamente o marido que traía e abandonava sua mulher por gostar mais de outra, ou por motivos deste tipo: são primariamente uma defesa da mulher. Disto, sim, resulta inapelável a frase do Mestre: “o que Deus uniu, o homem não separe”.

No tempo de Jesus, não se conhecia a situação de um matrimônio que (talvez por culpa dos dois ou por uma incompatibilidade de personalidade, não descoberta antes) fracassasse em seu projeto de casal. Dada a situação da mulher em relação ao marido, na Palestina do século I, essa hipótese era impensável. E aplicar as palavras de Jesus a outra situação desconhecida em sua época, onde o que ocorre não é o abandono de uma parte, mas, sim, um fracasso dos dois, poderia equivaler a desfigurar essas palavras. Estaríamos, assim, manipulando Jesus em benefício da própria segurança dogmática, e colocando a letra que mata à frente do espírito que dá vida, contra o conselho paulino.

O Evangelho deve ser inculturado e quando não é inculturado, é traído. Os exemplos a seguir podem esclarecer isto um pouco mais.

2. O evangelista Mateus, que talvez seja o que mais fala de transgressões à Lei por parte de Jesus, é curiosamente o único que coloca em seus lábios a frase: “não pensem que vim abolir a Lei… Eu vim para cumpri-la até o último acento”. Permite-nos entender assim que, naquelas transgressões à letra, Jesus estava cumprindo a Lei até ao fundo, porque estava guardando seu espírito.

E o espírito fundamental de toda a lei evangélica é a misericórdia: não uma misericórdia molenga, é claro, mas uma misericórdia exigente. Contudo, de maneira alguma, uma exigência imisericordiosa. Talvez, pois, tenham algo que nos dizer, aqui, aquelas palavras com as quais Jesus responde aos escândalos que sua conduta misericordiosa provoca: “aprendam, pois, o que significa ‘eu quero misericórdia e não o sacrifício’… (Mt 9,13 e 12,7).

3. A Igreja primitiva oferece outro exemplo evidente dessa fidelidade ao espírito acima da letra, com o abandono da circuncisão. A circuncisão tinha algo de sagrado como símbolo expressivo da união entre Deus e seu povo; também poderia ter se valido dela a citada palavra de Jesus: “o que Deus uniu, o homem não separe”. No entanto, a Igrejaabandonou essa prática após fortes discussões e contra a opinião de alguns que acreditavam ser mais fiéis a Deus e, na realidade, buscavam sua própria segurança. Graças àquela decisão tão discutida, a Igreja não só foi fiel a Deus, como também abriu as portas à evangelização do mundo inteiro. E hoje aquela decisão pode nos parecer evidente, mas, naquele momento, para muitos resultou escandalosa.

O próprio Pedro, em seu discurso em defesa daquela decisão, que hoje nos parece tão fiel ao Espírito de Jesus, falou em “não impor um jugo que nem nossos pais e nem nós somos capazes de suportar” (At 15, 10). Este é um dos maiores pecados que a Igreja pode cometer. E é muito discutível que pessoas celibatárias possam compreender o que significa conviver, todos os dias, íntima e pacificamente com outra pessoa com a qual não se tem a menor sintonia. Assim como é discutível que pessoas celibatárias pudessem se abster de manter relações sexuais com uma pessoa com a qual convive, dia e noite, e a qual se ama.

4. Tememos que os defensores do rigor pensem que implantar na Igreja uma “disciplina de misericórdia” equivaleria a abrir as portas para um relaxamento moral, ou para que a Igreja aceite os mesmos critérios sobre o divórcio que nossa sociedade pagã. Na realidade, não é assim: não se questiona, em absoluto, a indissolubilidade do matrimônio; e a disciplina de misericórdia continua sendo uma disciplina a qual nem todos poderão acolher, pois exige arrependimento, reconhecimento de culpa e propósito firme de reparação. A questão da qual se trata é a de não deixar aqueles que fracassaram sozinhos e sem ajuda. Assim como Jesus, que comia com pecadores não porque fossem bons, mas para que pudessem ser.

Teresa de Ávila, cujo (quinto) centenário estamos celebrando, recorda em sua autobiografia que quando se sentia pecadora ou infiel, algumas vezes, procurava se privar da oração, pois não se sentia digna dela. Até que descobriu que aquele remédio era pior que o seu mal. A própria Igreja sempre ensinou (e a prática confirma isso) que a participação na Eucaristia pode ser uma grande ajuda e uma força para viver evangelicamente. Tememos que privar dessa força aqueles que fracassaram em seu primeiro matrimônio, e que já fizeram penitência por esse fracasso, poderia acabar afastando-os da fé.

5. Finalmente, fica a pergunta se na Igreja deve haver uma dupla medida para as infidelidades ao Evangelho que afetam o campo sexual e para as que afetam outros campos da moral.

Por exemplo: a Igreja sempre ensinou que o único proprietário dos bens da terra é Deus e que nós, homens, somos apenas administradores daquilo que acreditamos possuir. Essa condição de administrador pede ao homem que coloque todos os bens que possui em quantidade a serviço dos que possuem menos: os pobres e os carentes de recursos.

Justamente por isso, a Igreja não reconhece um direito absoluto à propriedade privada, mas apenas na medida em que este seja um meio para satisfazer o direito primário e absoluto de todos os homens aos bens da terra. Esse ensinamento do destino primário dos bens da terra, tantas vezes recordado pelos últimos papas, não é cumprido por uma maioria de católicos, sem mostrar, além do mais, o mínimo arrependimento e vontade de reparação por causa disso.

Porque esse ensinamento da Igreja é também muito contrário à mentalidade deste mundo pagão. Não é uma flagrante injustiça que esses católicos sejam admitidos para receber os sacramentos que são negados para os outros casos de união fracassada, quando nestes haja um arrependimento e vontade de reparação que não se dão naqueles?

Deus não tem dois pesos e duas medidas, melhor ainda: sua parcialidade é sempre em favor dos mais pobres e das vítimas. Nas parábolas que do fariseu e o publicano ou do irmão mais velho do pródigo, que são contadas pelo Evangelho, Jesus esteve surpreendemente ao lado dos transgressores: porque aos que os acusavam, todas as obras boas que fizeram não haviam servido para ter um coração bom, mas, sim, para ter um coração duro.

Nada mais, irmão Pedro. Só queremos expor uma opinião. Agradecemos muito pelos seus esforços, em meio a tão cruéis resistências, em dar à Igreja um rosto mais conforme ao Evangelho e ao qual Jesus merece.

Fonte:

http://www.ihu.unisinos.br/noticias/546083-grupo-de-teologos-espanhois-lanca-uma-campanha-em-apoio-a-comunhao-aos-divorciados

Anúncios