Um Sínodo das soluções

Sínodo

Cerca de 250 bispos de todo o mundo estarão reunidos no Vaticano de 4 a 25 de outubro para aquela que muitos consideram ser a mais importante Assembleia Geral do Sínodo dos Bispos desde o Concílio Vaticano II. Eles se reúnem exatamente 50 anos depois do Concílio para se concentrar sobre a família e, nas palavras do Papa Francisco ao final do Sínodo de 2014, “encontrar soluções concretas para tantas dificuldades e os inúmeros desafios que as famílias devem enfrentar; para dar resposta aos numerosos motivos de desânimo que envolvem e sufocam as famílias”.

Este Sínodo vem levantando grandes expectativas de um lado e muitos medos, de outro, de forma que não víamos algo parecido desde o Vaticano II. Cardeais, bispos e analistas leigos vêm expressando suas esperanças e medos em livros, artigos e entrevistas durante os últimos dois anos, o que revela tanto o reconhecimento da importância do Sínodo quanto a existência de uma divisão entre estes atores – divisão também evidente na edição de 2014 – que pode ser apresentada em dois campos.

Para um deles, a responsabilidade pastoral principal é transmitir, com fidelidade inabalável, a articulação doutrinal da fé católica concernente ao matrimônio, no pleno reconhecimento de que este corre o risco de afastar muitos fiéis da vida da Igreja. Os defensores deste ponto de vista enxergam dois perigos a partir de uma falha nesta responsabilidade pastoral. O primeiro é que ele provavelmente enviaria a mensagem, aos jovens em particular, de que padrões de vida que rejeitam elementos-chave do matrimônio católico são moralmente aceitáveis e podem ser integrados na vida da família e da Igreja.

O segundo perigo, talvez mais grave, é o de uma erosão no conteúdo e na integridade da teologia católica do matrimônio. Aqueles que pertencem a este campo acreditam que o ensinamento católico sobre a sexualidade e o matrimônio é um todo integrado, filosófica, teológica e pastoralmente. Não se pode aparar suas margens a fim de atingir objetivos pastorais, sem se sacrificar a sua estrutura e integridade.

O campo opositor considera esta abordagem como um aprisionamento do trabalho social da Igreja dentro de limites tão estreitos que acaba se afastando-se das realidades da vida matrimonial e familiar na forma como existem no mundo hoje. Os sujeitos aqui veem o desafio pastoral primário da Igreja quanto à vida matrimonial e familiar como um chamado a oferecer um acompanhamento real aos homens e mulheres na medida em que estes se defrontam com decisões importantes e centrais em suas vidas.

Isso só pode ser eficaz caso incluir uma acolhida dos elementos bons e cheios de graça das escolhas de vida que os homens e mulheres estão fazendo, mesmo quando essas escolhas estão incorporadas em ações e relações que não se encontram em conformidade com os elementos principais da visão teológica e filosófica da Igreja. Este acompanhamento não se concilia com uma suspeita orientada doutrinariamente que só consegue ver a lacuna entre a realidade vivida e visão da Igreja, sem reconhecer profundamente a bondade de coração, a vontade e a ação que já se fazem presentes.

Esta divisão não é apenas uma parte do debate do próximo Sínodo. Em essência, ela engloba a escolha a que a Igreja se confronta em todas as facetas do seu ensino e trabalho pastoral neste momento da história. Esta escolha fundamental pode ser enquadrada nos seguintes termos: Será que a Igreja deveria se concentrar mais em apontar para a lacuna entre a visão moral católica e a realidade vivida das pessoas no mundo moderno, ou deveria ela concentrar-se mais em caminhar com os homens e mulheres precisamente em suas realidades vividas, acompanhando-os e apontando para os momentos de graça já presentes em suas vidas como fundamento para avançar em direção ao ideal cristão?

A resposta do Sínodo a esta problemática, por meio das soluções que irá levantar, poderá ter implicações de longo alcance para a forma como a Igreja vai levar a cabo a sua missão no século XXI.

Tendo em vista o Sínodo, Francisco lembrou os novos cardeais, em 15 de fevereiro deste ano, que ao longo da história da Igreja tem “duas lógicas de pensamento e de fé: o medo de perder os salvos e o desejo de salvar os perdidos”. Existe a lógica dos “doutores da lei, ou seja, marginalizar o perigo afastando a pessoa contagiada, e a lógica de Deus que, com a sua misericórdia, abraça e acolhe reintegrando”. Desde o Concílio de Jerusalém em diante, declarou ele, “o caminho da Igreja (…) é sempre o de Jesus: o caminho da misericórdia e da integração”.

(Reportagem: America, edição de 05-10-2015. Tradução de Isaque G. Correa.)

Fonte:

IHU

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