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Aproximação ao termo secularização

A palavra secularização vem de saeculum, que, no latim clássico, significava “século” (período de cem anos) e também “idade”, “época”. No latim eclesiástico, adquiriu o significado de “o mundo”, “a vida do mundo” e “o espírito do mundo”, sendo por esta via que se chegou ao sentido da palavra “secularização”.

O termo, utilizado já no século XVII para referir o abandono do sacerdócio ou da vida religiosa – ainda hoje se diz que o padre tal se secularizou –, figura, no Tratado de Vestefália (1648), com o sentido jurídico de apropriação pelo “mundo” de bens pertencentes à Igreja. Luís González-Carvajal, que faz a história do termo, refere que no século XIX começou a assumir um significado cultural, designando “um processo de mundanização vivido pela sociedade no seu conjunto”.

Ainda hoje continuam os debates acalorados, sobretudo no domínio teológico, sobre a secularização. Se não falta quem a condena, pois estaria na base do afastamento da religião, outros saúdam-na como condição da purificação religiosa, da liberdade e da paz.

Há vários sentidos de secularização: pode ser vista como “eclipse do sagrado”, “autonomia do profano”, “privatização da religião”, “retrocesso das crenças e práticas religiosas”, “mundanização das próprias Igrejas”. Aqui, interessa-nos sobretudo o sentido de autonomia das realidades terrestres.

 

I – Secularização no horizonte bíblico

Na perspectiva bíblica, o Deus transcendente pessoal cria o mundo a partir do nada e por um ato de pura liberdade de amor. A criação assim entendida implica uma diferença qualitativa infinita entre Deus e a criatura e a real autonomia do mundo, que é mundano e não divino, e é o fundamento da aliança do Deus-Liberdade com homens e mulheres livres. Se Deus cria a partir do nada, por amor e não por necessidade, então não há rivalidade nem concorrência de interesses entre Deus e a criatura. Pelo contrário, a vontade de Deus é a realização plena do homem: quanto mais vivo e realizado o ser humano for mais Deus é glorificado.

Assim, a secularização no sentido da emancipação da razão autónoma e das esferas temporais tem fundamentos bíblicos e pertence à dinâmica adulta do cristianismo.

 

II – Secularização é diferente de secularismo

É, no entanto, preciso tornar claro que secularização não tem que confundir-se com secularismo, termo criado pela Londoner Secular Society, fundada por G. J. Holyoake, em Londres, em 1846, cujo programa consistia resumidamente em conceber e organizar a vida prescindindo de Deus e da religião. De fato, o crente maior de idade, ao mesmo tempo que pressupõe e quer uma razão e um mundo adultos, também sabe que a secularização não elimina o Mistério, pois a finitude não é secularizável.

Neste contexto, note-se que o projeto de Tratado Constitucional Europeu, no artigo consagrado ao “estatuto das Igrejas e organizações não confessionais”, prevê “um diálogo aberto, transparente e regular com estas Igrejas e organizações”.

Se, por um lado, a secularização enquanto separação da(s) Igreja(s) e do Estado constitui um avanço civilizacional fundamental em ordem à não discriminação dos cidadãos e à salvaguarda da paz, por outro, ela não significa indiferença mútua. Pelo contrário, a separação pode e deve conviver de modo saudável com o reconhecimento do papel público das religiões, traduzido em múltiplas formas de colaboração entre as Igrejas e o Estado.

A título de conclusão: secularização e o papel social da religião

Na situação atual, não foi apenas a “transcendência religiosa” que perdeu vigor, também a “transcendência política” está em crise. Por isso, as sociedades liberais veem-se a braços com a dificuldade de fundamentação dos valores e estabelecer vínculos de cidadania. Nesta linha, não faltam pensadores que fazem apelo à religião no seu papel espiritual, ético, cultural. Respeitando as autonomias individuais e o pluralismo democrático, as religiões podem dar um contributo positivo com os seus recursos simbólicos.

Precisamente face aos enormes desafios éticos com que o nosso tempo se vê confrontado, Jürgen Habermas, um dos maiores filósofos vivos, agnóstico, manifesta “interesse por uma aproximação respeitosa das tradições religiosas que se distinguem pela capacidade superior que têm de articular a nossa sensibilidade moral”, aproximação que ofereceria “o exemplo de uma secularização que salva em vez de aniquilar”.

Para ele, nesta conjuntura, as vozes religiosas têm tanto direito a pronunciar-se como as visões laicizadas do mundo, pelo menos se aceitarem “traduzir a sua mensagem em linguagens públicas e universalmente acessíveis”.

(Adaptação Edward Guimarães)

Texto para os artigos publicados

Anselmo da Silva Borges

Padre da Sociedadeuntitled Missionária Portuguesa. Estudou  Teologia (Univ. Gregoriana, Roma), Ciências Sociais (École des Hautes Études en Sciences Sociales, Paris) e Filosofia (Univ. de Coimbra). Lecionou Filosofia e Teologia na Univ. Católica Portuguesa e no Seminário Maior de Maputo, Moçambique. É docente de Filosofia (Antropologia Filosófica, Filosofia da Religião, Ética, Mulheres e Religiões) na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

Fonte:

http://www.dn.pt/inicio/interior.aspx?content_id=641506&page=-1

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