Sinal dos tempos

“Muito tem sido dito ultimamente sobre o que as mídias sociais têm se tornado. Todo o nível de intolerância, ódio, desrespeito e falta de educação que possam ser mantidos é descarregado por trás da proteção de uma tela. E isto não exime os religiosos.”

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Duas semanas atrás, O GLOBO publicou reportagem em Sociedade intitulada “Evangélicos planejam ações para dar visibilidade a projetos de igrejas na área de direitos humanos”. Uma face de evangélicos bem diferente daquela em evidência nas mídias há algum tempo. Grupos que, em nome da fé, atuam na defesa e na promoção de direitos humanos e sexuais. Nessas pautas estão posições religiosas mais abertas em relação a direitos civis LGBT e das mulheres e à política de drogas.

O texto representa uma resposta positiva à necessidade de as mídias darem voz à diversidade de perspectivas e à pluralidade das ideias no âmbito das religiões. Como já nos referimos aqui em vários artigos, esses grupos estão espalhados pelo Brasil há décadas e são formados por homens e mulheres, jovens e adultos, leigos e pastores/pastoras. Boa parte das vezes são invisíveis por conta dos valores religiosos mais fechados que prevalecem nos ambientes religiosos, mas não só, também nos espaços midiáticos.

No entanto, quero chamar a atenção para as reações. Refiro-me aos comentários da postagem sobre a matéria que o jornal fez na página do Facebook. Durante dois dias foram quase 600 comentários, sem contar as inúmeras respostas dentro deles. Grandíssima parte do conteúdo é crítica à reportagem. Pela linguagem, parece ser originária de pessoas religiosas, boa parte evangélica. Reproduzo a seguir algumas das expressões exaustivamente repetidas pelos comentaristas.

“Marxistas (ateus) disfarçados de evangélicos… Se não respeitam a família tradicional, terão seu lugar reservado no inferno quando Jesus voltar… Não são evangélicos, só um bando querendo aparecer… Tenho certeza absoluta de que não são evangélicos… São idiotas querendo fazer média para agradar gregos e troianos… Lobos em pele de ovelha. Devem estar ganhando alguma grana para isso… São uma vergonha para os cristãos… Bando de esquerdistas que rezam mais para Che Guevara do que para Jesus… Na verdade são pessoas com distúrbios usando o nome da religião e dos cristãos… Esses caras nunca leram a Bíblia… É o fim do mundo! Volta logo, Jesus! Este é o lixo da Missão Integral… São verdadeiros demônios em busca de dinheiro e poder! Que p… de crente é esse? Eles pregam o inferno gospel? Essa corja de f… não são cristãos nem aqui nem no inferno. Não tenho dúvidas de que não passam de chupadores de PT, comunismo, Paulo Freire e Leonardo Boff, são, portanto, inimigos!”

Muito tem sido dito ultimamente sobre o que as mídias sociais têm se tornado. Todo o nível de intolerância, ódio, desrespeito e falta de educação que possam ser mantidos é descarregado por trás da proteção de uma tela. E isto não exime os religiosos. Aqueles que trazem consigo (ou deveriam trazer) a marca do re-ligar, do re-conciliar, comungar, próprios do sentido de uma fé.

De fato, temos o retrato do que a educação religiosa deste tempo de doutrinas individualistas, mercadológicas e bélicas tem feito com pessoas cristãs. Tornam-se repetidoras da linguagem rancorosa, exclusivista, desrespeitosa e desamorosa que líderes religiosos usam nessas mesmas mídias. Linguagem também presente em populares canções gospel que ensinam a “pisar na cabeça do inimigo” e expressões similares. Não há espaço para a diferença, a dissonância, a pluralidade. Pelo contrário, há o combate violento e desqualificador.

Se vamos mal de valores na sociedade contemporânea, o que esperar da religião? Pelo menos desta, dos comentários descritos, não se pode esperar muito. Mas isto não é novo. O escritor russo Dostoiévski, no século XIX, já narrava que se Cristo voltasse à Terra seria crucificado de novo… Ainda bem que há aqueles que o seguem até o fim.

Magali Cunha, Doutora em Ciências da Comunicação, Mestre em Memória Social e Graduada em Comunicação Social (Jornalismo) pela Universidade Federal Fluminense. Atualmente é professora da Universidade Metodista de São Paulo
Magali Cunha, Doutora em Ciências da Comunicação, Mestre em Memória Social e Graduada em Comunicação Social (Jornalismo) pela Universidade Federal Fluminense. Atualmente é professora da Universidade Metodista de São Paulo

Fonte:

http://oglobo.globo.com/sociedade/religiao/sinal-dos-tempos-17657071

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