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Zwinglio Dias

“A vivência da fé, especialmente da fé cristã, perdeu sua dimensão essencial que é viver com e para os demais”

No imaginário nacional contemporâneo, o golpe militar de 1964 marca um mergulho no período conhecido (inclusive nos livros didáticos de hoje) como “os anos de chumbo”. Contrariando esta percepção atualmente mais dominante – mas nem por isso livre de ameaças –, à época, muitos foram os setores da sociedade brasileira a saudar o golpe como uma espécie de salvação para nosso país. Entre estes estiveram diversos grupos religiosos como os protestantes, cujos líderes conservadores propagavam a ideia de que o regime autoritário seria, na verdade, “uma intervenção divina para salvar o Brasil do comunismo”. É o que explica o pastor emérito da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil, o mineiro Zwinglio Dias, 73.

Além de liderança religiosa, Zwinglio é teólogo, professor de Ciências da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora, associado de KOINONIA e editor da Revista eletrônica “Tempo & Presença Digital”. É também o organizador de “Memórias Ecumênicas Protestantes”, livro lançado no final de 2014 no Rio, contando histórias da resistência, mas também da colaboração destes religiosos durante a ditadura. Zwinglio é ainda o principal entrevistador no documentário “Muros e Pontes: o Protestantismo na Ditadura”, dirigido por Juliana Radler, que estreou também em dezembro do ano passado na capital fluminense.

O pastor escreve com conhecimento de causa: foi preso no Doi-Codi, viveu no exílio em países como Alemanha e Uruguai e teve seu irmão, o jovem Ivan Mota Dias, assassinado pela repressão no início dos anos 1970. Zwinglio destaca que tanto resistência quanto colaboração foram motivadas por diferentes visões sobre como praticar a fé. Para ele, a salvação de almas tinha necessariamente a ver com a transformação social, o que lhe rendeu expulsão do Seminário Presbiteriano, em 1962. O contraponto ao conservadorismo encontrou apoio no Movimento Ecumênico, no qual os envolvidos “repudiaram a quebra da ordem democrática e se opuseram, de variadas formas, ao regime autoritário”, conta.

Confira a entrevista.

1. Você imagina que os próprios protestantes, em geral, tenham ideia de que membros de suas igrejas um dia se engajaram de forma tão visceral na luta pela democracia no país?

Posso afirmar, com segurança, que a maioria dos protestantes/evangélicos quase nada sabe a respeito. Isto por uma razão muito simples: a imensa maioria das igrejas evangélicas, conduzidas à época por representantes de seus setores mais conservadores, saudou o golpe civil-militar como uma “intervenção divina” para “salvar o Brasil do comunismo”. Do ponto de vista institucional, a história do envolvimento de setores evangélicos, especialmente a juventude, na luta em favor da democracia, foi “varrida para baixo do tapete” e ocultada das novas gerações. A permanência, por cerca de duas décadas, de lideranças autoritárias no “comando” das igrejas não permitiu nem a circulação de notícias a respeito e muito menos a discussão livre sobre os acontecimentos sociopolíticos que marcaram esse período no país.

2. Há relação entre a postura ecumênica de determinadas figuras e a atitude de resistência contra a ditadura?

Com certeza! O ecumenismo implica, antes de tudo, em respeito e acolhimento ao outro/a, ao seu direito de ser e permanecer o diferente que ele/a é. Trata-se de uma postura que pressupõe a democracia, a garantia do direito à cidadania para todos/as. Neste sentido todas as pessoas envolvidas com o movimento ecumênico no Brasil repudiaram a quebra da ordem democrática e se opuseram, de variadas formas, ao regime autoritário.

3. Você acha que as memórias recuperadas pelo projeto podem contribuir para a criação de novos imaginários sobre os protestantes nos dias de hoje? Ou seja, novos repertórios, novas figuras de referência…

Quanto a isso não tenho dúvidas! Penso que parcelas significativas das novas gerações, de diferentes igrejas, se sentirão sensibilizadas com as revelações trazidas à luz tanto pelo documentário quanto pelo livro, produtos deste projeto de recuperação da memória da história dos protestantes brasileiros. Os testemunhos dos jovens engajados nas lutas atuais mostram isso com clareza.

4. Os jovens protestantes e ecumênicos de hoje também tem lá seus desafios, por exemplo, diante de um Estado em que os avanços no campo da segurança são muito inferiores àqueles promovidos nos últimos anos em outras áreas. A violência tem se expressado, sobretudo, nos homicídios dos jovens. Como você vê as lutas atuais da juventude? Como os jovens religiosos tem interferido nesse tipo de questão e que campo encontram entre os religiosos, de forma geral?

Os desafios que os jovens, de maneira geral, têm de enfrentar hoje são muitos e de não pequena monta. Um dos eixos de atuação da Rede Ecumênica de Juventude é precisamente este relativo ao morticínio da juventude, especialmente da juventude pobre e negra. Em algumas organizações religiosas isto já se tornou um tema que articula e organiza o trabalho da juventude. Mas é preciso lembrar, no entanto, que se trata ainda de mobilização e ação de grupos minoritários. A grande maioria das igrejas e dos movimentos religiosos massivos, sujeitos à manipulação midiática por parte de lideranças comprometidas com o status quo reinante, não está comprometida com esta triste realidade. A articulação de Rede de Juventude já se deu conta de que não pode contar com a maioria das estruturas religiosas que estão mais voltadas para si mesmas do que para a sociedade e seus problemas, a quem deveriam servir. Assim se organizam enquanto jovens e procuram sensibilizar a juventude desses segmentos a partir de seus problemas e anseios, com relativo êxito.

5. A correspondência entre justiça social e os princípios religiosos é ponto pacífico entre os personagens do livro e do filme. O que falta hoje para que esta atitude diante da fé adquira mais dominância?

Vivemos hoje num contexto muito diferente daquele experimentado por esses personagens. Como naquele tempo, também hoje, as igrejas e organizações religiosas refletem diretamente o clima predominante na sociedade. A ausência de discussão sobre temas políticos e sociais, a ênfase no individualismo, a crescente despolitização, a desqualificação dos esforços de ação coletiva, a criminalização dos movimentos sociais, tudo isso se refletiu, ao passar dos anos na vida das igrejas, reforçando uma vivência religiosa voltada apenas para os interesses individuais das pessoas em flagrante contradição com os valores do Evangelho. A vivência da fé, especialmente da fé cristã, perdeu sua dimensão essencial que é viver com e para os demais. Essa experiência de compartilhamento da vida que só se alcança na vivência comunitária aos poucos foi desaparecendo. As igrejas pouco a pouco foram perdendo suas características de serem espaços de exercício da solidariedade e da comunhão. Cada vez mais os templos são maiores, congregando multidões de indivíduos isolados uns dos outros que buscam na solidão de suas incertezas um suposto milagre para a solução de seus problemas. O martelete midiático, repetindo em roupagem religiosa os valores do mercado, reforça permanentemente que esta é a única solução. Somente a recuperação da dimensão perdida da comunhão entre as pessoas, o exercício pleno da solidariedade é que permitirá, novamente, uma vivência profunda da verdade de toda fé.

Fonte: Koinonia / AGEN

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