A conferência do padre Francisco de Roux, jesuíta, envolvido no processo de Paz na Colômbia abriu o terceiro dia do “Simpósio FAJE-PUC Minas – Religiões para a paz ou para a guerra? Diálogos Transdisciplinares.”

Foto Diego Hernández Acero

De Roux fundou e dirigiu o Programa de Desenvolvimento e Paz da Colômbia e é uma das pessoas mais respeitadas sobre os temas das lutas dos camponeses e dos processos de construção da paz naquele país. Nos últimos anos, o Padre De Roux é consultor para muitas organizações internacionais sobre questões de Economia Solidária, Desenvolvimento, Justiça e Paz. Tem várias publicações sobre “Economia da Colômbia” e vários livros em diferentes idiomas, em colaboração com os outros sobre questões de ética pública, conflito social e desenvolvimento econômico. Recebeu vários prêmios, incluindo a medalha de “Cavaleiro da Legião de Honra francesa”. Ele também recebeu, na Colômbia, o Prêmio Nacional da Paz em 2001.

Durante uma palestra densa, de um intelectual e também ativista comprometido com os processos de construção da paz colombiano, o palestrante fez uma longa análise sociopolítica e cultural das disputas envolvendo as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC’s) e o governo local. “Na Colômbia, as imagens de Deus estão impactadas pela guerra; estão marcadas pela luta e pela vida de um povo”.

A guerra na Colômbia dura mais de 50 anos. É uma guerra entre católicos. Começa com os processos de exclusão e violência contra os camponeses, na década de 1930, a partir de uma disputa entre os partidos liberal e conservador. Em 1965, as FARC’s e o Exército de Libertação Nacional (ELN) começam uma luta armada contra a exclusão no campo. Em 1970, grupos paramilitares levantam-se contra as guerrilhas. Esses grupos são financiados pelo narcotráfico e por empresários locais e contam com o apoio do Exército Colombiano.

Com o apoio bélico e econômico dos Estados Unidos da América, a pretensa guerra contra o narcotráfico radicalizou, ainda mais, as disputas entre os vários grupos armados: foram 24 mil sequestros; 18 mil execuções; 17 mil desaparecidos; 260 mil mortos, sendo 200 mil civis; 13 mil vítimas de explosões de minas; sete milhões de refugiados e mais de mil jovens inocentes detidos, assassinados e apresentados como guerrilheiros.

Neste cenário dantesco, é possível verificar várias imagens de Deus na guerra:

– Um Deus tribal da nova cristandade, do bispo Ezequiel Moreno, contra os socialistas e liberais;

– Um Deus dos Exércitos, defendido pelo episcopado católico, com vários capelães militares a serviço do Exército;

– Um Deus da ideologia católica capitalista, dos empresários, cujo entendimento é que a lei divina se submete à lei do mercado e, portanto, um Deus que provê segurança armada para defender seus negócios e propriedade;

– Um Deus revolucionário, dos anos 1960, que, na figura do Pe. Camilo Torres, pega nas armas e une-se a guerrilha para lutar contra a injustiça social e demandar reformas estruturais no país;

– Um Deus não-violento na luta pela justiça; uma não-violência ativa, baseada nos princípios da Teologia da Libertação e nos rituais de canções e celebrações eucarísticas, sendo que muitos que seguiram esse caminho foram assassinados;

– Um Deus do pacifismo cultual distanciado; de uma igreja que prega a consolação do povo. Segundo De Roux, desde meados da década de 1980, a Igreja convida os católicos a regressarem aos templos; aos sacramentos. É um Deus indiferente às lutas e sofrimento do povo, que não trata de política e que faz com que a Igreja desapareça do espaço público e dos grandes debates sociais.

O atual processo de construção da paz, iniciado em 2010, está em sua primeira etapa, chamada Peacemaking (pacificação). Trata-se, primeiramente, de acabar com a guerra; estimular os grupos armados a abandonarem o narcotráfico; reconhecer o direito das guerrilhas em organizarem-se como partidos políticos; promover acordos agrários e políticos, buscando a reconciliação, por um lado, mas, também, a busca da justiça, o respeito à memória, à verdade e a pactuação em torno de condições que não permitam a repetição da guerra.

Há, ainda, um segundo passo: a construção da paz (peacebulding): trata-se da pactuação em torno de mudanças estruturais e negociações tendo em vista a paz territorial, dado que há muita diversidade nas várias regiões do país.

Tendo apresentado as imagens de Deus no processo de diálogo pela paz, padre Francisco de Roux referiu-se a um Deus dos Direitos Humanos, preocupado com as causas dos perseguidos e oprimidos; um bom pastor de conhece suas ovelhas e também conhece os lobos. Há, também, um Deus armado, do esquema revolucionário; um Deus da dignidade; um Deus apaixonado por todos os seres humanos; um Deus justiceiro que exige punição; um Deus da compaixão restauradora e um Deus das vítimas. São diversos discursos e práticas religiosas sobre Deus que instigam os mediadores nos processos de construção da paz.

Os desafios são enormes: é preciso que o ELN também apoie os acordos entre o governo colombiano e as FARC’s, selados recentemente em Cuba. Esses acordos demandam aprovação política – o que ocorrerá através de um referendum. Por fim, há que se avançar em causas mobilizadoras para além dos interesses individuais e de grupos, com o objetivo de superação a polarização e ódio difusos no país.

Robson Sávio Reis Souza

Membro da equipe executiva do Observatório da Evangelização.

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