Frater Henrique Cristiano José Matos
Frater Henrique Cristiano José Matos,

“Estive preso e me visitastes…” Não é necessário acrescentar mais nada. É realmente tudo: visitamos o próprio Senhor que, na pessoa do preso, nos tocou e… converteu!

A Pastoral Carcerária é relativamente pouco conhecida no conjunto dos serviços da Igreja. Não dá ‘ibope’ e, aparentemente, tem resultados escassos. Entre os fiéis em geral não exerce muita atração. Não pode ser comparada à Pastoral da Criança ou do adolescente ‘em situação de risco’ pois estas conseguem facilmente mover os corações do povo. Com a Pastoral Carcerária acontece exatamente o contrário. Muitos pensam assim: “Estão pagando o que devem” e “Lugar de bandido é mesmo a cadeia”! Percebe-se a dificuldade de interessar voluntários para assumir um trabalho pastoral nos presídios e, igualmente, para obter recursos necessários para o desenvolvimento do serviço prestado. Sempre esbarramos com fortes resistências e até notáveis preconceitos quando se fala de “humanizar o sistema prisional”.

Em novembro de 2009 começou timidamente e de forma improvisada a visita semanal a uma das unidades prisionais de São Joaquim de Bicas. Foi a primeira vez que a Igreja Católica se fez, oficialmente, presente na Penitenciária Professor Jason Soares Albergaria (PPSJA), desde a sua inauguração. No espaço de três anos houve um promissor desenvolvimento do serviço prestado aos presos, sobretudo depois da criação do “Centro de Atendimento ao Preso”, o APC (Apoio à Pastoral Carcerária), anexo ao C-4, em Farofa (Bairro Nossa Senhora da Paz, Município de São Joaquim de Bicas).

A base evangélica da Pastoral Carcerária é o texto de Mateus 25,36 “eu estava na prisão e foram me visitar”. Lemos aí que o próprio Cristo se identifica com o ser humano privado de sua liberdade. É tudo! Jesus coloca esta “obra de misericórdia” como um dos critérios de salvação ou de perdição!

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Trata-se de uma ação de extrema simplicidade: visitar quem se encontra preso, interessar-se por ele, conhecer sua história pessoal e tomar conhecimento de seu sofrimento. Aplica-se aqui o tripé de toda autêntica obra de misericórdia: VER,COMOVER e AGIR. O mero fato de querer ouvir o que o detento nos quer dizer já é um ato libertador. Muitos presos desejam apenas “ser ouvidos”. O maior sofrimento no presídio é o abandono: a experiência de ser tão-somente “um número”, não ser reconhecido como pessoa e mesmo esquecido até pelos próprios familiares.

O detento sente-se, então, um excluído, um homem “sem valor”, alguém que a sociedade despreza e rejeita. De fato, a sociedade considera, quase sempre, os presos como seres perigosos que devem ser mantidos longe da convivência social. No fundo, nem querem sua ressocialização! Mas quem conhece, por dentro, a realidade da cadeia chega a outras conclusões. Atrás das grades encontramos pessoas que, frequentemente, estão ali porque a sociedade as fez assim! Na realidade, elas têm sentimentos, conhecem saudades, arrependem-se dos crimes cometidos e muitos desejam sinceramente começar uma vida nova.

A principal finalidade da Pastoral Carcerária é acercar-se dessas pessoas humanas na sua situação concreta. Conhecer primeiramente suas necessidades mais urgentes é o caminho natural para entrar em contato mais íntimo com eles. Temos diante de nós pessoas com carências de todo tipo, desde as coisas mais elementares de higiene, até a depressão psicológica resultado da carceragem.

Conhecer essas necessidades a atendê-las dentro das reais possibilidades, é a porta que dá acesso a uma aproximação mais profunda de ordem espiritual. Particulamente a palavra viva da Bíblia tem uma surpreendente ressonância entre a população carcerária. Muitos procuram entrar em comunhão com Deus, o Único – disse recentemente um dos presos – que não me abandonou! Para atender a esse desejo, a nossa Equipe de pastoral elaborou um pequeno livro, intitulado: ORAR NO PRESÍDIO.

Trabalhar no presídio, em missão evangelizadora, é um desafio. Trata-se de uma pastoral de “escondimento”, de parcos sucessos e permanentes decepções do ponto de vista puramente humano. Ao mesmo tempo, envolve profundamente a pessoa de quem faz a visita, dando-lhe oportunidade de entrar num mundo de sofrimentos pouco conhecido, com a possibilidade de poder aliviar as dores e injetar novas esperanças. É emocionante ler as cartas que chegam à secretaria do APC sobre atuação dos agentes de pastoral e os atendimentos feitos. Nossa zelosa e competente secretária Mônica, com fina sensibilidade feminina, faz a triagem das correspondências e providencia os pedidos.

“Estive preso e me visitastes…” Não é necessário acrescentar mais nada. É realmente tudo: visitamos o próprio Senhor que, na pessoa do preso, nos tocou e… converteu! Curiosamente, quem mais lucra com a visita é o próprio agente pastoral!

                                                                       Frater Henrique Cristiano José Matos

Membro da Congregação dos Irmãos (Fráteres) de Nossa Senhora Mãe da Misericórdia, frater Henrique é pesquisador da história da Igreja, área na qual tem diversas publicações.

Fonte:

http://www.cmmbrothers.org/pt/witness/30

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