A partir do século XVII, os crescentes impactos da secularização, esse gigantesco processo de conquista de autonomia dos diversos campos do saber e da política. Qual um tsunami avassalador a ninguém deixou imune. Em provocante artigo, o teólogo jesuíta John Konings analisa o mundo dos jovens e descreve o que ele denomina de “nova secularização”.

Pela atualidade do tema e a importância da busca de compreensão da realidade das juventudes, o Observatório da Evangelização disponibiliza a seguir o texto publicado no site da Dom Total. Os grifos ao longo do texto são nossos.

tablets_vaticano

A nova secularização

Johan Konings

O assunto da secularização voltou novamente à pauta, sobretudo depois que o IBGE em 2010 constatou que no Brasil só tem 2/3 de católicos e 10% sem religião. O avanço das comunidades evangélicas, especialmente de tipo (neo)pentecostal não convence quem está preocupado com o evangelho de Cristo, pois o que mais importa nessas comunidades são muitas vezes os milagres. A meu ver está acontecendo uma nova secularização. Explico.

Nos séculos 17 a 20 presenciamos uma secularização que partia da razão intelectual (espírito científico crítico) e da política (emancipação em relação à “cristandade” como casamento de Igreja e Estado). No que concerne à Igreja católica, essa secularização deu origem ao Concílio Vaticano I (1870, como reação) e ao Concílio Vaticano II (1962-65, como tentativa de diálogo). Aos cinquenta anos do Vaticano II notamos ainda alguns teólogos e sociólogos da religião envolvidos no processo da “sadia secularidade” e da “autonomia das realidades seculares”, inclusive a “desmitologização” da imagem do “Deus-no-céu” e coisas semelhantes.  E é bom que esse processo continue, porque muita gente ainda vive com a cristandade na cabeça, vendo a Igreja (católica) como um poder na sociedade ou, pelo menos, como protetora da cultura e da moral na sociedade.

Mas olhando para os jovens, tenho a impressão de que seu afastamento das comunidades cristãs tradicionais (não só da católica, como também da luterana, presbiteriana, episcopaliana) se deve a outros fatores. Não estão lá muito preocupados com as questões “epistemológicas” ou “metafísicas”, e muito menos ainda com a “moral” e a política, pelo que parece. Alguns mostram admirável sensibilidade pela ética pública, pela ecologia. Mas a maioria está envolvida na tecnociência e no redemoinho da incessante inovação tecnológica e “consumerista”. Ou no mundo do cibernético, do virtual, do imaginário estético-sensitivo sempre mais ilimitado, quando não expandido na base de estimulantes… 

tecnologia-300x264Parece-me que isso representa uma nova forma de secularização, às vezes camuflada por expressões religiosas ecléticas e extravagantes. Afinal, alguns grandes traficantes presos ultimamente andavam com uma vistosa cruz pendurada sobre o peito (com corrente de ouro)…

Essa não é uma secularização que possa ser compreendida num diálogo teológico-filosófico, embora este continue válido. A nova secularização surge, antes, do domínio do psicológico, do afetivo. Os jovens não precisam apenas de coordenadas intelectuais para sua vida. Precisam de símbolos. Eles não se criaram num mundo ordenado como o das comunidades do interior no século 19. Criam-se no caos urbano, onde os valores não são ditados pelo padre e controlados pelo chefe da polícia, mas quase irresistivelmente impostos pela propaganda, pelo comércio. E controlados pela pressão social da hipercomunicação. Não têm exemplos norteadores. Os anciões pertencem a outra civilização, pré-cibernética…

O desafio cristão da “sadia secularização” agora é: como manter a memória e o testemunho de Jesus de Nazaré levantados como bandeira para este novo mundo? Notem bem, eu digo como bandeira, sinal no meio do mundo, assim como a Constituição Lumen Gentium do Vaticano II descreveu a missão da Igreja. Não como uma sociedade dominante, nem paralela, mas como uma comunidade alternativa de discípulos e amigos de Jesus, inseridos na sociedade como entidade particular e cidadã, participando, sem privilégios civis, de tudo o que for bom e mostrando outro caminho na presença daquilo que, à luz do Evangelho, é inaceitável.
Já existem comunidades que entenderam este desafio, não só no Brasil como no mundo inteiro. Possam elas se consolidar e sair para testemunhar, antes do que impor um poder como aconteceu no passado. Serem sal da terra e luz do mundo, sem pretensão de ser “o mundo”…

hqdefaultJohan Konings nasceu na Bélgica em 1941. Doutor em Teologia pela Universidade Católica de Lovaina. Veio para o Brasil em 1972. Foi professor de exegese bíblica na PUC de Porto Alegre e do Rio de Janeiro. Em 1985 entrou na Companhia de Jesus. É professor de exegese bíblica na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia – FAJE, em Belo Horizonte.

Fonte:

Dom Total

Anúncios