Entrevista com Faustino Teixeira

Quais são os nexos que unem uma irmã religiosa carmelita do século XVI com um monge trapista que viveu quatro séculos mais tarde? Quais motivos levam a celebrar neste 2015 que se aproxima, tanto o aniversário dos 500 anos de Teresa de Ávila quanto o centenário de Thomas Merton?

Bernini - O Êxtase de Santa Teresa
Bernini – O Êxtase de Santa Teresa

Para o teólogo Faustino Teixeira, a relação é evidente. Ambos se inserem numa tradição de Mística Nupcial — aquela cujo tema central é o do amor, que se insere no coração mesmo da divindade — na qual Teresa como também São João da Cruz são os ápices, e Merton, uma atualização no século XX. Aponta a força e a centralidade do amor na experiência contemplativa como a principal aproximação entre ambos. “Teresa vai assinalar os dois fundamentais imperativos da união mística: o amor a Deus e ao próximo. A união com o Mistério maior estará para ela garantida quando estes dois amores forem atuados com carinho e delicadeza.” Para Santa Teresa “o amor ao próximo nunca desabrochará perfeitamente se não brotar da raiz do amor de Deus”. De mesmo modo, Merton defendia que a vida no amor “constitui o ápice de seu itinerário espiritual e contemplativo”.

Thomas Merton
Thomas Merton

“Nesse caminho espiritual a oração ganha um lugar de centralidade, enquanto momento especial e garantido para a arrumação da casa interior, de unificação da vida”, aponta o teólogo, chamando atenção para a relação fundamental entre a interioridade e a ação. “O verdadeiro encontro com Deus ou o Mistério não isola o sujeito do mundo e do tempo. Ocorre em geral um momento de concentração espiritual, de quietude, de solidão”, relata. A sensação, no entanto, é sempre fruto do instante, pontual, “e essa experiência interior guarda o segredo essencial de uma retomada da experiência no mundo pontuada por olhar singular, de quem viveu a experiência radical da humildade e do despojamento”.

Teixeira trabalha ainda a corporalidade na obra de Teresa de Jesus, e os modos como esta entra com vigor na dinâmica amorosa com o Mistério sempre maior. “Teresa retomava sempre essa ideia da receptividade do Mistério através do suporte humano: ‘Deve-se buscar o criador por intermédio das criaturas’ (Vida, 22,8). Não sem razão, sua paixão imensa pela “sacratíssima humanidade” de Jesus. Na verdade, não há como excluir o corpo da experiência espiritual: corpo e espírito oram simultaneamente”.

1. Que nexos aproximam as trajetórias místicas de Teresa de Ávila e de Thomas Merton ?

Faustino Teixeira – A mística cristã ocidental trilhou caminhos singulares. Por um lado, temos uma tradição que privilegiou mais o caminho especulativo do conhecimento. Trata-se, como mostrou Henrique Cláudio de Lima Vaz, de uma mística que se firma no “prolongamento da experiência metafísica em termos de intensidade experiencial”. Ela expressa o substantivo esforço do espírito humano, no roteiro do logos, de penetrar “no domínio do translógico”. O seu itinerário bebe do dinâmico encontro entre cristianismo e platonismo. Por outro, temos a chamada “mística nupcial” (Brautmystik), que floresce no cristianismo — desde Orígines — com a interpretação alegórica do Cântico dos Cânticos. Ela atravessa a mística medieval, com a presença importante de Bernardo de Claraval e a mística cisterciense, e alcança seu ponto culminante, em riqueza simbólica e doutrinal, com São João da Cruz e Teresa de Ávila. Mas podemos acrescentar aí também a experiência cisterciense de Thomas Merton.

Não teria dúvida em apontar como nexo mais importante que vincula os dois grandes místicos, a força e centralidade do amor na experiência contemplativa. Isto era chave para Teresa, e também para Thomas Merton. Em suas Moradas, Teresa vai assinalar os dois fundamentais imperativos da união mística: o amor a Deus e ao próximo. A união com o Mistério maior estará para ela garantida quando estes dois amores forem atuados com carinho e delicadeza. Dizia: “Quanto mais adiantadas estiverdes no amor ao próximo, tanto mais o estareis no amor de Deus”. E depois complementa afirmando que “o amor ao próximo nunca desabrochará perfeitamente em nós se não brotar da raiz do amor de Deus”. Assim também em Merton, a vida no amor constitui o ápice de seu itinerário espiritual e contemplativo. Dizia numa de suas obras, A vida silenciosa (Petrópolis: Vozes, 2002), que o modo de ser “espiritual” da vida monástica envolve a encarnação no tempo, nas alegrias, dores, perigos e lutas que pontuam a dinâmica da criação. É justamente por estarem “absortos em Deus” que os santos voltavam-se com todo o seu empenho e vitalidade para ver, amar e apreciar as coisas criadas.

2. Em 2015 celebramos os 100 anos do nascimento de Merton e 500 anos do nascimento de Santa Teresa. Em que sentido suas trajetórias e seu “diálogo” com o Mistério inspiram a contemporaneidade e a crise epocal na qual estamos mergulhados?

Faustino Teixeira – Sem dúvida, o ano de 2015 estará adornado com estas duas lindas celebrações. Será a ocasião propícia para pensar com calma na crise epocal que nos envolve e preocupa. Já dizia Lima Vaz que toda nossa revolução antropocêntrica, que se desdobra agora nos descasos do Antropoceno, produziu uma “dissolução da inteligência espiritual”. Isso é muito grave e merece a nossa atenção. O grande legado de Teresa e Merton é uma convocação ao mundo interior, ao desapego, à desaceleração, de forma a afinar os sentidos para poder captar o canto da criação. Em página de seu diário, em outubro de 1965, Merton dizia: “Não venho à solidão para ‘atingir os pícaros da contemplação’, mas para descobrir penosamente, para mim mesmo e para meus irmãos, a verdadeira dimensão escatológica de nosso chamado”. A solidão para ele devia ser sempre sonora, com a disponibilidade de tudo abarcar, ela é simplesmente “a plenitude do amor que não rejeita nada e ninguém, que se abre para Todos em Tudo” (em página de seu diário, de 14 de abril de 1966).

3. A montanha dos sete patamares (Petrópolis: Vozes, 2005) fez de Merton o monge mais famoso do mundo. O que esse livro tem de especial?

Faustino Teixeira – É a obra que traça o primeiro itinerário espiritual de Merton e sua experiência de conversão. Não há quem leia esse livro sem se apaixonar. O caminho ali traçado é de uma beleza singular. Fala de seu nascimento nos Pirineus franceses, na presença acolhedora e artística de seus pais; de sua formação nos Estados Unidos e Inglaterra, bem como de suas viagens pela Europa. Em meio a um rico percurso cultural e político ele vive o chamado à conversão. Para esse momento de luz teve grande importância a presença de um monge, o Doutor Brahmachari, com o qual selou um caminho de amizade e confidência. E isto se deu em razão de uma convergência especial: os dois procuravam um “gênero de vida que tivesse Deus como centro”. Para Merton, foi certeiro o conselho recebido do monge: “Existem belíssimos livros místicos escritos pelos cristãos. Você devia ler as Confissões de Santo Agostinho e A Imitação de Cristo ”. O monge que vem de longe aconselha ao Merton buscador ceifar no âmbito da mística cristã o caminho de profundidade. Estava aberta a senha para o seu itinerário espiritual, que será desdobrado em sua experiência na Trapa.

4. Em que medida Thomas Merton foi um ativista do espírito, um argonauta explorando a alma cristã, uma ponte entre o Leste e o Oeste?

Faustino Teixeira – Muito boa essa referência a Merton como um argonauta do espírito. Isso me faz lembrar a aventura antropológica de Malinowski nas ilhas mais afastadas da Nova Guiné, e aquele seu relato maravilhoso sobre o início de sua expedição: “Imagine-se o leitor repentinamente sozinho, em meio a todo o seu equipamento, em uma praia tropical perto de uma aldeia nativa, enquanto a lancha ou o escaler que o trouxe vai-se afastando no mar até sumir de vista”. E aí o antropólogo se vê sozinho no alojamento, tendo então que empreender juntos aos “outros” o seu trabalho etnográfico.

Com Merton aconteceu algo semelhante: veio desafiado a viver a sua experiência monacal em radical abertura ao mundo da diferença. E o curioso nisso tudo é que, à medida que avançava em sua unificação interior, na vida meditativa, mais dilatava o caminho de sua abertura aos universos novos, e em particular ao budismo. O diálogo e abertura a esta tradição foi um dos principais interesses intelectuais e espirituais de Merton, que foi ganhando terreno na sua vida, sendo coroado na sua peregrinação asiática de 1968. No contato com os monges asiáticos pôde perceber a riqueza da vida contemplativa, para além da circunscrição cristã: “São especialistas em meditação e contemplação. Isto é o que mais me atrai. Não se pode calcular o valor do contato direto com gente que, na realidade, trabalhou a vida inteira treinando a mente e se libertando da paixão e da ilusão”. A experiência e contato com gente dessas grandes tradições asiáticas favoreceu um aprendizado novo para Merton, de que na abertura dialogal se firma uma maravilhosa oportunidade de aprendizado sobre as potencialidades da própria tradição cristã.

5. Qual é o grande legado místico de Teresa de Ávila e como se pode descrevê-lo?

Faustino Teixeira – Vejo como legado essa íntima conexão entre o amor espiritual e o amor humano. Não se trata, em hipótese alguma, de caminhos separados, como se houvesse duas vias paralelas e desvinculadas. Não, diz Teresa com toda a convicção, a experiência de Deus passa pelo caminho dos outros e das obras. Ela é enfática nesse ponto: “A oração serve para chegar aqui, filhas minhas. Eis a finalidade deste matrimônio espiritual: que dele nasçam obras, sempre obras” (VII M, 4,6). Amor a Deus e amor ao próximo, é o que pede o Senhor, diz Tereza com serenidade exemplar.

Nesse caminho espiritual a oração ganha um lugar de centralidade, enquanto momento especial e garantido para a arrumação da casa interior, de unificação da vida. É o momento em que água do rio deixa-se habitar pela água do céu, a ponto de confundirem-se num bailado de grandeza indizível. Advertindo, porém, aqueles que acabam se fechando no mundo da oração, Teresa indica que o essencial da vida espiritual não se encerra “nessas exterioridades”. Nada mais distante da vida espiritual autêntica do que ficar “encapotado” na oração. Ela assinala para as companheiras: “Não, irmãs, não é assim! O Senhor quer obras. Se vês uma enferma a quem podes dar algum alívio, não tenhas receio de perder a tua devoção e compadece-te dela. E se lhe sobrevém alguma dor, doa-te como se a sentisses em ti. Se for preciso, faze jejum para lhe dar de comer” (V M 3,11).

6. Em que medida se pode falar de um sentimento de plenitude e de união com o mundo e Deus a partir de sua vivência mística?

Faustino Teixeira – Os grandes místicos como João da Cruz, Teresa de Ávila, Thomas Merton e Teilhard de Chardin, para citar apenas alguns, insistem em mostrar que o verdadeiro encontro com Deus ou o Mistério não isola o sujeito do mundo e do tempo. Ocorre em geral um momento de concentração espiritual, de quietude, de solidão, de aprofundamento pessoal e destaque, mas sempre passageiro e pontual, e essa experiência interior guarda o segredo essencial de uma retomada da experiência no mundo pontuada por olhar singular, de quem viveu a experiência radical da humildade e do despojamento. Como diz o grande estudioso de João da Cruz, Jean Baruzzi , “são as coisas mesmas que, repudiadas no início com a negação da noite, voltam a ser absorvidas na alma, descobertas em Deus e apaixonadamente amadas em sua grandeza”.

7. No Livro da Vida, Teresa de Ávila diz que não somos anjos, já que temos um corpo. A partir dessa perspectiva, e pensando ainda na escultura de Bernini, como podemos compreender a relação entre a mística e o êxtase?

Faustino Teixeira – Gosto imensamente dessa citação de Teresa no Livro da Vida: “Não somos anjos, pois temos um corpo” (Vida, 22,10). Foi a expressão que Julia Kristeva escolheu para abrir o primeiro capítulo de seu livro: Thérèse mon amour (Fayard, 2008). É um tema que trabalho com afinco nas minhas aulas sobre Teresa de Ávila, a presença e participação do corpo em sua experiência mística. A corporalidade entra com vigor nessa dinâmica amorosa com o Mistério sempre maior. Teresa retomava sempre essa ideia da receptividade do Mistério através do suporte humano: “Deve-se buscar o criador por intermédio das criaturas” (Vida, 22,8). Não sem razão, sua paixão imensa pela “sacratíssima humanidade” de Jesus. Na verdade, não há como excluir o corpo da experiência espiritual: corpo e espírito oram simultaneamente. Como assinala Michel de Certeau , torna-se quase impossível dizer se o trabalho espiritual é fruto do corpo ou do espírito. O que ocorre é que os dois participam da experiência com a mesma intensidade (Sulla Mistica, Morcelliana, 2010).

Para exemplificar isso, Certeau faz recurso a uma narrativa da tradição cristã, que trata de monges dos primeiros tempos da igreja, em meados do III e IV séculos. Durante a noite mantinham-se de pé, em posição de espera. Altivos como as árvores, as mãos elevadas ao céu e o rosto voltado para o horizonte de onde nasceria o sol. Por toda a noite, seus corpos aguardavam o alçar da manhã. Essa era a sua oração, desprovida de palavras, ou melhor, as palavras vinham traduzidas naquele corpo em espera. Estavam simplesmente ali… Ao raiar do dia, quando os primeiros raios solares banhavam a palma de suas mãos, podiam então encerrar a atividade e repousar. Tudo isso, um trabalho conjugado do corpo com o espírito.

Quanto ao êxtase, Teresa trata desta questão com muita acuidade no Livro da Vida. O corpo, tomado pela presença do Senhor, envolvido pelo sentimento de sua viva presença, reverbera de emoção e ternura: “De maneira alguma podia duvidar de que o Senhor estivesse dentro de mim ou que eu estivesse toda mergulhada nele” (Vida 10, 1). Diante desta presença, o corpo e a alma desfalecem: o fôlego esvanece; os olhos se fecham e quase nada se vê; os sentidos perdem a sua função e a fala se torna difícil. A pessoa vem tomada pelo sentimento “de estar junto de Deus” e o que se passa é um “um não-entender entendendo”. Mas Teresa tinha consciência viva de que o êxtase que a tomava não era o mais decisivo e o mais importante. Não gostava, definitivamente, de viver uma tal experiência, sobretudo em público: ficava envergonhada e angustiada. Em linha de semelhança com os malamatis sufis, preferia guardar esse “abandono a Deus” para a intimidade com ele. A vida espiritual, dizia, deve estar sempre adornada pela humildade e pela gratuidade. Nesse sentido, o êxtase público podia enfraquecer esse dado e provocar a atração indevida, deslocando a atenção para o que deveria ser o verdadeiro horizonte da experiência: nada de bom procede do sujeito, mas de Deus (Vida, 31,14).

8. Para além da categoria da racionalidade, do logos, a mística de Teresa abre caminhos para a transcendência, para o Mistério. Em que aspectos esse canto das coisas desdobra uma vida mais radical ou mesmo irradiadora do Mistério?

Faustino Teixeira – Toda a mística de Teresa vem pontuada pela dinâmica do despojamento e da gratuidade. Sem essa chave fica difícil entender e penetrar na morada da sua vida espiritual. E o caminho para se trabalhar essa gratuidade é o que passa pela oração. Ela é esse “trato de amizade com Deus”, que vai polindo o sujeito, deslocando de si o centro de referência fundamental e favorecendo a dinâmica de uma transparência e disponibilidade que marcam o cerne da espiritualidade. Em linha de sintonia com Agostinho, Teresa insiste em dizer que “tudo vem de Deus”, e que é ele, com suas artimanhas, que possibilita essa introdução do sujeito no centro da Morada (VM 1,11-12). A presença junto ao Mistério, quando se pensa menos e se contempla mais, suscita a unificação da vida, que por sua vez joga o sujeito novamente no tempo para um acordo diferente com ele. É o momento da irradiação nas obras, quando cessa a dicotomia entre oração e ação. Como diz com acerto Teresa no Caminho da Perfeição: “Marta e Maria caminham juntas” (CP 31,5).

9. Qual é a importância de Teresa de Ávila reconhecer os limites da linguagem para nomear ou narrar o Indizível?

Faustino Teixeira – Interessante observar os prólogos das obras de grandes místicos como João da Cruz e Teresa de Ávila. No caso de João da Cruz, na abertura de seu Cântico Espiritual, ele aborda o que há de “inenarrável” nos gemidos que pontuam as expressões amorosas da inteligência mística. Quando a alma está inflamada em seu amor, ela não consegue dizer senão “dislates”. Daí se recorrer a “estranhas figuras e semelhanças” para expressar o vivido. Mas o fundamental, diz João da Cruz, para entender essa linguagem, é deixar-se habitar pela inteligência do amor, que de forma mais aguda que o saber tradicional favorece o saboreio do que ali se mostra como essencial. Igualmente Teresa, no prólogo de suas Moradas, fala da dificuldade de escrever sobre assuntos que versam sobre a oração, e em seguida, no primeiro capítulo das Primeiras Moradas, fala em “desatino”, pois o convite que se apresenta é no mínimo estranho: convidar alguém a entrar “numa sala onde já se encontra” (IM 1,5). A linguagem é pobre para expressar o que se vive “por experiência”, mas o místico, em seu desaforo, não deixa de falar sobre o impacto de uma “visita” que o desconcerta.

10. Em que essa impossibilidade do dizer instiga uma outra compreensão sobre a transcendência?

Faustino Teixeira – A transcendência, como diz João da Cruz, é sempre uma “ilha estranha”, estranha a todos os que participam da aventura humana. Não há como acessar o seu Mistério a não ser consciente das sombras que envolvem qualquer intelecção. Pseudo-Dionísio Aeropagita , no final do século V, dizia que “quanto mais olhamos para cima, mais os discursos se contraem pela contemplação das coisas inteligíveis”. Nicolau de Cusa (1401-1464), nos albores da modernidade, reiterava que o único caminho possível ao intelecto para o acesso ao Mistério maior, era dar-se conta de sua ignorância, colocando-se na sombra. O que conseguimos acessar do Mistério, diz Cusano, são parcas alusões, mediante sua captação velada “nas estrelas, nas cores e em todas as coisas”. Também João da Cruz em sua poesia dizia que quanto mais alto se ousa, tanto menos se entende. O Mistério transcende toda Ciência, e escapa a todo saber gestado em Salamanca! Sim, essa impossibilidade de dizer abertamente sobre o Mistério convoca à humildade e à kenosis, ou seja, a um procedimento indagativo diverso, marcado pela presença de uma sede que não se sacia (epektasis), e isto se traduz por abertura indefinida e disponibilidade de captação das originais e novidadeiras teias de um Mistério sempre maior.

11. Em que aspectos as Moradas de Teresa de Ávila revelam o Mistério eterno da união com Deus?

Faustino Teixeira – As Moradas de Teresa revelam o momento de sua maturidade espiritual, integrando a tríade essencial de sua perspectiva mística, junto com os livros: Vida e Caminho de Perfeição (São Paulo: Paulus, 2014). É a obra de Teresa que resume magistralmente sua teologia espiritual. Ali estão presentes os passos essenciais do caminho de acesso ao Mistério de Deus, e que revelam também o mistério do humano. São sete passos ou sete Moradas que traçam o itinerário do humano para o mais íntimo de seu ser, onde habita o braseiro de onde irradiam as mais ricas fragrâncias do Mistério que ao mesmo tempo nos envolve e escapa. Ali, no mais profundo de nós mesmos, ocorre o que há de mais delicado e gratuito na vida do humano. Os passos apresentados são também, na verdade, os passos fundamentais de dilatação do coração para que possa acolher o Mistério do Outro.

12. Gostaria de acrescentar algum aspecto não questionado?

Faustino Teixeira – Gostaria, sim, de falar de um dos traços mais bonitos da mística de Thomas Merton, que trata do “ponto virgem”. Um tema que o místico trabalhou num de seus livros mais ricos: Reflexões de um espectador culpado, 1966 (Petrópolis: Vozes, 1970). Merton viveu 27 anos no Mosteiro de Getsêmani, entre os anos de 1941 e 1968, sendo os três últimos como eremita. Durante esse período final de sua vida, viveu uma intensa experiência espiritual marcada pela atenção e escuta da natureza. Ao momento singular chamou de “trabalho de cela”, cujo objetivo maior era evitar que os sons do tempo, que a voz de Deus e de sua presença na natureza pudessem se dispersar. O seu contato mais íntimo com tudo o que ali viveu facultou-lhe perceber a presença de um “ponto cego e suave”, que é também um ponto que habita o mais íntimo do ser humano.

Na natureza ele pode ser observado nos primeiros momentos da manhã, com os primeiros pios dos pássaros, revelando a pureza virginal da aurora. Num céu “ainda desprovido de luz real”, quando a noite vai lentamente se despedindo para o aconchego da manhã, esse tempo nobre pode ser vivenciado: “É um momento de temor reverente e de inexprimível inocência, quando o Pai, em perfeito silêncio, lhes abre os olhos”; é também a ocasião mais maravilhosa do dia, “em que a criação em sua inocência pede licença para ‘ser’ de novo”. É um momento que guarda um “segredo inefável”, que exala a presença do Mistério e indica o traço mais nobre que habita o mais íntimo de cada um de nós.

Também no centro do humano, diz Merton, existe um “ponto virgem”, um ponto vazio, de “absoluta pobreza”, intocado ainda por qualquer dinâmica de maldade ou ilusão. Trata-se de um ponto-centelha, de “pura verdade”, que “pertence inteiramente a Deus”. Merton quis indicar com ele o caminho essencial perseguido pela experiência mística: de acessar novamente, através da humildade e do despojamento, esse pontinho de nada, que é a razão escondida do humano e que fornece a chave essencial de uma dinâmica alternativa para os caminhos da história. Merton relata uma experiência que teve em Louisville, na esquina de Fourth e Walnut, bem no centro do bairro comercial. Ali, em meio a toda aquela gente, se deu conta de que sua solidão não lhe pertencia. Foi subitamente despertado pela “secreta beleza de seus corações”, tocado pelo ponto suave da profundidade de cada um. E indagou: “Se ao menos todos eles pudessem ver-se uns aos outros deste modo, sempre. Não haveria mais Guerra, nem ódio, nem crueldade, nem ganância… Suponho que o grande problema é que cairíamos todos de joelhos, adorando-nos uns aos outros”.

Por: Márcia Junges e Andriolli Costa

(Os grifos são nossos)

Sobre Faustino Teixeira:

Faustino TeixeiraProfessor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora – PPCIR-UFJF, pesquisador do CNPq e consultor do ISER-Assessoria. É pós-doutor em Teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana. Entre suas publicações, encontram-se Teologia e pluralismo religioso (São Bernardo do Campo: Nhanduti Editora, 2012); Catolicismo plural: dinâmicas contemporâneas (Petrópolis: Vozes, 2009); Ecumenismo e diálogo inter-religioso (Aparecida do Norte: Santuário, 2008); Nas teias da delicadeza: Itinerários místicos (São Paulo: Paulinas, 2006); No limiar do mistério. Mística e religião (São Paulo: Paulinas, 2004); e Os caminhos da mística (São Paulo: Paulinas, 2012).

Fonte:

IHU

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