Entrevista com Francisco Foot Hardman

“A intolerância é a recusa frontal ao espaço da linguagem e da palavra, que é sempre dialogal. É a negação do princípio do conhecimento, fundante de qualquer processo educativo… O ódio nasce sempre do desconhecimento e do medo do outro.

Por: Márcia Junges e Ricardo Machado

Professor e pesquisador, entrevistado por e-mail pelo IHU On-line, Francisco Foot Hartman analisa os processos sociais que desembocam no ódio, que na sua avaliação deriva sempre do desconhecimento e do medo do outro.

Confira a entrevista.

1. Há nexos entre a intolerância e a modernidade? Por quê? Até que ponto isso é um paradoxo?

Francisco Foot Hardman – Com a modernidade-mundo, entendida como a expansão em nível planetário do capitalismo comercial, industrial e financeiro a partir da Europa Ocidental e desde o século XV. A chamada globalização nas últimas décadas nada mais é do que a continuidade e aceleração desse processo, com a “financeirização” da economia em todos os continentes e a submissão do trabalho e da produção ao capital fictício, ou seja, à reprodução em escala ampliadíssima e velocíssima, virtual-real, do esquema de valor Dinheiro-Dinheiro. Esse cenário, diga-se de passagem, foi visionariamente previsto por Karl Marx, ainda na segunda metade do século XIX, quando dele somente se vislumbravam traços e tendências. Sua consequência mais determinada e incontornável é a transformação de coisas, pessoas, instituições e relações sociais em mercadorias, em valores comparáveis e intercambiáveis tendo como medida e equivalente geral o Coringa, o Mamon, o Deus-Dinheiro. Não há propriamente paradoxo, pois a contradição é intrínseca a todo esse processo e ao sistema de trocas entre desiguais que gera, alimenta e reproduz. A intolerância, em todas as esferas da vida social, é apenas um aspecto do confronto entre regimes sociais voltados para a submissão das vontades dispersas e todas as manifestações de diferença, diversidade, dissidência, oposição e crítica que ainda teimam em existir e lutar contra a negação dessa existência-ainda-não-submissa.

2. Quais são os pensadores fundamentais para discutirmos e pensarmos a temática da tolerância/intolerância?

Francisco Foot Hardman – Bem, a lista poderia ser enorme. A questão é por demais geral e possibilitaria programas inteiros de cursos voltados ao seu estudo.

Numa visada contemporânea, de inventário lexical e conceitual, não poderia deixar de recomendar o trabalho dirigido pela filósofa italiana Michela Marzano, cuja edição mais acessível saiu na França (Paris, PUF, 2011), intitulado Dictionnaire de la violence. São mais de 1.500 páginas de um esforço de pesquisa notável, feito por equipe das mais competentes. Lembro também das obras do sociólogo da École des Hautes Études en Sciences Sociales, em Paris, Michel Wieviorka, que reflete, sempre em interface com a filosofia e a psicanálise, sobre os novos paradigmas da violência. Historicamente, não há como fugir de Karl Marx, ele continua a ser “o cara” na antevisão de um mundo dominado pelos delírios e cegueiras do fetiche-mercadoria, e de todas as violências cometidas em nome desse ídolo maior. Em torno à geração de pensadores que inspiraram e foram inspirados, ao mesmo tempo, pelos ares de 1968, eu citaria, em registros e tradições diversas, mas ambas interessantes, Herbert Marcuse e Michel Foucault. E para ficar com autores ainda mais contemporâneos e diversos entre si, eu lembro, para completar essa brevíssima listagem, do paquistanês editor da New Left Review, Tariq Ali, grande analista do choque entre os fundamentalismos ocidental e oriental; do filósofo-filólogo italiano Giorgio Agamben, cujo ceticismo em relação à brutalidade do tempo presente está cada vez mais impregnado de um retorno a tradições judaico-cristãs primordiais; e do filósofo-polemista alemão Peter SloterdijK, cujo ceticismo em relação ao cenário caótico global vem sendo por sua vez modulado pela busca de razões esquecidas nas civilizações antigas da Índia e da China, em especial na sua formulação inusitada de um “euro-taoísmo”.

3. Por que a intolerância é a antessala da violência?

Francisco Foot Hardman – Alguma dúvida? A intolerância é a recusa frontal ao espaço da linguagem e da palavra, que é sempre dialogal. É a negação do princípio do conhecimento, fundante de qualquer processo educativo. E quem não tem argumento, tenta superar essa inferioridade indo para a porrada. Fiquemos num exemplo histórico, para mim extremamente didático na sua clareza sinistra, na violência que já se revela nos seus próprios termos. Os franquistas espanhóis, versão canhestra e provinciana do fascismo italiano, este por sua vez a caricatura terrível do nazismo alemão, adotavam entre seus slogans diletos: “Morte à inteligência!”. É preciso explicar mais?… A estupidez humana, se não é socialmente controlada, não possui limites… Fiquemos agora com a menina de 11 anos, Kayllane, praticante de candomblé e apedrejada na Vila da Penha, Rio de Janeiro, fato ocorrido em junho de 2014. Este é o Brasil real em que vivemos, onde a barbárie moderna está plenamente instalada, com todos seus ingredientes de intolerância-violência.

4. E em que aspectos a violência é a negação da política? Nesse sentido, vivemos um tempo em que a política vive no leito de morte?

Francisco Foot Hardman – A política, no sentido originário da polis, é a arte da convivência e da resolução dos conflitos na cidade. Pressupõe espaço público, debate, confronto dialógico das diferenças, reunião, deliberação por mecanismos de voto, representação etc. Este modelo está evidentemente em crise, em todo o mundo, em ritmos e aspectos diferenciados. A violência é a negação primária desse conceito e das práticas que lhe são próprias. O filósofo Paulo Arantes, no seu belo livro O novo tempo do mundo (Boitempo, 2014) fala no fim da temporalidade histórica própria da modernidade, tanto na era das revoluções quanto contrarrevoluções, introduzindo a ideia de um “tempo das insurgências”, onde a violência dos aparatos repressivos estatais, mais ou menos democráticos, alterna-se com os levantes dos despossuídos de todos os quadrantes. Dá sem dúvida o que pensar, e muito. Mas eu prefiro ainda pensar numa micropolítica das resistências sociais e ecológicas. Quando concedo aqui esta entrevista à revista do IHU estou fazendo política. E as pessoas que puderem, para minha felicidade, ler essas linhas e páginas, também estarão fazendo política. Frágil, é verdade, insuficiente para mudar estruturas sólidas de poder, mas necessária como novo momento de aglutinação de vontades humanas dispersas e não submissas ainda aos mais requintados mecanismos de “morte da inteligência”.

5. Nessa perspectiva, como analisa o cenário político brasileiro, sobretudo no que diz respeito à última eleição presidencial e aos protestos ocorridos este ano?

Francisco Foot Hardman – Quem, afinal, dá a última palavra, o eleitor-cidadão, ou as finanças-corporações? O sistema político eleitoral, como um todo, esgotou sua capacidade de refletir uma democracia representativa digna desse nome. A propaganda oficial foi um espetáculo digno de regimes autoritários, tanto no campo petista quanto no tucanato. A explosão de manifestações de direita ou até extrema-direita, a partir de março passado, espelham um retrocesso possibilitado também pelo imobilismo e alianças espúrias do Partido dos Trabalhadores. O Congresso Nacional, para não falar da maioria dos legislativos estaduais, está hoje dominado pelas forças mais reacionárias do país. E o partido governista, e com ele o Governo Federal, caminham a reboque da claque peemedebista que passou a controlar hegemonicamente a Câmara e o Senado. A tese da “governabilidade” decantada em prosa e verso desde os tempos do estratego Zé Dirceu esboroou-se diante dos interesses imediatistas do clientelismo e do patrimonialismo. O PT passou a ser não um partido do governo, mas governado. É um impasse muito grave. Mas apostar na fúria dos coxinhas como alternativa de poder é dar um passo na direção do aventureirismo oportunista mais arriscado e sórdido. Aécio Neves tem apostado nessa via. Poderá um dia vencer e logo a sociedade verá quebrar suas ilusões. Isso se ele não quebrar a cara muito antes. Já o PMDB mostra-se hoje como herdeiro mais promissor da ditadura militar: de oposição oficial consentida passou a organismo federado de velhas e conhecidas oligarquias, um balcão de negócios sem nenhum escrúpulo. A grande obra peemedebista, hoje, chama-se shopping center parlamentar. Nada mais didático ou ilustrativo.

6. Em que medida a superficialidade e a irracionalidade disseminadas pelas redes sociais servem como combustível para o radicalismo e a incivilidade?

Francisco Foot Hardman – Durante a ditadura militar, e isso vale em geral para regimes autoritários ou totalitários, a censura geral da informação era uma maneira eficaz de controle social. Já no momento “democrático” presente, e isso não é apenas um “caso brasileiro”, a censura faz-se, ao contrário, pelo excesso de “informação”, pelo excesso de “participação”, de “comentários” infinitos, produzindo uma grande ilusão de igualdade que escamoteia as verdadeiras cadeias do poder estatal-corporativo-midiático. Xinga-se livre e impunemente, proclama-se a morte do adversário pela impotência de discutir qualquer ideia, conceito ou projeto. A desinformação geral e ampla, aliada à falência dos sistemas públicos de educação, são matéria-prima da ignorância e do preconceito tornados nova ditadura de opiniões. Da intolerância e violência verbais e virtuais à violência física concreta, é apenas um pulo. E todos ficam eufóricos nessa explosão egoico-fascitoide de “eus-mínimos” (cf. Christopher LASCH). Nada mais sintomático da barbárie moderna e civilizada do que tal fenômeno.

7. Pode-se falar em um esgotamento do modelo político que experimentamos? Quais são as raízes desse esgotamento?

Francisco Foot Hardman – Estou convencido de que o regime político instaurado pós-ditadura militar, em 1985, e denominado algo ufanisticamente de “Nova República” pela Constituição de 1988 que o legalizou e legitimou, esgotou seu ciclo histórico. As raízes dessa crise geral vêm de longe, mas suas contradições se acirraram nos dois últimos anos. O atual regime político pode até sobreviver por algum tempo, mas será aos trancos e barrancos e cada vez mais permeado por crises institucionais e socioambientais insolúveis. Por isso vejo que os movimentos sociais, as forças de esquerda e coletivos mudancistas devem juntar esforços no sentido da luta por uma Assembleia Constituinte livre, soberana e exclusiva. Tarefa dificílima, mas o único processo que pode levar a uma transformação da conjuntura no sentido de uma democracia social efetiva.

8. Até que ponto a intolerância descamba em desigualdade e, por conseguinte, em injustiça?

Francisco Foot Hardman – Diria que muito mais as desigualdades sociais seculares, essas sim descambam no mais das vezes em intolerância e violências as mais funestas. E também em injustiça “estrutural”. Basta ver a composição social e étnica da nossa população carcerária, que agora em junho, segundo o Conselho Nacional de Justiça, ultrapassou a marca dos 700 mil e se tornou a terceira maior do mundo, para se ter uma radiografia da justiça desigualmente aplicada contra pobres, pretos e mestiços.

9. Em que aspectos o entrecruzamento de diferentes crises é um dos esteios da situação de intolerância que experimentamos em termos civilizacionais?

Francisco Foot Hardman – Sim, creio que vivemos uma confluência de crises conjugadas e interativas em seu poder de reprodução ampliada. De um lado, o par crise política—crise econômica. De outro, o par crise social—crise ambiental. Esses dois pares de contradições e crises interligadas articulam-se num conjunto mais complexo, que pode levar ou está levando para um colapso mais profundo e sem retorno da vida individual e coletiva. Aqui, afinal, não estamos sós. Os dilemas e impasses cá comentados espraiam-se, em graus e manifestações diversas, por todo o planeta. A globalização, longe de ser a do Estado de Direito ou Estado do Bem-Estar (já nem se cogita da utopia socialista soterrada a partir da queda do muro de Berlim em 1989), tem muito mais para ser a do Estado de Tragédia Humanitária Permanente ou a da normalidade como Estado de Exceção. Cerca de 60 milhões de refugiados no mundo, em 2014, por motivo de guerras, perseguições religiosas, étnicas, nacionalistas ou mudanças climáticas extremas. Este número, agora mesmo divulgado pela ONU, excede em muito todos os outros registros estatísticos feitos pela agência. Imagina-se, ingenuamente, às vezes, que estamos longe desse quadro. Não estamos mais. Fazemos parte inerente dele. Nossos índices de homicídios são recordistas em qualquer ranking entre nações conflagradas. O Haiti, definitivamente, também é aqui.

10. Qual é a atualidade das contribuições teóricas de Gilberto Freyre, Raymundo Faoro e Sérgio Buarque de Holanda para compreendermos as raízes da intolerância no Brasil e a situação política atual?

Francisco Foot Hardman – Gilberto Freyre foi um dos maiores pesquisadores sociais e prosadores literários no Brasil do século XX, no gênero do ensaísmo histórico-cultural. Mas não esqueçamos, sua perspectiva sempre foi conservadora. Sua ideia de democracia racial poderia ser boa para a casa-grande, mas sempre foi ruim para a senzala. Nos anos 1970, quando me formei, Freyre era barrado no baile da maior parte dos cursos de ciências humanas no Brasil, por sua simpatia à ditadura militar no Brasil e ao salazarismo e colonialismo português. Depois, em tempos democráticos, quando o liberalismo conservador norte-americano penetrou como nunca nas ciências sociais brasileiras, passou-se a glamourizar sua figura, junto com certa revisão mais adocicada da escravidão colonial. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Trata-se de autor fundamental, mas não é demônio nem santo. Sérgio Buarque de Holanda possui, afora também toda sua glamourização atual, traços de muitas afinidades eletivas com Gilberto Freyre, inclusive na matriz comum de um conservadorismo romântico que perpassa a ambos. Por mais que tenha querido se desvencilhar de uma ideia mitológica acerca da “cordialidade brasileira”, ao polemizar com Cassiano Ricardo, entre outros, o impasse dessa construção persiste. E seu apego a outro mito da ideologia paulista, o do bandeirantismo, é realmente um caso sério. Maria Sylvia de Carvalho Franco, minha estimada orientadora de doutorado em filosofia na Universidade de São Paulo – USP, tem sido uma crítica pioneira e corajosa na desconstrução do ora mito “Sérgio Buarque de Holanda”. Além de ter sido ela própria uma arguta analista das raízes do poder agrário capitalista no Brasil, com seu clássico estudo Homens livres na ordem escravocrata (São Paulo: Editora Unesp, 1997 – 4ª edição), que vai muito além dos dualismos recorrentes nas leituras sobre a nossa formação social, sejam os de matiz marxista mecanicista, sejam os de certa sociologia funcionalista. Dos três autores citados, Raymundo Faoro em Os donos do poder (Rio de Janeiro: Editora Globo, 2001 – 3ª edição) produz a análise mais bem acabada acerca das origens e desenvolvimento do patrimonialismo rural e logo como aspecto organizador das estruturas burocráticas do poder de Estado. Seu estudo até hoje é dos mais atuais ao desvelar as mazelas de nosso sistema político tão moderno em seu vigoroso arcaísmo.

11. Como analisa as manifestações de intolerância em nosso país em relação aos povos originários, aos afrodescendentes e aos homossexuais? Qual é a racionalidade que move os ódios contra essas pessoas?

Francisco Foot Hardman – Nenhuma racionalidade, o ódio é sempre expressão da irracionalidade constituinte de boa parte de nossa vida psíquica, já antevira Freud. As manifestações contra os grupos acima referidos é a negação dos seus respectivos direitos à plena inclusão na sociedade nacional. O ódio nasce sempre do desconhecimento e do medo do outro. Mas isso não é fenômeno específico do Brasil, basta ver, por exemplo, o comportamento racista, machista e, no limite, fascista, de tantas torcidas futebolísticas mundo afora.

(Os grifos são nossos)

Sobre o autor:

foto1FootFrancisco Foot Hardman é bacharel em Ciências Sociais – Política pela Universidade Estadual de Campinas – Unicamp e licenciado em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP. Realizou mestrado em Ciência Política pela Unicamp e doutorado em Filosofia pela Universidade de São Paulo – USP. Atualmente é professor da Unicamp, atuando como docente do Programa de Pós-Graduação em Teoria e História Literária do Instituto de Estudos da Linguagem – IEL, desde 1987. Recebeu, em 2011, o Prêmio de Reconhecimento Acadêmico Zeferino Vaz e, em 2012, o Prêmio de Reconhecimento Docente pela Dedicação ao Ensino de Graduação, ambos da Unicamp. É autor de várias obras, entre as quais destacamos Morte e Progresso: Cultura Brasileira Como Apagamento de Rastros (São Paulo: Unesp, 1999), Nem Pátria, Nem Patrão!: memória operária, cultura e literatura no Brasil (São Paulo: UNESP, 2002 – 3ª edição), Trem-fantasma: a ferrovia Madeira-Mamoré e a modernidade na selva (São Paulo: Companhia das Letras, 2005 – 2ª edição), A Vingança da Hileia: Euclides da Cunha, a Amazônia e a Literatura Moderna (São Paulo: Editora Unesp, 2009).

Fonte:

IHU

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