Papa Francisco 1000

No início de setembro celebrou-se a Semana do Anima, PUC Minas e, no bojo desse evento, o Primeiro ano de caminhada do Observatório da Evangelização. Fazer memória do caminho percorrido foi, para nós, membros do Observatório, extremamente significativo por retomarmos nossa pequenina história e fazermos memória daquilo que constitui nossa missão, nosso modo próprio de ser, o cerne, enfim, do Observatório.

Como tema para o aniversário, colocamos sobre a mesa um bolo mais que especial a ser repartido entre todos os presentes: “Interpelações do Papa Francisco e desafios para a evangelização no contexto atual”. Convidados para servir o bolo estavam o Frater Henrique Matos (ISTA), o Pe. Eugenio Rivas (FAJE), Edmar Avelar Sena e Edward Guimarães (PUC Minas) e a espátula para partir o bolo estava sob minha incumbência. Antes mesmo de saboreá-lo já sabíamos, todos, que seu gosto permaneceria… Saber é sabor!

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O Papa é argentino, mas o tema tinha algo de quase mexicano, de tão picante. É que os pronunciamentos, exortações e gestos de Francisco têm sido extremamente provocantes: desafiam cristãos, interpelam, também, não-cristãos. Na Evangelii Gaudium nos exorta a evangelizar com criatividade, insiste na importância de recuperar a alegria cristã e a coerência no anúncio, através do testemunho do Evangelho. Pede que haja equilíbrio entre a Mesa da Palavra e a Mesa da Eucaristia. Insiste na importância das redes de comunidades, no reconhecimento da dimensão sociotransformadora da evangelização e na transferência missionária da Igreja, para que essa se torne uma Igreja em saída e não autorreferencial. Afirma que todos os cristãos são chamados a ser discípulas e discípulos de Jesus, daí a necessidade dos leigos ter consciência de sua plena cidadania eclesial e senso de corresponsabilidade pela vida da Igreja. Por isso, Francisco invoca a que haja revisão do processo de iniciação à vida cristã e no investimento à formação de evangelizadores com outra mentalidade, entre tantos outros apelos.

Mas o Papa, com legitimidade e extrema liberdade, se dirige também a todos os povos, a todas as pessoas de boa vontade, pedindo providências na luta pela justiça social e pela paz; urgência no cuidado à criação, antes que não haja mais nada para cuidar, e na atenção ao irmão empobrecido. Francisco, aliás, mostra ser um só o grito do pobre e o grito da Terra. Em sua encíclica Laudato Si, cujo coração traz a ecologia integral como novo paradigma de justiça; uma ecologia “que integre o lugar específico que o ser humano ocupa neste mundo e as suas relações com a realidade que o circunda”(LS, 15) é enfático ao dizer que hoje “não podemos deixar de reconhecer que uma verdadeira abordagem ecológica sempre se torna uma abordagem social, que deve integrar a justiça nos debates sobre o meio ambiente, para ouvir tanto o clamor da terra como o clamor dos pobres.” (LS, 49).

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Um homem assim, aberto à realidade que o circunda, tem, ainda, uma palavra acerca dos fundamentalismos e seus massacres e das guerras que provocam a tragédia em que vivem seus povos, os refugiados e os emigrantes forçados; não se cala ante as perseguições sofridas por tantos, por causa da fé e da pertença étnica; denuncia, profeticamente, o crime organizado e a corrupção, as violações da liberdade e dos direitos dos povos, os abusos e a escravidão das pessoas.

Natural ter sido ele, nosso Papa – que está mudando a face da história até por provocar o diálogo e a abertura entre países antes inimigos – o tema escolhido para essa nossa celebração.

Nossos convidados certamente teriam muito mais a partilhar, mas considerando o parco tempo que tínhamos para esse diálogo, cada qual escolheu um viés a respeito da práxis de Francisco e o privilegiou.

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Frater Henrique tratou de verdadeiras calamidades que nos afligem, tais como a questão dos refugiados, a seca no nordeste, a desertificação provocada pelas mineradoras que, quando se retiram de regiões que eram ricas, deixam a população em extrema pobreza. Asseverou: “não queremos saber como a carne chega à nossa mesa”, em uma reflexão sobre a crueldade com os animais, num amplo horizonte sobre as demandas da mãe Terra. Abordou ainda o sistema prisional brasileiro, que conhece bem a partir de seu trabalho na Pastoral Carcerária, nos dando dados estarrecedores, tal como “85% dos presidiários estão abaixo dos 30 anos de idade”.  Diante de tão dura realidade lançou a pergunta central: “O que Jesus faria?” a qual norteia as ações do missionário e deveria também ajudar-nos a responder coerentemente, como cristãos, às demandas de nossa realidade aqui e agora. “A Igreja estava em uma letargia e esse Papa nos coloca noutra perspectiva. Pequenos gestos dizem muito mais que grandes discursos”, declarou Frater Henrique.

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Já Padre Eugenio afirmou ser este um tempo em que Roma está à frente da Igreja, em seus posicionamentos. Gestos e palavras de Francisco conquistam, por serem simples: desafiam o modo como evangelizamos.

“Francisco é um homem de grande liberdade espiritual: não foge às críticas; não tem medo de tratar qualquer tipo de tema. Ele tem grande convicção que Deus sempre nos precede.” Disse o jesuíta que analisou o perfil do Papa. “Ele tem extrema confiança em Deus com a postura de quem ouve, ciente de que ‘os pobres nos evangelizam’.” Destacou também como uma característica de Francisco a alegria, que brota da fé, porque ele é consciente que a ação de Deus na história gera alegria. Isso por sua confiança no ritmo de Deus. Também é inerente ao Papa assumir atitudes e palavras do passado, mesmo que agora pense e aja de outra forma.

Além disso, padre Eugenio ressaltou o grande respeito que Francisco tem pela liberdade das pessoas. “Ele mantém o horizonte sempre aberto. Não fecha nada. Diz que a Igreja tem que deixar de ser autorreferencial para ir ao encontro das pessoas”. E comentou o fato de o Papa ter se apropriado da riqueza que os meios de comunicação social possuem; mostrar, por sua prática, que a comunicação pode ser usada para o bem.  A esse respeito Francisco demonstra fazer um grande trabalho de atualização – eficaz – por seu modo de falar direto, muito simples, e por isso passível de ser compreendido por todos. Faz-se próximo ao povo.

“Provavelmente esse Papa não vai mudar nada, mas mostra que é possível falar de mudança: ‘primado da misericórdia’”, afirmou Padre Eugênio. Mencionou ainda que nesse pontificado há intensa descentralização de Roma. Agora, os bispos locais podem decidir. Isso porque o Papa é um homem de processo, um peregrino da fé que transmite a fé que vem do povo.

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Por sua vez, Edmar, coordenador da Pastoral da PUC Minas, destacou que a segunda encíclica desse papa, Laudato Si, almeja uma ecologia integral: sistêmica – em relação a todas as coisas. Seu texto trata da questão escandalosa da desigualdade. É vigoroso na crítica à agressão à casa comum. O professor disse que a encíclica questiona nosso compromisso ético com essas interpelações e, devido a isso, muitos reagem a seus posicionamentos e mesmo dentro da Igreja também se reforçam grupos tradicionalistas.

“Vivemos em um período de ressurgimento dos fundamentalismos. Francisco se abre e aponta o caminho da ética, da justiça, do diálogo”, pondera Edmar, afirmando que a economia tem a ver com a política; a ética, com a educação, e que a tecnocracia parte da ilusão que nos ligamos aos demais quando, de fato, cada um vai se isolando. No entanto, a Laudato Si nos abre para novas reflexões neste momento que não é simples.

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Enfim, o Secretário Executivo do Observatório da Evangelização, Edward Guimarães, relatou algo de sua experiência na Jornada Mundial da Juventude quando percebeu que “Francisco se faz comunicar.” Edward enfatizou os gestos proféticos do Bispo de Roma, que remetem imediatamente ao cerne do evangelho, afirmando que não podemos ser indiferentes a isso.

O Papa “demonstra ter mais preocupação com o carisma do evangelho que com a Instituição que dirige. Tem outro olhar sobre os pobres, os refugiados, os doentes, as crianças…” disse o professor ao mencionar que Francisco tem promovido um balanço crítico e autocrítico, pois  entende a evangelização em duas dimensões inseparáveis, uma ad intra (a busca interna de viver de forma coerente com o Evangelho de Jesus) e outra ad extra (a busca de testemunhar com postura de diálogo fraterno e aprendiz, para toda a humanidade, a alegria e a beleza do Evangelho do Reino).

Edward citou Alfredo Bosi, que destaca a força das palavras de Francisco, pois este afirma que o capitalismo mata! E Edgar Morin que diz que o Papa opõe o bem-estar ao bem-viver. Sobretudo, o professor atestou que “o coração do Evangelho é a compaixão: em Francisco se encontra o próprio Jesus que ouve, reflete e diz como agir”.

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De fato, é impossível ficarmos inertes ante as interpelações e desafios a nós lançados por esse Papa, que tem iluminado nossa história. Talvez por isso os presentes no auditório degustaram tão ativamente nosso bolo, com acalorada participação quando a palavra lhes foi dada. Muito obrigada a você, que nos acompanhou na mesa redonda e/ou neste ano de caminhada. Sem você, que sentido teriam nossas observações?

Tânia Jordão.

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