Diante das “cruéis resistências” e das pressões cada vez mais potentes dos rigoristas, sofridas pelo Papa, a maioria silenciosa começa a se mobilizar para apoiar a “primavera” de Francisco. A iniciativa parte de um grupo de teólogos espanhóis, de reconhecido prestígio, que acaba de lançar uma campanha de coleta de assinaturas em apoio a uma eventual decisão do Sínodo de permitir o acesso à comunhão aos divorciados em segunda união.

Fonte: http://goo.gl/RpwAti

A campanha em espanhol (a qual acompanharão outras em inglês, francês, alemão e italiano) se intitula ‘Carta ao Bispo de Roma’ e é assinada por 18 teólogos, um comunicador religioso e o bispo emérito de Palencia,Nicolás Castellanos. Entre os teólogos, assinam José Ignacio González Faus, Andrés Torres Queiruga, Luis González-Carvajal, Javier Vitoria, Lucía Ramón,Joaquín Perea e Ximo García Roca.

A petição, lançada através da plataforma Change.org, pede a todas as “pessoas de boa vontade”, especialmente aos fiéis católicos, que contribuam com sua assinatura “aoPapa da misericórdia e aos padres sinodais que queiram segui-lo neste caminho de uma ‘misericórdia exigente’”.

Os que assinam afirmam, na apresentação da campanha pela plataforma Change, que “os setores rigoristas pressionam cada vez mais o Sínodo e Roma”. Já na carta, destacam, concretamente, a coleta de quase meio milhão de assinaturas que pedem ao Papa que não permita a comunhão aos divorciados.

Para completar e não confrontar essa petição, os assinantes pedem totalmente o contrário e querem que seja ouvido “o clamor do Povo de Deus, até agora silencioso, sobre este assunto”.

Os teólogos afirmam, em seu escrito, que admitindo a comunhão aos divorciados, a Igreja é fiel ao espírito do Evangelho e não a sua letra. Como é fiel também ao dogma definido em Trento, bem interpretado.

Afirmam: “Em nossa opinião, a prudência pastoral não apenas permite, como também, hoje, reivindica uma mudança de postura”. E apresentam uma série de razões bíblicas e antropológicas para sustentar o seu pedido.

A primeira é que as palavras de Jesus “o que Deus uniu, o homem não separe” são “primariamente uma defesa da mulher abandonada”.

“No tempo de Jesus, não se conhecia a situação de um matrimônio que (talvez por culpa dos dois ou por uma incompatibilidade de personalidade, não descoberta antes) fracassasse em seu projeto de casal”, explicam os teólogos.

Além disso, seguindo o Evangelho de Mateus, “o decisivo não é cumprir a letra da Lei, mas, sim, seu espírito. E o espírito fundamental de toda a lei evangélica é a misericórdia: não uma misericórdia molenga, é claro, mas uma misericórdia exigente. Contudo, de maneira alguma, uma exigência imisericordiosa. Talvez, pois, tenham algo a nos dizer, aqui, aquelas palavras com as quais Jesus responde aos escândalos que sua conduta misericordiosa provoca: “aprendam, pois, o que significa ‘eu quero misericórdia e não o sacrifício’”… (Mt 9,13 e 12,7)”.

Por essa fidelidade ao espírito da Lei, a Igreja primitiva abandona a circuncisão “após fortes discussões e contra a opinião de alguns que acreditavam ser mais fiéis a Deus e, na realidade, buscavam sua própria segurança. Graças àquela decisão tão discutida, a Igreja não só foi fiel a Deus, como também abriu as portas à evangelização do mundo inteiro. E hoje aquela decisão pode nos parecer evidente, mas, naquele momento, para muitos resultou escandalosa”.

Também ponderam que a Igreja, segundo os Evangelhos, deve fugir de impor jugos, porque este é “um dos piores pecados que a Igreja pode cometer”. Nesse sentido, os que assinam a carta reconhecem que “é muito discutível que pessoas celibatárias possam compreender o que significa conviver, todos os dias, íntima e pacificamente com outra pessoa com a qual não se tem a menor sintonia. Assim como é discutível que pessoas celibatárias pudessem se privar de manter relações sexuais com uma pessoa com a qual convive, dia e noite, e a qual se ama”.

Atender ao espírito da Lei, não impor pesos e optar por uma “disciplina de misericórdia” não significa, como costumam criticar os rigoristas, “abrir as portas para um relaxamento moral, ou para que a Igreja aceite os mesmos critérios sobre o divórcio que nossa sociedade pagã”.

A disciplina da misericórdia que os teólogos recomendam “continua sendo uma disciplina a qual nem todos poderão acolher, pois exige arrependimento, reconhecimento de culpa e propósito firme de reparação. A questão da qual se trata é a de não deixar aqueles que fracassaram sozinhos e sem ajuda. Assim como Jesus, que comia com pecadores não porque fossem bons, mas para que pudessem ser”.

Por outra parte, como dizia Teresa de Ávila e como pratica e ensina a própria Igreja, “a participação na Eucaristia pode ser uma grande ajuda e uma força para viver evangelicamente. Tememos que privar dessa força aqueles que fracassaram em seu primeiro matrimônio, e que já fizeram penitência por esse fracasso, poderia acabar afastando-os da fé”.

Por último, argumentam que a Igreja não deve ter uma dupla vara de medir “para as infidelidades evangélicas que afetam o campo sexual e para as que afetam outros campos da moral”.

Destacam, concretamente, o direito à propriedade que, segundo a doutrina eclesial, “não é um direito absoluto”. E “esse ensinamento do destino primário dos bens da terra, tantas vezes recordado pelos últimos papas, não é cumprido por uma maioria de católicos, sem mostrar, além do mais, o mínimo arrependimento e vontade de reparação por causa disso”. E, no entanto, são aceitos para “receber os sacramentos que são negados para os outros casos de união fracassada”.

Em definitivo, “Deus não tem dois pesos e duas medidas” e, se é parcial com alguém, sempre é com os mais pobres, com as vítimas e com os transgressores, como ensinam as parábolas do fariseu e o publicano, do filho pródigo.

Por tudo isso, os teólogos concluem seu escrito animando o Papa a resistir os embates dos rigoristas. “Agradecemos muito pelos seus esforços, em meio a tão cruéis resistências, em dar à Igreja um rosto mais conforme ao Evangelho e ao qual Jesus merece”.

Lista completa dos que assinam a carta

Xavier Alegre Santamaría
José I. Calleja Saenz de Navarrete
Joan Carrera i Carrera
Lucía Ramón Carbonell
Nicolás Castellanos Franco
Maria Teresa Davila
Antonio Duato
Ximo García Roca
José Ignacio González Faus
Luis González-Carvajal Santabárbara
Mª. Terea Iribarren Echarri
Jesús Martínez Gordo
José Antonio Pagola
Joaquín Perea
Bernardo Pérez Andreo
Josep Mª Rambla Blanch
Andrés Torres Queiruga
José Manuel Vidal
Javier Vitoria Cormenzana
Josep Vives i Solé

Para assinar a petição, clique aqui.

(A reportagem é de José Manuel Vidal, publicada porReligión Digital, 21-08-2015. A tradução é do Cepat)

Fonte:

http://www.ihu.unisinos.br/noticias/546083-grupo-de-teologos-espanhois-lanca-uma-campanha-em-apoio-a-comunhao-aos-divorciados

Anúncios